terça-feira, 16 de outubro de 2012

A vida surpreende.. Ah! se surpreende.



A vida surpreende. Ah! se surpreende. Um lugar comum sobre ela: em um momento você pensa ter todas as respostas, mas ela vem e muda todas as perguntas.
Mas nem sempre é assim. Fica tudo mais gostoso quando a vida, ao invés de mudar as perguntas, vem com tudo e o que ela muda mesmo são todas as nossas respostas.
Quem antes era importante, passa a ser apenas “uma lembrança” (e isso, quando esse alguém nos foi muito em algum dia). Já naqueles casos em que talvez tenha sido muito menos do que pensávamos que era ou mesmo em que nem tenha sequer chegado a ser o tanto que teríamos permitido, esse alguém não passa de uma simples passagem de uma vida de muitas passagens.
De repente, quando menos nos damos conta, nosso dia se faz cheio de uma outra e diferente (e muita vezes melhor!)alegria. É outro o bom dia que dá cor ao nosso dia; é outro o sorriso capaz de nos fazer sorrir. E isso é bom.
E é isso que faz a vida tão boa, tão rara: sorrisos que trazem sorrisos, olhos que trazem brilhos em outros olhos, lembranças que inspiram sonhos e sonhos que fazem sentir prazer em sonhar. Acordamos e esperamos o primeiro minuto que fará todos os outros pararem ao mesmo tempo em que parecem passar tão depressa e, mesmo quando parece que estamos parados e que o agora é o contrário de tudo que parece poder ser ainda melhor, nos sentimos vivos porque sorrimos ao invés de chorar.
Ah! A delícia da liberdade de sorrir quando não há mais dor.
O sorriso de hoje não é nem pior e nem melhor do que o de antes. Mas ele é o único que é de verdade, porque é o que sorrimos agora! E que bom que sorrimos... Sorrir por causa de nós mesmos é uma ótima forma de sorrir, mas ter quem nos faça sorrir por causa de si (que num instante parece metade ideal de quem somos nós) é ainda melhor. E, então, estamos sorrindo esse sorriso que gostamos de sorrir.
Eu sorrio; tu sorris e se eles sorriem bom pra eles que sorriem como sorrimos nós.
Ciclos...
Os rompimentos que fazemos com as nossas muitas vidas e suas mais diferentes fases assustam. Alguns são tão impensáveis dias antes que nem nós entendemos como chegamos “aqui”. Mas chegamos, estamos e prosseguiremos e é quando olhamos pra frente e deixamos que o passado cuide do que ficou, que a vida vem e nos surpreende. Ah! Se surpreende... e como surpreende...

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Nosso destino é ser igual?


Então, a vida da gente é uma repetição da vida dos outros?
Será que viver é esse ciclo repetitivo onde o que eu faço é o que outros já fizeram?
A vida é mesmo um museu de grandes novidades, como diria o grande Cazuza?
Ou não será verdade que quase todos parecem ter as mesmas angústias, as mesmas dúvidas, os mesmos receios e necessidades semelhantes?
Somos mesmo todos iguais? Somos todos iguais desde quando? Somos desde sempre iguais em quase tudo? Ou fomos convencidos a termos as mesmas dúvidas e os mesmos quereres para que, cada vez mais iguais, não se reparem nos “erros” de quem seja diferente?
Nascer, crescer, trabalhar, casar, ter filhos, criar filhos, trabalhar, morrer (não necessariamente nessa ordem de meio). Sabemos nosso começo e nosso fim, temos um espaço pra preencher, mas, invariavelmente, acabamos preenchendo todos de um mesmo jeito, cada um com as suas prioridades. É como se já tenham traçado nossos caminhos. A escolha que dizem que temos é limitada por uma série de fatores que nos são impostos e, no mais das vezes, aceitamos. Assumimos como sendo bons, como sendo certos.
Andamos nas ruas e, se nos ocuparmos de olharmos para fora de nós, veremos rostos marcados pelo cansaço e pela dor de pessoas que não são elas próprias, mas sim, o resultado de um roteiro que lhes traçaram ainda antes de existirem. Muitas vezes não fazem o que gostam, mas sim, o que precisam. Toleram o dia de hoje em nome do pagamento de amanhã e até esse parecerá pouco diante do sacrifício que, no mais das vezes, é muito.
Olhamos casais e vemos que estão juntos pelo hábito de estarem juntos. Não se fazem mais felizes (talvez nunca tenham se feito felizes), mas as circunstâncias indicam que seu lugar é ao lado daquele estranho que ele conhece há tantos anos. O esposo olha pra esposa e não vê alguém para amar, cuidar e respeitar, mas sim, a castradora de seus sonhos de outrora. Aquela que impede sua felicidade agora, porque ele está preso num compromisso do qual, muitas vezes, ela também quer sair.
Por sua vez, a esposa, independente financeiramente, não consegue entender que aquele homem que lhe seria o companheiro, nunca lhe foi. Antes, quisera ser o senhor da vontade de ambos, não conseguindo aceitar que ela, ser pensante e que sente, também tem vontades e também as quer realizadas. Vivem uma guerra de vontades que, ao invés de aproximá-los, termina por lhes afastar de uma forma irremediável.
A esposa tolera o esposo que por sua vez suporta a esposa e ambos não veem que ainda há tempo de serem felizes numa vida diferente de agora.
Nascer, crescer, trabalhar, casar, ter filhos, criar filhos, trabalhar, morrer. Não. Não fugiremos desse destino. Esse é o maktub mais certo que há. Como faremos isso só depende de nós. A dor é optativa. Sente-se uma vez, mas continuar sentindo é uma opção de quem já desistiu do melhor que a vida pode oferecer.
Eu sei que lendo essas linhas pode se pensar que viver é uma merda. Talvez, às vezes até seja. Desde que você opte por não fazer, por não se mexer. Por patinar no mesmo lugar em nome de medos que te impedem de se sentir vivo.
Tua primeira escolha deve ser você. Todos que te amam, te querem bem ou até precisam de você, não estarão bem se você não estiver. A dor do pai será sempre a dor do filho; a dor do filho trará dor ao pai. O bom amigo se ressente na tristeza de seu amigo e o marido de verdade se ocupa da lágrima da mulher. A boa esposa é a razão do sorriso do marido e quando não são, não há mais porque se ser, nem continuar sendo.
O tempo é já e é só ele que temos. Ninguém vive sozinho e nisso somos novamente iguais.
Nascer, crescer, trabalhar, casar, ter filhos, criar filhos, trabalhar, morrer. Mas, acima de tudo, VIVER!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Diálogo do adeus ao que pouco (ou nunca! e talvez nada) existiu


