sábado, 1 de fevereiro de 2014

Último Capítulo de Amor à Vida, o beijo e as sutis mudanças de uma sociedade que é viva

Como já era de se esperar, após a cena do tal beijo gay da novela Amor à Vida, surgem várias teorias a respeito do que tal gesto representa. Desde os mais entusiasmados militantes do movimento LGBTT aos mais raivosos “religiosos” (desses que acham que Deus só é o “seu” amor e não TODO amor), cada um tem uma visão muito própria dos rumos da sociedade brasileira frente a essa (velha) nova realidade que se apresentou.
Em primeiro lugar, é preciso que se diga que não há qualquer inovação na representação de dois homens se beijando. No Cinema, no teatro, na literatura – e, principalmente, na vida real – isso é mais do que comum. Logo, afora o fato de ter ocorrido pela primeira vez numa novela da Globo, a programação mais assistida e comentada do país, não há qualquer razão para festejos ou assombramentos.
Ao contrário do que alguns defensores da “causa gay” querem acreditar, o fato de se ter transmitido o beijo entre dois homens não significa uma mudança de consciência da população brasileira ou mesmo um cala boca ao Feliciano e aos que pensam como ele. Na verdade, também ao contrário do que pensam os defensores da “causa gay”, a tolerância das pessoas não é fruto da sua militância muitas vezes ofensiva aos que não comungam de suas preferências. Hoje, se há uma maior tolerância às relações homossexuais é porque a sociedade evoluiu uma evolução por estágios autômatos e, até por isso, inevitáveis.
São raros os que enxergam a opção/orientação sexual de alguém como uma anormalidade, como algo contra a natureza. Os que assim ainda o fazem, são muito mais guiados pelo medo de se permitir pensar diferente ou até pela incapacidade de enxergarem o diferente como um igual ou mesmo, temem não serem aceitos em determinado meio que parece fomentar, se não um discurso de ódio, um discurso dissociado do amor. Ora, a partir daí, a partir dessa realidade em que se enxerga que sim, que ser “diferente é normal”, as pessoas tendem a aceitar que se não lhes diz respeito, não tem que lhes fazer mal. Se não lhes faz mal, não é da sua conta e se não é da sua conta, não têm que dar palpite no que o outro faz de sua própria vida. E é a isso que entendo que se deve o fato de aceitarem bem o casal formado pelo “Félix e o Carneirinho”. As pessoas simplesmente entendem que casais como aquele simplesmente existem.
Quanto à torcida pelo tal beijo, estou certo de que ela não diz respeito a uma mudança de mentalidade da grande parte das pessoas, com a mesma certeza que tenho de que o público não gostaria de que em toda novela houvesse gays se beijando. Aqui, temos um elemento a mais. O autor da novela, não sei se por talento ou por acaso – muito embora fique com o acaso – não obstante as incongruências de roteiro e dinâmica das personagens, conseguiu desenvolver um romance palatável entre os dois. Quem via a dupla, não se limitava ao gênero, mas ao afeto que surgia e isso, também, graças a atuações seguras dos dois atores envolvidos.
Além disso, é importante destacar a maturidade com que foi demonstrado o “núcleo gay” da novela, uma vez que se fugiu do estereótipo “da bicha louca” de outros tempos e outras novelas e se aproximou para o público a realidade que se vê na rua onde há gays e eles trabalham, vivem sua vida, são cidadãos que amam, que sonham, desejam... que sentem a vida. Quando a gente se atenta para o indivíduo como um todo, deixando de rotulá-lo como alguém que a gente define por um único critério, nos aproximamos muito mais da nossa própria humanidade, feita e refeita nas várias circunstâncias que nos fazem quem somos.
O que a novela nos proporcionou, acima de qualquer coisa, foi a possibilidade de refletirmos como nossos (pré)conceitos limitam a nossa humanidade e, se é que essa improvável redenção da personagem do Félix pode sugerir alguma coisa, é que se as pessoas forem aceitas, e amadas, e puderem viver o que são, como são, com menos ou nenhum segredo, acolhidas por quem amam e sentindo-se livres não para chocar, mas sim, para serem quem são, a vida pode sempre recomeçar e ser mais leve e cada vez melhor.
Não. Eu não acho que a sociedade mudou. Acho que a sociedade é a mesma e seus "valores" continuam os mesmos, com a diferença que eles variam a depender do público para o qual cada um "se" prega. Mas as pessoas, essas sim mudam todo dia e a reação ao último capítulo da novela prova isso. Não é manipulação, não é fim dos tempos, nem obra do "satanás". É gente entendendo que ser gente não se aprende na cartilha, mas se aprende no coração, na vida que vive e na experiência que soma. Que bom...