- E como você imaginou que seria?
- Diferente... diferente de tudo. Eu sorriria por causa do teu sorriso que se abriria por causa de mim. Não haveria problema impossível de se enfrentar e o fim pareceria uma ideia absurda. Quando eu chegasse cansado, o teu abraço me daria força e, se de repente eu viesse a chorar, o teu carinho é que me faria feliz.
- Mas você fala como se a vida fosse só o que é bom, como se tudo fosse fácil e nada fosse difícil, como se não fôssemos ter problemas, tristezas, como se pudesse ter certeza de que tudo seria perfeito...
- Não. A vida não é mesmo só o que é bom. Mas você sempre foi. Quando eu pensava nessa loucura de nós dois era como se ao teu lado eu pudesse me sentir invencível. Era como se... como se por ser você já valesse a pena. Pra te fazer feliz, pra você se orgulhar de mim. Quando ficasse difícil você seria o principal motivo para conseguir mesmo assim, porque chegou um momento em que não consegui mais pensar em mim onde não houvesse a minha metade que me fazia vivo e só me via e me sentia vivo quando me via com você... sou muito louco, né?
- Se você é, eu também sou. Mas tenta me entender. Não se trata só de experimentar o que se sente. Há vidas, histórias, instantes, momentos em jogo. É difícil... eu sei quem eu sou, assim, desse jeito de agora. Mudar tudo, mes...mesmo com você, me assusta, porque eu... eu deixaria de ser essa aqui que se olha no espelho, se vê triste, se vê só, mas já se acostumou. Por mais que eu pense mais do que deva, por mais que eu sinta o que não deveria sentir e por mais que tudo que eu queira seja com você, o fato é que eu... eu não sei quem seria essa mulher que serei eu. Eu seria feliz e ser feliz não parece alguém que seja eu. Desisti desse tipo de felicidade...
- Bobagem. Sei que assim como eu, você se sente feliz só de saber que eu logo chegarei no meio do teu dia. Sei que eu surjo e você sente uma felicidade que é verdadeira e, quando eu apareço, teu dia se ilumina. Eu sei porque é assim comigo quando me surge você. Tudo que eu espero no meu dia desde o primeiro minuto em que ele começa é que ele me traga você.
- Nããão. Não pode ser assim. Você nem me conhece. Não teve tempo de saber dos meus defeitos, das minhas manias, de quem eu sou quando ninguém me olha. Do que eu faço e você não vai gostar. Você tem a parte de mim que te mostro. E só. Você quer o teu ideal de mim e eu não posso ser comparada a imagem que você faz de mim. Não dá pra eu sair de onde estou para correr o risco de não ser quem você quer que eu seja. Tudo isso é loucura. É carência. É bobagem, é bobeira.
- Mas não me interessa. Me chame de louco, de inconsequente. Eu quero você e ponto. Quero descobrir quem você é enquanto estou com você. Se é que você não é quem eu penso, pior pro que eu penso que perdeu tempo de não te saber exatamente como você é.
- É fácil falar...
- Não é. Eu tinha jurado pra mim mesmo calar qualquer voz que me fizesse querer alguém desse jeito que quero você, mas quando deito e o silêncio da noite é único som que me cerca, ele sussurra tua voz. Se não consigo dormir e saio à varanda e olho as estrelas, elas me mostram teus olhos. Se tento fugir da imagem do teu rosto e fecho meus olhos, sinto como se a brisa me trouxesse o perfume de você. O dia me lembra você e a noite me faz sentir tua falta. Sentir falta de quem não tenho... e só sinto isso com você.
- Lindo! Mil vezes lindo! Seja o que você me diz. Seja o que você nos sonha. Seja tudo que penso de nós. É lindo, mas tem que morrer aqui. Não vai dar certo. Não é certo! Talvez numa outra vida, num outro momento, uma outra história. Eu quero o que não posso querer. Você quer o que talvez nem saiba bem o que seja, mas uma parte de mim só vê tristeza nessa história feliz. E triste eu já sou assim e me acostumei assim... quando você sair e bater a porta uma parte de mim vai dormir sem querer se acordada. Enquanto dorme, vai sonhar os momentos que não viveremos e vai viver todo esse amor que os dois sonhamos. Eu vou chorar e cada lágrima vai ser só uma parte de uma dor que não era pra vir de ti e eu não vou ficar bem. Mas vou te proteger de mim. Te proteger de uma história em que basta que um perca, basta que um sofra... basta! Saia daqui. Meus olhos não são tão fortes e eu não quero que me veja chorar. Teus olhos estão tristes e meu peito dói quando vejo que a mesma força que faço, você faz contra as lágrimas dos olhos teus. Não vou conhecer teu beijo e nem posso precisar do teu abraço. Mas vá. Vá e se puder me esqueça...  Agora, se me lembrar, me lembre com o mesmo amor que me faz te pedir pra partir.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Tempo do Meu tempo nesses tempos


Como as estrelas que brilham lindas na noite que se faz escura,
E dão beleza (e cor) ao que antes era medo e escuridão
Tu és quem enche de brilho mil vidas e à vida triste traz sentido e razão.

Como o som que desfaz o silêncio,
Tens em ti a presença mais doce e um encanto tão bom
Que a simples lembrança tua leva embora a solidão.

E mesmo que teu jeito menina disfarce tua força mulher
És tanto mais que tantos e tantas e muitos,
Que tens em ti a força de seres quem quiser.

De longe de onde posso, te vejo!
E de te ver o pouco que cuido, te gosto!

Ah! Aproximar-me de ti é temer que o encanto que já é grande
Distraia-me e seja só a tua imagem que me fique
Olhe eu para onde olhar quando não houver você.

Por tua causa sou quase como o louco!
Cismo o sonho atrevido que te sonha
E sonho, (re)sonho e, acordado, insisto em te voltar a sonhar.

És meu encontro acontecido sem ter sido
E o adeus que me recuso acenar.

És o tempo do meu tempo feito tempo pelo teu tempo
O início da minha loucura e o instante do meu bom senso.
És querer que me faz bem
E o fim que me recuso aceitar. 

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Homens, Mulheres, Amor, Sexo... O Mundo já foi mais romântico.