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Amor, pra que a pressa no amor?

Quase todo mundo que eu conheço elege o início do relacionamento como o melhor momento. Aquela vontade de conhecer, de descobrir, de acertar. O romantismo é a regra e tudo parece se resumir em Vinícius e no seu querer “estar junto se longe e mais junto se perto”. É aquela fase em que se faz questão do beijo, do abraço (e até do aperto de mão). É bom. É o momento do auge da paixão. É arrebatamento, entrega e um sentir sem fim.
Sim, um sentir sem fim. Mas um sem fim que corre o risco inevitável de se findar. Ao longo de todo esse início, os apaixonados tendem a passar por cima dos defeitos do outro. Ignoram-lhes sumariamente. “O véu da paixão encobre os defeitos recíprocos”, para usar a expressão do prof. Cristiano Chaves. E, se nesse tempo as pessoas deixam de considerar certos fatores a respeito do outro, tem-se como um período perigosíssimo para se tomar certas decisões.
A decisão apaixonada perde na severidade de seus critérios. Quando apaixonada a pessoa só enxerga o objeto da sua paixão, que se confunde com o objeto do seu desejo, ambos ganhando um grau de urgência tal que faz com que se queira consumado e consumido no instante de agora (já que se lamenta não tê-lo feito antes). Ora, se é assim, a pressa põe a pessoa sob grave risco de um arrependimento inútil, só porque não curtiu o instante, mas quis antecipar o depois.
A premissa aqui é simples: está apaixonado hoje? Curta a paixão dia após dia, mas sem deixar que ela te guie na tomada de decisões. Deixa que a vida viva naturalmente, sem tantos planos ou expectativas. Não anseie o que virá. Não deixe de fazer/viver hoje porque por alguma razão você considera que é na decisão do que acontecerá amanhã que você poderá, enfim, ser livre pro que quer desde agora. Não se paute no que esperam de você, mas no que você mesma quer para você enquanto pessoa que sente, vivi, deseja. “O amor não tem pressa, ele pode esperar...”, já cantava Chico. Então curta a fase da paixão, deixa que ela vire amor, deixa que o amor faça a rotina e, quando chegar lá na frente, a rotina será parte de você(s).
Agora, se você “radicaliza” e já resolve transformar a paixão em rotina (e por mais que pareça que sim, isso não dá), sinto te dizer, mas a paixão tem prazo de validade. Ninguém vive o tempo todo no limite, o corpo não aguenta, o coração não aguenta. E a paixão está sempre na rotação mais alto do sentimento, do motor da vida. Ah, vocês não gostam da hora do tchau? Vocês mal podem esperar pela hora do OI? O melhor que parece e que poderia ser é que não precisasse haver nem Tchau e nem OI? Bom... mas se é início, curta o início. Só. Experimenta se daqui dois anos, três anos, vocês ainda farão questão um do outro. O teste do tempo é implacável e ser aprovado nele é imprescindível.
No fim, a maior inocência dos apaixonados é acreditarem, de verdade, que toda delícia do agora será a mesma no depois. Acreditarem que não vão mudar e que, se mudar, será para melhor. Acreditarem que só o amor basta. Em suma, acreditarem... talvez por isso, a paixão seja adolescente e o amor seja adulto. Então espera! Pra que a pressa no amor? Ele não tem porque passar. E daí você pode ficar adulto primeiro e decidir depois... 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Dividir para somar vida e viver...

Num mundo que parece cada vez mais marcado pela indiferença, a solidão acompanhada parece ser a constante que definirá os anos atuais. Cada vez mais as pessoas estão “interligadas” umas as outras em redes virtuais plenamente capazes de sugerir uma falsa sensação de acolhimento de um grupo que, na verdade, não existe. A partir daí, disfarçam para si mesmas a triste realidade de quem tem dificuldade de entender a sensação de vazio mesmo quando nota a grande lista de “contatos” que conhece em sua vida (de rede) social.
Cada vez mais as pessoas se bastam menos. Quantos e tantos são os que numa noite como outra qualquer – e elas estão cada vez mais parecidas – rolam suas barras de contatos em busca de alguém pra falar o OI e iniciar a conversa que lhes fará, ainda que sozinhas nos seus quartos (ou salas, ou apartamentos), sentir-se acompanhadas. E por isso que acho que as pessoas estão cada vez mais solitárias.
Ora, se convivo apenas comigo mesmo e canso de mim, fico sem a escolha de saber que sou a companhia agradável para o outro que, também cansado de si, remói a solidão desacompanhada dentro de uma vida real vazia do que valha a pena.
Mas como viver sem partilhar a angústia, sem descobrir que a vileza não é só nossa e que as derrotas não nos são exclusivas e nem mesmo o medo ou a covardia?
Se a minha vida é vivida num meio de pessoas perfeitas, que gozam férias perfeitas, que namoram namorados perfeitos, que estão nas festas perfeitas, acompanhado de um grupo de amigos perfeitos, vou achar que o problema está em mim e só em mim. Se eu pauto minha vida na fantasia que me vendem no mundo que não é de verdade (mas virtual), logo lamento a vida que (não) tenho porque ela não se assemelha com aquela vida que os outros (também não) tem.
E o mais curioso é que as pessoas parecem querer mostrar a perfeição da vida que não vivem a fim de serem melhores aceitas por aquelas pessoas que elas julgam viver a vida perfeita que anseiam para si. E no que eu me mostro e não sou e no que o outro se mostra e não é, corremos o risco de nos considerarmos indignos de participarmos um da vida do outro (essa sim de verdade), afastando-nos ainda mais a muita distância que nossas mentiras já nos afastam.
Tanto melhor seria se as pessoas assumissem suas fraquezas mais do que mentissem as fantasias que se creem. Melhor seria que mostrassem sua humanidade cheia de imperfeições, do que sua super-humanidade tão dissociada do que seria possível ser enquanto gente que sente, chora, erra e ri. Se nós nos empenhássemos em viver a vida no corpo, essa vida que sente, que toca, que cheira, que beija, abraça, olha e ouve ao vivo, saberíamos que aquele que parece mais, às vezes está mais e às vezes está menos e que quando ele é mais, me torna mais ainda que eu esteja menos e quando ele estiver menos, será mais do mais que lhe farei. E haveria menos dor, menos angústia, menos “menos”.
Se a mente da gente mente, os olhos, a voz e a postura não. Mas a gente não vive da mente que mente, a gente vive do corpo que sente. Deixa, então, que o outro – que te mereça na reciprocidade de ser merecido por ti (e por mais que você duvide, esses todos são) – saiba o que você sente. Divida-se você e deixa que ele te divida ele. Dividam-se os dois. Dividamo-nos nós uns aos outros e somaremos e ganharemos vida porque, no final da vida, o que vale mesmo é esse viver.