O mundo está menos romântico. O pragmatismo tem tomado conta do mundo. Cada vez mais me parece que as pessoas fazem o que é necessário, deixando de lado o ideal, o bom. As vontades são objetivas e as intenções cada vez mais egoístas. “Faço porque preciso”. “Faço porque devo”. As decisões são tomadas como se sua única consequência fosse o instante de agora, como se não refletissem o depois que virá. Estamos mais egoístas.
Nas nossas relações parecemos mais dispostos a tolerar o outro dentro de sua utilidade do que gostar com uma sinceridade que justifique a satisfação de sua companhia. E à medida que somos egoístas, sentimos o egoísmo do outro e estabelece-se uma dinâmica em que as pessoas vão se protegendo da indiferença umas das outras, distanciando-se do que é de verdade, e contentando-se com o fugaz, na expectativa de que assim machuque menos. Mas machuca mais.
O mundo está menos romântico. Daqui a pouco falarei do romantismo nas relações de homens e mulheres, mas aqui, nesse primeiro momento, romantismo me surge em sentido amplo. E o mundo está menos romântico.
As pessoas não desfrutam dos momentos. Antes, superam esses momentos. Não olham mais o pôr ou o nascer do sol, apenas veem que já é a noite ou já é a manhã de um dia/noite que não perceberam passar.
Os casais, por sua vez, conversam menos uns com os outros porque as tevês em cômodos distintos os livram do silêncio constrangedor ou da obrigação sacra de se bastarem e as essas pessoas, ao invés de se verem, conversam com as fotos umas das outras por detrás das telas dos computadores.
Estamos próximos de muitos, mas cada vez mais distantes de todos.
E onde vejo esse maior mal é nos relacionamentos de homens e mulheres.
Por alguma razão que, provavelmente, é culpa de nós homens, o sexo também está ficando pragmático. Parece estar perdendo seu encanto. É mais um ato como outro qualquer. 
Hoje, transa-se para saber se gosta. A impressão que se tem é que se banalizou de tal forma que, se antes o sexo era consequência de gostar, hoje, gostar é consequência de se transar. E isso parece bom, mas, ao mesmo tempo, não é.
Tenho visto casais que se formam na cama. Para saber se combinam, não importa se gostam das mesmas coisas, como também, parece não importar se sua companhia faz bem um para com o outro, se riem quando estão juntos, se sentem falta quando estão longe. O que querem saber é se o sexo é bom.
Talvez eu também padeça de falta de romantismo já que não chego ao ponto de achar que o sexo só é bom com quem se ama. Pelo contrário. Sei bem que o sexo pode ser bom quando feito com vontade, desejo, paixão. Isso não se acha só com amor. Mas trago comigo a certeza de que ele é infinitamente melhor quando consequência e não causa. Ele é verdadeiramente bom quando consequência da intimidade, do bem querer, do gostar, do conhecer e querer continuar conhecendo. Quando o desejo nasce disso, ele é genuíno e o sexo passa a ser o próximo passo dentro de um acontecimento natural. 
Não tem jeito. Sexo por necessidade é a mesma coisa que sexo por obrigação. E nada que é obrigação é legal. Não dá pra ser tão bom assim.
Hoje em dia, sedução parece ser artigo de museu. Coisa de filme antigo. E, quando se pensa em sedução, ainda confunde-se tudo.
Seduzir não é vestir uma lingerie nova ou insinuar que conhece todas as técnicas do kama sutra que a NOVA publicou no último mês. Sedução também não é abrir a porta do carro mais caro ou vestir a roupa e usar o relógio mais em alta. Não é arrepiar o cabelo ou deixar o vestido subir quando você dança até o chão. 
Sedução é se tornar interessante todo dia e a cada dia. Sedução é como a dança dos 7 véus em que a cada instante se revela um pouco sem que se mostre tudo. Sedução é o mistério revelado sempre com mais um a revelar. Isso torna tudo mais interessante.
Antigamente se valorizava a sutileza do flerte. A sedução (olha ela aqui de novo) era algo leve, gostoso, que fazia sorrir. A intenção do sexo movia pensamentos. Só que o sexo era o meio e não o fim.
Hoje sexo é o princípio. Dependendo de como for, chega a ser o meio. E, em pouco tempo, também o fim. E quanto nós perdemos em nome de “ter uma transa”?
E nos iludimos também! Corremos o risco de achar (e muitas vezes achamos) que o mundo se baseia nessa satisfação sexual e que já estamos no lucro se estamos transando. Sentimos vazio e acabamos buscando transas em quantidade, enquanto a vida vai perdendo em qualidade. E nos machucamos uns aos outros. Mas mais a nós mesmos que até temos companhia, mas sentimos solidão (e que forma ruim de solidão).
E sim, grande parte disso é culpa de nós homens. Quantas e tantas mulheres se sentiram tão usadas por homens que não entendem a delícia que é conhecer e reconhecer (e continuar conhecendo) uma mulher e, desgostosas por tudo, resolveram agir com os outros agiram com elas? Quantas mulheres por se sentirem usadas passaram a querer usar? E daí, o que era para ser o encontro de dois, passa ser a disputa entre vários e, ao invés de serem felizes, vão se prendendo na solidão de si. E o sexo, que era pra ser sublime, passa a ser somente bom (quando muito).
E daí nasce a geração Sex and City. Transa-se, veste-se e vai-se embora. Não há sequer espaço para os carinhos de depois. 
Mundo, mundo... triste mundo. Tristes nós.
Mas penso que ainda dá tempo de resgatar o romantismo entre homens e mulheres. O romantismo entre nós e a vida. Entre a vida e o mundo. Entre o antes, o agora e o depois. Não é possível que o mundo esteja irremediável. Mas não podemos vulgarizar o viver. A vida é nossa e não tem porque vivermos contra nós. Somos semelhantes e queremos muito parecido. Temos medo da dor e, para não sermos magoados, magoamos. Para não nos aproximarmos dos outros, afastamos quem quer se aproximar de nós. E ficamos sozinhos. Mas ninguém quer sozinho, nem sentir dor, nem fazer doer...

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Let's do It! Let's fall in love...


Uma, duas, três vezes ou mais. Se você conseguiu amar uma vez e já se deu por satisfeito, ótimo. Mas se amou, acabou e agora está aí, sem saber o que fazer, decida logo: ame! Permita-se amar e deixe que te amem de volta. Vamos nos apaixonar.
A vida até pode ser uma só, mas não é por isso que você tem que achar que o amor também é um e só. Pelo contrário: é justamente por só ter uma vida que você tem que experimentar amores e mais amores e tantos amores. É por viver uma só vida que você tem que saber das delícias de amar e ser amado nessa única vida.
Não. Não estou dizendo para você largar o amor que tem e ir atrás de outro. Se o amor que te ama é o mesmo amor que você ama e o encontro desses amores é bom, invista nele! Continue! Faça-o ainda melhor.
 O que quero dizer é que ninguém merece o “mais ou menos” na vida. Ninguém merece o morno. A vida deve ser sentida na sua inteireza. Ou é tudo ou é nada. O que for menos do que isso é pouco perto do muito que todos nós merecemos.
Ninguém tem que ir pra cama para um amor mais ou menos. Ou dar um beijo que, na verdade é meio beijo. Que o beijo seja um beijo de boca inteira e o sexo seja de derrubar paredes, porque a vida é uma só!
Sim. É importante, sim! Já dizia “Santa Rita de Sampa”: Amor sem sexo é amizade e amizade é bom, mas amizade não é paixão e a paixão é melhor.
Vai. Olha pra tua vida. Você sente hoje o mesmo frisson que já experimentou anos atrás? Sente o desejo de ser tocado ou de tocar como já sentira antes? Você se sente entregue a alguém na mesma proporção que esse alguém se entrega a você? O desejo que você sente é o mesmo que você desperta ou vocês são apenas duas vidas que se encontram de vez em quando?
A resposta, tanto quanto a vida, é tua, só tua. É você quem tem que saber.
De minha parte, sei que é bom querer e melhor ainda quando se é querido por quem se quer. É esperar que corram as horas ou passem os dias para que o teu abraço se complete no abraço que é a metade exata do teu. É querer que o sol se torne logo em lua e que apenas a noite segrede os segredos (de liquidificador?) de casais que se enamoram com prazer, volúpia, com intensa e completa satisfação.
Não há o que justifique uma vida mais ou menos. Não há o que te exija não viver a própria vida. Ouse! Faça! Realize! Torne a fazer! Recomece ou comece o novo! Não viva pela metade, não sinta só um pouco e nem se entregue menos do que o muito que é bom.
Abrace quem te faz querer abraçar. Beije quem te faz querer beijar. Não perca seu tempo com o que ainda é quando já deveria ter deixado de ser. Se já não está bom agora, nada te garante que vai estar bom mais pra frente. Agora, a gente sabe que todo começo é bom. (recomecemos?).
A prioridade deve ser sempre viver. A nossa responsabilidade deve ser sempre viver. E o principal de nós mesmos deve ser sempre estar vivo e se sentir vivo. Enquanto for bom, que seja. Quando estiver ruim, que acabe.
Não seja a causa e a consequência da falta de ser e se sentir, inteiramente, você. Entregue-se a vida e seja dela e não lute mais do que o razoável. Se está ruim agora, termine. Se terminar, recomece. Chore se precisar, mas sorria pra valer. Isso, pra mim, é viver!.

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Recomeçar


Chega uma hora que é inevitável: você percebe que fez tudo o que podia fazer e que ao seu modo tentou o quanto podia tentar, mas, simplesmente, não dá. Tudo aquilo em que você investiu, cada sonho que você sonhou, cada projeto, tudo parece cada vez mais distante na história de você e, a única coisa que você consegue concluir é que acabou. Acabaram-se os planos, acabaram-se os motivos, acabaram-se os dias que você esperava mas que ainda nem chegaram a nascer.
E não é porque você não tentou. Acontece que, na vida, assim como tudo tem um começo, é normal que tudo tenha um fim.
Mesmo aquilo que hoje pensamos que é pra sempre, dura só até o dia seguinte de hoje ou até que ache, no dia seguinte, o seu último hoje. Os nossos melhores sonhos, nossos melhores desejos, nossos melhores planos, duram. Simplesmente duram. Duram até que acabem. E acabar é normal.
Não digo com isso que não vale a pena investir ou que não se deve sonhar, planejar, querer, etc. Deve-se sim. É bom. O que quero dizer é que o fato de uma hora ou outra acabar não é motivo para não se começar. Vai dar certo! Enquanto tiver que dar certo, vai dar certo e, quando não der mais e acabar, começa-se de novo. Recomeça-se.
Por que temer o novo? Por que temer recomeçar? Por que nos agarramos com força ao passado se é pra frente que se anda? Por que nos preocupamos com o tempo investido?
Trago em mim a certeza de que não é certo pensar que acabar hoje é ter jogado fora o tempo que passou, porque se o tempo que temos é o tempo que vivemos, tudo o que fizemos foi viver e viver é começar, acabar, talvez sofrer e, secadas as lágrimas, recomeçar. E as histórias de superação são sempre mais interessantes...
O que temos e fizemos não nos pertence de forma absoluta, mas é nosso enquanto queremos ou, se não depende apenas de nós, é nosso enquanto somos queridos ao mesmo tempo em que queremos. Nada que passe disso é saudável ou normal.
Assim como não é saudável esperarmos no outro o nosso sim e o nosso não. O outro tem a vida dele, nós temos a nossa e ninguém pode decidir por ninguém. Então não espere. Não espere a ninguém. Ninguém esperará você. Se você esperar o outro, quando menos perceber, ele estará lá na frente mostrando que superou você.
Vive la vie! Commencer! Réincarnés par vous!
A vida não nos exige tanto. Ela quer ser vivida e apenas nos obriga a fazer por onde alcançar e merecer o que queremos e, quando alcançarmos, buscarmos outra razão para continuar. Viver é conquistar todo dia uma nova razão para sorrir, um novo motivo para abrir os olhos, respirar, fazer e conseguir. Se acabou, só nos resta recomeçar.
Até que ponto é justo conosco nos agarrarmos ao egoísmo que nasce no nosso medo do novo? Quantas e quantas vezes não temos escolha e por isso nos é imposto recomeçar? Ora, se recomeçar é possível quando não se tem escolha, por que nós mesmos não optamos por recomeçar?
A vida é uma só, mas não é por isso que deve se basear numa só escolha. Se não deu certo, supere e tente outra vez. Não desista e nem tenha medo. Sentir dor é normal. Se você não sentir essa, vai sentir outra. Mas ter dó de si mesmo não vai te levar a lugar nenhum. Não há tempo para lamentar por si, quando, se você não vive, só você perde, mas quando você prossegue e vai adiante, sofre só quem ficou pra trás e deixou de viver. Autocomiseração é démodée, seja forte e seja útil pra você: vá! Levante! Recomece e lute! Comece, recomece e faça tudo outra vez... Vá viver! 

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Viver é verbo (intransitivo e intransigente)


Vá! O tempo é agora e ele dura menos do que você gostaria. Então vá! Faça! Ouse!
A vida é para ser vivida e não lamentada.
Todos sonham. Todos querem. Todos desejam. Todos buscam. Mas quantos fazem? Quantos estão dispostos a saírem da inércia de si mesmos e chegarem até o destino que fantasiam para si. Quantos são os que têm coragem de arriscar e se lançarem a essa vida sinuosa, cheia de incertezas em que, muitas vezes, parece mais fácil perder do que ganhar?
Tenho pra mim que os que entendem o quanto antes que a vitória é consequência de uma luta que todos temos condições de lutar, são os que percebem que viver não é “ir atrás” do sonho, mas sim, “realizar cada querer que se quer de verdade”.
Só que a vida não premia o comodismo. O acomodado é o derrotado sem luta. A própria vida se ocupa de fazê-lo medíocre aos seus olhos e aos olhos dos outros e ele se engana ao se afirmar feliz. Ninguém é feliz quando está parado. A vida é feita para ser útil, porque ela feita para ser vivida. Viver é verbo e mesmo o verbo parar é consequência de uma ação.
Quer conseguir? Mexa-se!
O lugar comum mais comum de todos os livros de auto ajuda é que somos do tamanho dos nossos sonhos e os responsáveis pelo tamanho dos nossos desafios. Não deixa de ser verdade. Já dizia o samba enredo: “Sonhar não custa nada! Nosso sonho é tão real!”. A realidade do teu sonho depende da tua vontade.
Quantas e tantas vezes você lamentou tua sorte? Quantas e tantas vezes se perguntou por que alguns parecem predestinados ao sucesso enquanto você tem a impressão de que nada do que faz dá certo, nada do que faz é bom?
Mas o que você realmente fez? Você fez mais do que sonhar ou parou na fase do sonho? Quais são as atitudes que legitimam teu querer? Preparou-se para o sucesso que você se sonha? Preparou-se para a luta que é viver? O ringue está armado desde o instante em que você viu a primeira luz. Só falta você subir. Mas você tem medo...
As melhores conquistas são dos mais ousados. Isso é fato! O homem só chegou ao céu porque não teve medo de voar e, principalmente, não teve medo de cair. E, se é que teve medo, a vontade de conseguir era mais forte que o medo de falhar.
Se não deu certo na primeira, tente na segunda. Se a segunda não foi boa, continue tentando. Se você realmente quer, não vale a pena parar quando o que importa é conseguir. Quando se quer, se tem (mas desde que faça!). A nossa maior força está em nós mesmos. Somos os deuses das nossas conquistas. Os donos de nós mesmos, donos, inclusive das nossas vontades.
Se dorme demais, acorde!
Se está deitado há muito tempo, levante!
Se tem lido pouco, abra o livro e só feche-o quando terminar!
Mude!
Está parado? Ande!
Está andando? Corra!
Mas mude!
Feche teus olhos. Pensa teus sonhos. Veja onde estás agora e aonde ainda quer chegar. Para estar onde se vê, o que você precisa é fazer. E por que ainda não fez? Te falta tempo? Arrume! Se organize! Durma menos e viva mais! Não sei de você, mas você sabe.
Não arrume desculpas que te façam perder antes de lutar, que te façam morto antes mesmo de viver. Viver é verbo: intransitivo e intransigente.
Não se contente com o que há agora, porque ainda há mais para depois. Prepara-te para o que virá e faça-se a si mesmo na posição de conseguir. Seja sábio!
Principalmente: seja sempre para si e por si e não pelos outros e para os outros. No fim da vida, a satisfação que você tem que prestar é para si mesmo e para a vida que te foi dada e que você deixou de viver.
Vá viver! Não se lamente da vida quando a tua vida é você. Mesmo quando a vida parece nos surpreender com um desvio inesperado no nosso caminho, somos nós que continuamos no controle e decidimos qual o novo caminho para o mesmo destino. Não há um final escrito para ninguém. Somos a página em branco da história de nossa vida e cada linha dela é escrita por nós. A minha por mim, a tua por ti. E mais ninguém.