domingo, 5 de janeiro de 2014

Satisfação é costume


Ao contrário do que as redes sociais tentam sugerir quando mostram milhares de sorrisos capturados no lance rápido de uma foto, o que percebo é que as pessoas estão cada vez mais insatisfeitas com sua vida. Talvez esse fato se deva à inevitável comparação que fazem de sua vida real com as vidas ilusórias dos que as cercam e que só mostram o gozo ininterrupto que não têm. Ninguém é feliz o tempo todo e não há quem viva uma vida sem que a dor, o ressentimento e a angústia façam parte. Ainda assim, as pessoas parecem - na sua maioria - viver uma necessidade de se mostraram sempre vitoriosas, infalíveis e inatingíveis pelas agruras da humanidade, de serem humanos. 
A partir daí, comparando a certeza que temos de nós mesmos com a aparência que vemos de quem nos mostra apenas parte do que é, invejamos a fantasia que é culpa exclusiva da nossa imaginação, tendente que é de fazer com que vejamos no outro todos os sucessos que não experimentamos, todas as vitórias que não venceremos e todas as felicidades que jamais ousaremos querer sentir. É quando, então, nossos ombros pesam pra frente, nosso semblante cai, nossos passos ficam carregados e a vida que deveríamos viver passa a ser o que nos vive, consumidos que nos fazemos pelo ocaso de uma existência insatisfatória dentre tantas que parecem tão cheias de satisfação. 
Estamos sendo injustos para conosco e somos apenas nós que temos a condição de revertermos esse quadro tão dolorido.
O primeiro passo para que sejamos justos para conosco é deixarmos de ser nosso principal adversário. Somos nossos próprios adversários quando protagonizamos violências que se voltam exclusivamente contra nós. Quando abro mão de experimentar um prazer que sempre tive sem que uma razão justa - e que seja minha - o justifique, sou violento contra mim e a insatisfação que sinto - por ser causada por mim - se faz motivo para que me goste menos, justamente porque é uma insatisfação a que eu mesmo dei causa. Ora, se me gostando menos, é natural que faça  pouco para alcançar o melhor de mim, afinal, não me mereço. 
É nesse momento que surge a necessidade de que sejamos francos com aquele que vemos todos os dias refletido no espelho diante da gente. É necessário que eu tenha o controle, o domínio de quem sou, do que quero, do que gosto, do que espero e do que posso fazer em razão e como fim de tudo isso. Por tudo isso é que é preciso que paremos de nos renunciarmos a nós mesmos e, antes disso, que sejamos honestos, sem medo dos julgamentos daqueles que, por não serem a gente, não tem qualquer condição de entender quem a gente é e porque a gente gosta disso que a gente gosta.
Como somos imaginativos, logo olhamos nosso próximo e nos permitimos crer que ele não abre mão de si, que goza feliz seu matrimônio, vivendo com um cônjuge que não lhe cobra e nem lhe furta um prazer que é sempre ninfômano, um chefe que sempre lhe compreende mais do que lhe exige, um emprego que lhe satisfaz mais do que fustiga, uma vida sexual que é ativa, plena e desembaraçada de pudores desnecessários, amigos, dinheiro, possibilidades e uma boa sorte que não tivemos e nem cremos que a teremos. Nessa pessoa vemos alguém que se permite, que vive de uma forma mais intensa do que a gente ousa e pensamos que se ele faz - e nem sabemos se realmente é como pensamos - nós também poderíamos, porém, a rotina da vida nos suga e, quando mal nos notamos, somos mera repetição daquilo que sempre fomos e que a maioria também é. 
Uma vida inteira de possibilidades para que sejamos o que quase todos também são. E aí está uma segunda violência para conosco.
Ao longo de nossa vida estamos cercados de pessoas que são mestres em dar palpites. É incrível, mas às vezes a impressão que dá é que praticamente todas as pessoas a nossa volta sabem melhor do que gente o que é melhor pra gente. É por isso que vemos pessoas insatisfeitas nas faculdades, nos empregos, nas cidades em que moram. A maioria dessas sucumbe à pressão e, inseguras em relação ao que sentem, seguem um roteiro escrito por quem não vive sua vida, mas não se toca que se é que sabe de algo, sabe pouco do muito que sente.
Sentir sem medo e respeitar o que sente e o que quer até se permitir buscar o que almeja, é outra forma de acabarmos com a violência para conosco e estarmos satisfeitos com quem seremos se de fato quisermos ser.
Querer ser é ter esperança, mas não a esperança de quem espera. A esperança que se "esperança" é aquela de quem age com o fim de alcançar o que quer, de quem não se furta de arregaçar as mangas para ser o protagonista da própria história e o arquiteto do próprio futuro. É a  esperança que sai do silêncio do anonimato gritando o som da certeza de ser quem é e não o que acha que esperam que seja. E, quando formos - e seremos - o dono de nossa própria história, poderemos nos dar por satisfeitos de verdade, não pela estima que nos prestam (emprestam), mas pela estima que nos temos, porque nos damos. É tudo uma questão de termos o costume de vivermos o que é nosso e o que somos nós e a satisfação nos será costume, costume de satisfação.  

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Retrospectiva 2013: o ano novo e a oportunidade das novidades que fazemos por nós