domingo, 29 de julho de 2012

Quando a nossa mudança é o outro

Tempo e vida (7)[1]Não adianta negar. Já aconteceu comigo, com você, com teu vizinho e com aquele parente distante que a gente só lembra quando vê a foto no álbum de família: em algum momento das nossas vidas mudamos todos os nosso planos por causa de alguém.
Ter coragem de mudar é sempre algo positivo. Não se pode dizer que não é bom. A grande questão é: por que estamos mudando? O que é que nos motiva nessa vontade de sermos diferente do que pensamos que iríamos ser?
Nossas vontades são inconstantes e nossos planos nunca são absolutos, mas nossa vida se baseia nas decisões que tomamos e nossos caminhos se fazem na medida dos passos que nos permitimos andar. Logo, se somos nós que fazemos para nós, nossa mudança não pode ser por causa do outro.
Mas nem sempre é assim que acontece. Quantas e tantas vezes mudamos tudo o que queremos (queríamos) para o futuro em nome do presente de então? Do nada nos pegamos ignorando a verdade de que a satisfação que se sente no agora é frágil e enganadora. Nos fazemos levianos com nós mesmos na medida em que apostamos nosso tempo no pouco que temos agora, muitas vezes certos de que é o melhor do que jamais iremos ter e, quando o tempo passa e a verdade vem, notamos que o que parecia “para sempre” não tinha mais do que a brevidade de um sonho bom.
Uma coisa que sempre achei injusta na vida é a necessidade de definirmos no fim da adolescência aquilo que acreditamos que será o nosso futuro. Nem terminamos o Ensino Médio e já temos que nos lançar num curso Superior específico. De uma certa forma, quando preenchemos o formulário de inscrição do vestibular, estamos pós-datando o cheque a ser compensado ao longo do nosso futuro. E isso é cruel.
A crueldade dessa etapa da vida está no fato desse período ser o período em que temos certeza que temos uma certeza (e o tempo mostrará que nunca tivemos certeza nenhuma). Quando saímos da adolescência somos todos intransigentes. Peremptórios. Pensamos ter todas as respostas e carregamos a convicção de que nos conhecemos melhor do que ninguém jamais nos conhecerá. Mas a verdade é que sabemos menos do que nos permitimos pensar.
Ainda adolescentes descobrimos uma vida de instantes complexos. Descobrimos que sentimentos não são ficção e que a ficção tem muito de vida real. O primeiro amor parece ser destinado a ser o amor do resto de nossas vidas. As pequenas glórias parecem o prenúncio de toda sorte de vitórias e isso nos faz confiantes de um sucesso a que estamos predestinados e, se não contarmos com a ajuda de quem sabe da vida mais do que o nada que sabemos, nos sufocamos na nossa própria arrogância.
E se você está se perguntando o porquê de eu estar falando em adolescência nesse texto, saiba que é porque, ao menos no amor, somos todos eternos adolescentes.
Quando amamos parece que o tempo parou e que esse amor nos fez outro. Amamos e o sonho de ontem já não sobrevive ao sentimento de hoje. Se antes nosso caminho era pra esquerda, quando amamos nosso caminho segue o caminho do outro (muito mais importante que o nosso, tão insignificante por ser só nosso). E é aqui que a mudança começa a ser preocupante.
Se mudamos nossa vida, sonhos e quereres por causa do outro, mudamos pelo motivo errado e, no instante em que nada der certo – e muito provavelmente não dará – será a esse outro que culparemos.
No começo desse mesmo amor, somos invariavelmente mais altruístas. Ficamos tão encantados com a delícia de sentir amor que pensamos ser mais importante o que fazemos pelo outro e muitas vezes nem esperamos nada em troca e nem pensamos se o outro está disposto a mudar. Mas não importa.
A verdadeira mudança tem que vir acompanhada de um verdadeiro motivo. Muda-se para ser melhor e ser melhor não é agradar o outro ou viver como se só houvesse um agora que não traz consequências depois. Mudar é crescer e crescer exige rompimentos: a menina que cresce se separa da boneca e o menino do carrinho; as roupas da infância não vestem corpos crescidos e os colos que abrigavam, já não afastam o mal do mundo.
Crescer é romper com o passado, ser cruel com o presente e se preparar para o futuro, sendo nós mesmos a mudança que queremos para o nosso próprio mundo.
Mudar pelo outro é colocar a responsabilidade da nossa vida nas mãos e nos sonhos de alguém que não vive e nem pode viver nossa vida. Ele não tem responsabilidade para conosco e nós não temos o direito de exigir dele o que só depende de nós.
Seja lá o que fizermos e escolhermos, que seja sempre primeiro por nós e para nós. Não de uma forma egoísta. Mas, só saberemos, enfim ser dois, quando soubermos – de verdade – quem somos quando somos um.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Vamos construir?


Vivemos tempos em que tudo é para já. Tempos em que o imediatismo impera nas pessoas e os quereres são cada vez menos um projeto e muito mais um desejo. Tempos em que “desafio” não passa de uma palavra e projetos parecem mera perda de tempo.
O mundo está todo ele mais rápido. A velocidade nas comunicações, a diminuição das fronteiras, o alcance de toda e qualquer informação, tudo isso faz com que tenhamos pressa. Não por um acaso, o que mais se escuta nos dias atuais é “estou numa correria”. Mas a pressa é de que? De obter tudo e ainda querer mais?
A ânsia por conquistar mais impede que se desfrute o que já conseguimos e que, no mais dass vezes, nem é tão pouco assim. É só essa a nossa mania de insatisfação que faz com que colecionemos frustrações.
O fato é que estamos cada vez mais ansiosos e ansiedade demais faz mal. Não sabemos mais esperar. Não queremos e nos recusamos a esperar e se a espera é necessária, nos irritamos num “zas traz“.
Tem faltado paciência. E a culpa é de quem?
A vida não tem um roteiro e nem uma única definição. A vida é um dia de cada vez até que se acumulem todos eles. Mas ela passa; ela acaba. No fim das contas qual terá sido o saldo do que deixamos: Os amores que tivemos ou as mulheres que conquistamos? O trabalho que fizemos ou as farras que farreamos? O esforço recompensado ou os dias e noites desperdiçados qual cigarra no verão?
Ah, a vida. Na vida nós não somos meras personagens de nós mesmos, mas sim, os próprios autores dessa nossa história que – correm os dias – se confunde com outras e novas histórias. No livro da vida não nos permitiram escrever o começo e não nos é permitido escrever o final, mas nos foi dado bastante espaço pra preencher.  
O que me parece é que as pessoas estão cada vez mais preguiçosas para escrever, sem inspiração para uma história interessante e, no livro da vida, se falta inspiração, falta vida; no livro da vida, quem não escreve já não sabe viver.
Sim, porque não adianta se esperar que a vida aconteça à tua revelia e sem que você tenha que merecer. Quem sabe faz, quem quer dá um jeito de conseguir. Mas nesse mundo imediatista e cheio de ansiedade, a dificuldade parece estar em saber exatamente o que se quer.
Vivemos imersos em tantas dúvidas que não parece fazer sentido dispensarmos energia em algo que não nos bastará amanhã. E pensamos isso mesmo quando evitamos considerar as perspectivas do amanhã. Queremos viver o agora, conseguir o agora, experimentar e ter agora, muitas vezes abrindo mão da própria previdência.
Quando se vive, se quer, se experimenta e se tem só o agora, corre-se o risco de estar descartando o amanhã.
É clássico o verso onde o rock-star diz não conseguir ter satisfaction e talvez não tenha porque não sabe onde procurar. A satisfação está em nós mesmos. A satisfação está em se saber que fizemos o melhor que podíamos. Está nas conquistas do que sonhamos e pelas quais lutamos.
Descubra-se! Seja sincero contigo. Não tenha medo de querer se você está disposto a conseguir. O sacrifício de hoje se justifica no sucesso de amanhã e a vida premia esforços. O sacrifício não é eterno, não é para sempre, ele dura o tempo necessário, nem mais, nem menos. Mas você tem que saber esperar.
Conheça alguém. Pegue sua mão. Descubra seus gostos e deixa que ela descubra os teus. Invista. Construa. As pessoas não são descartáveis, então para que trata-las assim? Pode ser estranho no começo, talvez difícil e muitas vezes tão trabalhoso que não se vê muito sentido, mas quando você menos esperar, terá um companheiro, uma companheira ainda melhor do que você jamais sonhou.
Os Contos de Fadas, as novelas, os filmes e os romances não estão errados. Mas eles só mostram uma pequena fração do que é a vida. Não existe mágica, não existe destino e nem a felicidade para sempre. Na vida que nos compete, sempre há o capítulo seguinte e ninguém os escreverá melhor do que nós mesmos.
A vida não acontece por si, ela se constrói. Nada vem pronto, mas tudo pode ser feito e só depende de nós.
E então, vamos construir?

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Amor com afeto e afeto sem amor

L’amour, hum hum, j’em veux pas
(Eu não quero o amor)
J’préfère de temps em temps
(Prefiro de tempos em tempos)
Je prefere le goût du vent
(Eu prefiro o gosto do vento)
Le goût  étrange et doux de la peau de mes amants
(O gosto estranho e suave da pele dos meus amantes)
Mais l’amou, hum hum, pas vraiment!
(Mas o amor, hum hum, de jeito nenhum)
(Carla Bruni)




“Espero para ver se você vem
Não te troco nessa vida por ninguém
Porque eu te amo... eu te quero bem!
Acontece que na vida gente tem
Que ser feliz por ser amado por alguém
Porque eu te amo, eu te adoro, meu amor
(...)
Grito ao mundo inteiro
Não quero dinheiro
Eu só quero amar.” (Tim Maia)



Duas canções. As duas falam de amor. Em uma se quer amar, enquanto na outra, dispensa-se o amor. E daí eis que me pergunto: queremos amor? Sabemos amar?
Aqui se falará do amor que une duas pessoas, carnal, terreno, profano e divino.
Se procurarmos nas músicas, nas poesias (e até mesmo nas prosas) encontraremos toda forma de amor. Poetas apaixonados enxergam nas cores do mundo a mesma vibração de seu peito, todo ele cheio de um sentimento de vida que descobriu nos braços de ontem e que redescobrirá no ciclo do novo (e, no mais das vezes, diferente) abraço de amanhã.
Por sua vez, compositores cantarão dores de um amor finito, cuja herança, a solidão, é a companhia inevitável de uma dor que fazem questão de rimar com esse mesmo amor do poeta feliz.
Nos filmes e livros amores impossíveis são sempre possíveis, talvez porque o amor seja sempre possível. Não sei. Não se trata disso. A pergunta é sabemos amar? Queremos amar? Estamos prontos para amar?
Essa última pergunta me lembra de uma terceira música. Guilherme Arantes. E nela ele começa dizendo que tudo que queria um dia para ele, tinha visto na sua musa desde o começo, num momento em que a paz existiu e ele se sentia renascido.
Mas será que amar é isso? Será que amar é renascer e daí se afirmar que cada novo amor, uma nova vida e que, portanto, o novo amor só vem se sepultamos o amor que já morreu?
Certamente ser amado não é (ou pelo menos não deveria ser) o primeiro requisito para se amar ou mesmo um motivo determinante para isso. Fosse assim, não teríamos tantas e tantas histórias de amor não correspondido.
Então, o que é preciso para amar? E pergunto ainda: Basta amar para estar junto?
Você que me lê e tem alguém: por que você está junto de quem você está junto?
Você que me lê e não tem ninguém: o que você precisa pra ter alguém de quem estar junto?
Você que me lê e tem muitos alguéns: o que você pensa que está fazendo?
Talvez os primeiros digam que estão juntos porque amam ou porque a pessoa com quem estão lhes faz bem (para não dizer daqueles que estão só esperando algo melhor). Por sua vez, os da segunda pergunta diriam que esperam aquele alguém que balance seu mundo, que seja companheiro e que desperte o melhor de si. Para que, enfim, os terceiros não saibam dar uma resposta que sirva como boa justificativa para que não sejam de ninguém, ao mesmo tempo em que são de todo mundo e acham que o mundo é seu também.
Para Tom Jobim, fundamental mesmo era o amor, sendo impossível viver feliz sozinho.
E daí eu venho e afirmo: é possível viver um amor sozinho. É possível amar sozinho. Não sei por quantos dias, por quantos meses ou anos. Mas o amor não depende de troca para existir. O afeto sim.
Penso que se há uma causa justa para que duas pessoas se façam juntas uma da outra é a troca de afeto. E o afeto é um elemento importante do amor. É o se sentir amado, desejado, bem quisto. É se sentir parte de um projeto de vida em que os sonhos são positivos. Afeto é a troca de beijos e de carinhos. É o que mantém acesa a chama do amor dita por Vinícius.
Todos nós conhecemos casais que “se sentem presos” em relações que julgam não satisfatórias, ou se queixam das indiferenças do outro às suas necessidades, mas que, quando indagados do por que se mantém na relação, tergiversam e dão uma desculpa qualquer.
Provavelmente eles mesmos não saibam, mas o que os mantém junto é o amor. Um amor que sobrevive apesar da falta de afeto. Mas um amor que deixa de ser essencialmente carnal, pra se tornar um amor fraterno de quem sabe que vai sentir a falta da chatice do outro ou mesmo daquela presença tão ausente.
Mas enquanto a alma pede amor, o corpo quer afeto e essa é uma equação delicada de se acertar. Mas que, ao menos, não haja traumas e nem dores, mas sim, a coragem de não desistir de amar e de querer e de ser amado e ser querido. Sempre! O amor não morre pra nunca mais nascer e o afeto não acaba para nunca mais voltar.
Seja pelo de hoje, seja pelo que virá amanhã, ainda vale muito apena amar e se deixar levar. 

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Vazio


Estou vazio por dentro: falta-me a vida nos olhos
E não há ritmo na batida do meu peito.
O que há em mim é só a vida que sobrevive.
Menos sorriso e quase nenhuma satisfação.

Sou como o criminoso que se rouba
Ou o doente que se contamina:
Sou o menos que se diminui mais
E o nada que se faz menos ainda.

Foge de mim o instante que já sabia não vir.
O sorriso que era a certeza do choro, esse não veio.
O choro, consequência do tolo sorriso, correu
Num dia em que me fiz vilão de minha própria história.

Sou menos do que jamais me permiti supor
E mais do que ninguém sei o quanto isso é pouco.
Vivo os dias até que não haja mais vida
Faço-os em vida até que me celebrem em morte.



terça-feira, 26 de junho de 2012

Eu preciso dizer que Te amo


“É que eu preciso dizer que te amo
Te ganhar ou perder sem engano.”
(Cazuza)

“Qualquer maneira de amor vale a pena.
Qualquer maneira de amor vale amar”
(Milton Nascimento)

Amar e ser amado. Ser amado ou amar. Amar sem ser amado. Ser amado sem amar.
De tempos em tempos me pego pensando que o amor é um sentimento supervalorizado. Não é tudo isso que dizem, muito menos é o tanto que esperam dele.
Amor é um sentimento que você sente, mas que não necessariamente outra pessoa sentirá. Nem por você, nem por ninguém e não porque essa pessoa é incapaz de amar ou não sabe amar, mas porque cada um tem o seu próprio jeito de amar.
O amor que eu sinto por alguém e o que você sente pelo seu alguém costuma ser sempre o mais bonito que você tem para oferecer e é a certeza disso que faz com que você queira que o sentimento que essa pessoa te sinta seja o mesmo que você sente e daí vem a insegurança, o pânico, o medo de não ter o sentimento correspondido. Ou pior: as vezes até o tem. As vezes somos amados de volta, mas o amor não se mostra como nós mostramos, não se vê como nós queremos enxergar e não se fala como nós gostaríamos de ouvir e daí, mesmo amados, somos injustos e julgamos que não souberam nos amar.
O medo de não ser amado tem feito com que muitas pessoas lutem contra a vontade de amar. Todos sabemos que somos felizes quando em estado de amor, todos sabemos a delícia de ser amado, a troca de carinhos que faz querer bem, que faz gostar mais, os instantes em que se quer estar “perto se longe e mais perto se perto”, mas quando sentimos, cada um ao seu modo tende a revelar seu medo, e a principal forma de medo é aquela que faz calar.
Eu te amo, mas não posso dizer.
É clássica nos filmes a cena em que um diz para o outro “te amo” e esse outro, desconcertado, diz para o outro “obrigado”. Esse é aquele instante em que espectadores de todo o mundo dizem, cada qual no seu idioma: “putz!”. Imediatamente nos vemos na situação do que disse sem ouvir e imaginamos o quão desagradável é se revelar sem que a recíproca seja a da mesma verdade. E é por isso que calamos.
E o amor passa a ser um jogo em que um fica esperando que o outro se mostre, para só então retirar seu próprio véu.
“Eu te amo, mas só te digo depois que você disser!”
“Eu preciso dizer que te amo, mas só depois de você!”
Calam seu próprio amor por medo. Ou vários medos dentro de um só. Medos, medos e mais medos que fazem com que o amor seja uma dor que se acumule ou uma angústia que cresce, num descontentamento que tinha tudo para ser contente. Mas o amor não pode ser isso. Seja lá o que o for o amor, ele não passa de um sentimento. E sentimento existe para ser sentido e experimentado.
Não há medo pior do que o medo de amar. Amar é sentir e sentir é viver, logo amar é viver e quem teme amar, teme viver e, se teme viver, já morreu antes mesmo de nascer.
Acredite, amar não é um jogo e dizer que ama não é um desafio.
Se o teu sentimento é bonito, sinta-o e viva-o por você, mais do que pelo outro.
Permita-se sorrir! Permita-se viver! Permita-se amar! Ser amado é merecimento, não é obrigação para ninguém.
Não se engane e, se ama, revele o amor que sente. Se sente, viva o amor que ama. Se não é amado, pior pra quem não te quis no que de melhor você tinha pra dar. Certamente ele te merece muito menos do que esse muito que você tinha para lhe amar.
Se como cantou Milton, “qualquer maneira de amor vale a pena; qualquer maneira de amor vale amar”, liberte-se de si mesmo e experimente a delícia de amar. Ser amado, é mera consequência: um prêmio que se receberá. 

domingo, 24 de junho de 2012

Sou Grilli porque ele era Grilli


Acho que ando correndo tanto e tão desatento que, se não tivesse sido lembrado pela manhã, talvez não me recordaria que hoje faz 13 anos que meu avô pai de minha mãe faleceu.
Lembro-me como se fizessem menos de 13 horas (e as vezes dói como se fosse assim): era uma quinta-feira quando, 24 de junho de 1999, por volta das 8 horas da manhã minha mãe abriu a porta do meu quarto para me acordar. Acordar a mim que, na noite anterior, havia me prontificado a estar com ela naquele dia de cuidados no hospital.
Naquele instante, tomado por um sono que me é comum até os tempos hodiernos, disse a minha mãe que não iria. Preferia ficar dormindo.
Compreensiva, deixou-me na cama como estava e foi terminar de organizar o que precisava.
Menos de cinco minutos depois e pulo da minha cama num estalo, dirigindo-me ao banheiro único da casa em que morávamos, dizendo-lhe que me aguardasse apenas um pouco e eu a acompanharia.
Naquela manhã fomos ao hospital ela, minha vó – sua mãe – e eu.
De Guarulhos até o bairro de Santo Amaro onde ficava o hospital foi uma longa caminhada num trânsito de São Paulo que, há 13 anos não era menos do que hoje.
Lá chegamos; encontramos a irmã de meu vô e sua filha que ali ficaram para lhe prestar assistência. O quadro não era auspicioso, mas no semblante havia certa paz.
O dia foi correndo minuto após minuto como nunca deixou de ser.
Por volta das 15 horas uma respiração cada vez mais pesada que exigia que, de tempos em tempos as enfermeiras fossem chamadas a que fizessem seu serviço, até que, por volta das 16h30 uma crise que – ainda não se sabia – seria a última que lhe viria.
Lembro-me de minha vó aflita assistindo um instante em que era clara a luta de alguém pela própria vida e minha mãe, como numa oração aos céus e numa súplica ao próprio pai, pedindo-lhe que, enfim, permite-se se descansar.
(na noite anterior, mesmo tendo tomado uma dose de remédio para dor que, segundo o médico, faria qualquer pessoa forte dormir por uma semana, meu avô tinha acordado e, com o piscar de olhos e apertar de mãos, comunicou-se com os 04 filhos, pediu que fizessem uma oração, lhe lessem a Bíblica e lhe cantassem alguns hinos da harpa. O médico, descrente, ainda dissera a minha mãe e seus irmãos: “- não acredito nesse Deus de vocês, mas alguma coisa de diferente há na situação de seu pai. Ele não poderia estar acordado.” O médico precisou ver com os próprios olhos).
As enfermeiras nos pediram que saíssemos do quarto. A angústia era um sentimento que não se permitia apenas sentir, mas mostrava-se nos olhos e nos rostos de nós três que estávamos ali.
Minha vó esquecera sua bolsa no quarto. Coube-me a mim busca-la. Ali entrei e, até hoje, trago a certeza de ter visto os últimos segundos do que seria a vida que mais me faria falta na minha vida.
Do tempo em que saí do quarto, por volta das 17h05 daquela tarde cinzenta de quinta-feira, passaram-se 10 minutos, até que a enfermeira viesse com a inevitável, porém triste notícia.
Naquela tarde de quinta-feira encerrava-se uma vida que pode se dizer vitoriosa. Uma vida que iniciara-se num dia 1º de novembro de 1939 (registrado no dia 04 de novembro). Ali acabava a vida terrena de um vencedor: bom marido, de gênio forte, mas amoroso; pai de 04 filhos; pastor de milhares de almas, de grandes igrejas, seguramente um dos maiores pastores das Assembleias de Deus no Brasil; então avô de dois netos; sogro de 01 genro e 03 noras. Ajudador dos que recorriam a si.
Até que ele fosse não conhecia quem me fosse próximo que tivesse ido e depois que ele partiu, foi-me boa a vida no sentido de permitir que ninguém mais partisse. Mas até hoje dói.
Meu avô, Perácio Grilli, nome que ganhou em homenagem a um jogador da Seleção Brasileira que disputou as copas de 1934 e 1938, morreu de câncer. Uma morte anunciada em dois momentos diferentes: o grupo de jovens da Assembleia de Deus de Osasco foi visitar a igreja do Jd. Vila Formosa. Não era hábito dele acompanhar essas saídas, mas como era uma igreja de uma região em que ele morou e vizinha de uma outra de que foi pastor, resolveu que iria. Era junho ou julho de 1998. Até então, meu avô vendia saúde. Homem grande que raramente se gripava. Ao final do culto, enquanto cumprimentava e era cumprimentado, uma senhora se aproxima de minha vó. Minha vó não a conhecia e ela não conhecia minha vó. Essa senhora a toca no ombro, chama sua atenção, aponta na direção de meu avô e lhe diz: “Deus manda avisar que meu servo já está preparado!”
Como se aproximou, essa senhora se foi. O choque de minha vó foi tal que ela não comentou com ninguém. Certamente quis desprezar aquela palavra no seu coração. Calou.
Setembro de 1.998: a igreja de Osasco comemorava seu Jubileu de Ouro. Após uma grande e difícil reforma, uma semana de programações para comemorar os seus 50 anos. Num dos cultos, o preletor da noite, Pr. Samuel Bezerra, parou a palavra  e disse mais ou menos assim: “Deus está me incomodando para que eu diga algo. Não ia dizer. Estou calando, mas Ele me manda dizer: Ele tirará uma rosa muito valiosa desse seu jardim e muitos não entenderão, mas não é para se questionar. Ela já está pronta!”.
À noite, quando chegamos na casa de meu avós, à mesa de jantar meu avô, taciturno como era raro, confidenciou: senti que aquela palavra foi para mim.
Outubro de 1.998: uma forte dor no peito e desconfia-se de um infarto. Levado às pressas ao hospital, fica de observação e a equipe médica solicita uma biópsia do pulmão. Não era um problema cardíaco e o diagnóstico não podia ser pior: câncer. O pior e mais astuto dos cânceres.
Não sei precisar o dia, mas tenho por certo que foi uma quarta-feira a tarde quando, tendo meu avô descansando no quarto que era de minha irmã, minha mãe talvez sem saber como dar a notícia, me vê deitado sobre sua cama e me diz: “não faça muito barulho. Seu avô está com câncer”. Ele ainda não sabia.
Aquela notícia me caiu como uma bomba. Na insignificância dos meus 13 anos, o que me veio a mente foi um sonho sonhado semanas antes em que eu via, num cenário muito escuro e enevoado, um caixão no centro da igreja de que meu avô era pastor e duas pessoas conversavam quando uma perguntava para a outra: “do que ele morreu?” e a outra dizia: “câncer”.
No sonho eu não via quem estava no caixão, mas não era preciso ver.
O abatimento tomou conta de todos. Havia, naquelas primeiras semanas o paradoxo de quem queria acreditar que o Deus que se pregara e se ouvira naquela casa faria o milagre e mostraria a grandiosidade de Seu poder, contra o medo do inevitável pior.
Todas as noites, em minha casa, a família se reunia e fazíamos um período de cânticos e outro período de oração. Dia sim, dia também, todos prostravam-se e pediam pelo que julgavam que viria.
Na igreja, até então, havia rumores, mas nenhuma confirmação. Por alguma razão que não me recordo, esse problema particular não foi transmitido de imediato. Notava-se a estranheza na ausência de um pastor sempre presente.
Antes que se desse a notícia para a igreja, a visita de uma senhora bastante respeitada com um recado. Ela disse que, enquanto lavava louças, uma voz lhe ordenara que fosse até meus avós e lhes dissesse que Deus já havia preparado aqueles que “poriam às mãos no meu avô”. E não poderiam ter sido mãos melhores. A médica oncologista que lhe tratou tinha acabado de perder um pai com o mesmo câncer e tratou do meu avô como quem trata do próprio pai; o enfermeiro contratado, quando soube que meu avô era pastor, revelou-se evangélico e, por vezes, considerou sequer cobrar pelos seus serviços. A fisioterapeuta era de um cuidado que ia além do profissionalismo.
Mas a roda da vida continuava a rodar e a doença, cruel como só ela, estava ali.
Culto de Natal de 1998: é chegada a hora de comunicar à igreja. Àquela altura as sessões de quimioterapia já debilitavam um corpo atacado por um câncer poderosíssimo. A família apresentou dois louvores naquela noite: “Eu não me esqueci de ti” e “Quisera sempre orar”. Encerrado o louvor foi dada a palavra a meu avô que noticiou para a igreja o deserto que atravessava. Como homem de Deus que se soube, disse ter fé de que o tratamento que fazia seria como as águas do rio Jordão foram para Amã; que os remédios que tomava seriam como o lodo que Jesus passou nos olhos do cego e que em breve veria o relógio de Acaz andar para trás e receberia a resposta de Deus.
A igreja em prantos, pedia a Deus por Sua misericórdia.
Àquela altura, o médico já tinha lhe dado não mais que 06 meses de vida. Pediram ao médico que não lhe dissesse que esse era o prognóstico porque seria uma notícia assaz devastadora, no que o médico deu de ombros e disse que se passasse por meu avô lhe diria. O médico não disse, e os meses que não seriam mais do que 06 se meu avô fosse muito forte, foram quase 08.
Meu avô foi velado como se fosse um Chefe de Estado. Centenas de pastores de toda a região Sudeste, Goiás e Brasília compareceram à cerimônia e ali contaram histórias acerca daquele homem que, soube eu ali, despertava toda sorte de admiração em homens que também despertavam admiração.
Mais de 2 mil pessoas passaram por aquela igreja.
Lembro-me que quando o Quarteto Alfa cantou pela manhã “Mais perto quero estar”, foi quando a ficha caiu. Meu avô estava perto de Deus e, para sempre, longe de mim.
A marginal do rio Tietê parou para que os batedores da polícia guiassem o cortejo fúnebre até o Cemitério da Vila Alpina, numa fila de carros que, certamente, poucas vezes se viu naquela cidade de São Paulo.
Confesso que tenho vários momentos em que acho mais fácil descrer em Deus do que crer. Muitas vezes, para parafrasear Vinícius, “quero crer, mas não consigo. É tudo uma total insensatez”, mas é a lembrança do meu avô, seu exemplo e tudo que permeou sua passagem dessa vida, que me mantém um mínimo de sanidade espiritual.
Note-se que, as dores de câncer aumentavam quando lhe davam morfina, mas sumiam quando tomava um simples relaxante muscular.
Hoje ficam a lembrança e a saudade. Não houve um dia nesses 4749 dias em que eu não desejei pelo menos mais um dia com meu vô.
Foram várias as noites em que acordei de um sonho em que ele parecia muito vivo e tudo que eu queria era poder ter a chance de sentar no chão e ouvi-lo falar. É poder beijar-lhe a face, dizer que amo e que ele não se atrevesse a morrer outra vez, porque a falta que ele faz é brutal.
Milhares conheceram o pastor; 04 conheceram o pai; outros 04 o sogro. 01 conheceu o esposo, mas o avô amoroso, docemente severo quando precisava ser, desses que ficava bravo se eu falasse de horóscopo ou cantasse em falsete querendo imitar algum cantor de rock, esse avô que fazia de tudo para ver um sorriso dos netos e que ficava bravo se lhe mexiam o jornal, esses só conhecemos Lilian, minha irmã, e eu. E como ele faz falta.
As vezes me pego olhando para o céu desejando que fosse verdade que algumas daquelas estrelas fosse ele olhando por mim. Mas ele não me haverá. Olho meus dias e vejo que me aproximo do tempo em que a maior parte da minha vida será uma vida sem a presença dele e me pego temendo esquecer o tom de sua voz, as formas do seu rosto, guardando apenas algumas lembranças pontuais suas. Mas o tempo, mesmo cruel, não é tão poderoso assim.
Hoje faz 13 anos. Daqui alguns anos serão 30 e, se eu tiver sorte e saúde, passarão mais de 50 anos, e não haverá ano, não haverá mês ou dia em que eu não lembrarei de meu vô como exemplo, com carinho e sempre com o mesmo ou ainda maior amor.
Dessa linhagem do tronco que vem de seu pai, os Grillis continuarão, porque, se ele era Grilli, Grilli também eu sou.
Onde quer que ele esteja, que ele sempre receba o beijo meu.