Ter estabelecido o costume de escrever um texto de fim de ano aqui no blog desde o seu primeiro ano (2009), acabou sendo um hábito saudável, já que me exige passar em revista o ano que se encerra.
Sempre digo que não vejo virada de ano como uma oportunidade de mudança diferente do que qualquer outra virada de um dia para o outro. O tempo é nosso e a única certeza que nos traz é a de que não para e, se o dividimos em frações, é para um controle que se quer que conforte, mas que não oferece muito mais além da angústia de se saber que a soma de hoje é menos do que será na hora seguinte.
Tudo bem que olhar para trás pode fazer com que se perca o bom caminho que se anda (ou deveria se andar) pra frente mas, ainda assim, se nosso tempo é dividido, fracionado e contado da forma que é, é importante que avaliemos o que fizemos e o que, disso que fizemos, trará algum fruto bom para o que ainda viveremos. Ora, insistir no que não nos leva à diante, repetir o que nos tomou o tempo que não nos voltará e nem nos somará no resultado final da nossa vida, é lutar contra nós mesmos. Daí que me parece sem qualquer propósito que as pessoas comemorem o novo ano como uma nova oportunidade, sem que queiram ser a outra pessoa que lhes será melhor.
Ainda assim, penso que o saldo do meu ano de 2013 é mais do que positivo. Tive tristezas, alguns princípios de decepção no início do ano, mas que viraram alento no seu final. Senti falta de muita gente, reencontrei algumas no caminho e conheci outras que chacoalharam meus dias e mudaram radicalmente meu destino daqui pra frente... e da melhor forma possível.
Em 2013 ir à igreja virou regra e não mais a exceção dos últimos anos. E isso tem me feito bem e muito graças a uma viagem a São Paulo e a visita a uma amiga querida que encontrei na sua igreja. De volta pra Rondônia, logo no primeiro domingo e a vontade de ir à igreja de novo e nunca imaginaria que essa ida mudaria a minha vida. Lá encontraria quem me veria primeiro, saberia de mim e surgiria na minha vida com uma elegância quase nada discreta. Chegou "me lendo" e depois perguntando, perguntando, tentando conhecer. Depois foi deixando pra lá, meio que fugindo e fingindo não querer. Mas ao alcance de um chamado e de um primeiro oi - após a gentileza dela - que me fez querer saber dela o tanto que ela parecia - no início - querer saber de mim.
À essa altura o ano já tinha me levado pessoas e me trazido outras que foram importantes no cenário de um ano que no seu início parecia melancólico, mas que no seu meio já tinha muitas novidades. Liberdade, independência e experiências que me faziam escrever de forma apaixonada as paixões que eu criava, mas das quais sempre fugi. Vivia minhas histórias sem a profundidade que faz com que o tempo se acumule ao invés do fim inevitável de um começo que nunca passará para além. Mas cada visita recebida nesse instante do meu ano, foi  surpresa mais que bem-vinda a me fazer esse alguém pronto a olhar meu 2013 e saber que devo mais é agradecer.
Minha vida que se fazia uma bagunça de sentimentos em sentimentos, de muitos "gostar", muitos quereres e muitos sentir, entrava numa ordem feita por mim para ser de quem queria viver e tenho vivido e desde que surgiu (no último quarto do ano) tem me mostrado que o mais acertado de mim, foi me guardar para ser de verdade de quem não se furta de ser parar mim mais do que eu seria possível experimentar na vida com outro alguém. E que seja mais e para mais e muito mais.
Sou grato a Deus e à vida pelas pessoas que estiveram nos outros anos e ainda estão. Não mantenho por perto e nem dou importância para quem não me é importante. O que seria de mim sem minha analista que me mantém no meu eixo (que nem é tão centrado assim - graças a Deus!)? Ou sem quem me é queria já que me faz confidente e me escuta e torce também? Que bom que tenho essas que também me querem bem.
Sou grato a Deus e à vida pelas pessoas que conheci, pelo trabalho que mais do que emprego, é um trabalho que gosto e pela família que amo e que esse ano cresceu e no próximo continuará crescendo. Tudo vem sendo bom e não tem porque não melhorar já que, como diz a propaganda, se melhorar, melhora!
Um ano, então, se encerra para que outro se inicie e, a partir destes, as pessoas planejam, projetam e sonham, mas quando passa o tempo da festa e a vida volta a ser o que sempre foi, voltam-se as rotinas e tudo que se faria perde para o que será a repetição do que sempre foi. É certo isso? Talvez não, mas o mais importante é que a vida vive e não para de viver.
Ainda assim, as eras em que dividimos nossos dias são propícias a que pensemos e repensemos nossas vidas e o que temos feito ao longo dos instantes em que estamos vivendo. O que será, será e que se é pra ser surpresa, que seja a surpresa que vem daquilo que fazemos e que ousemos fazer então. Façamos... amor (e guerra se preciso), escolhas, o futuro nosso de cada um. Mas façamos, porque viver é fazer e fazer é viver... vivamos o 2014 para que seja melhor do que todos que passaram foram e todos os próximos sejam melhores ainda. FELIZ ANO NOVO!!!

domingo, 22 de dezembro de 2013

Esperançando...

Nada de simples esse sonho de agora
Em que me havia tudo que um dia me quis
Nele estava você mais do que linda,
Nele me havia a você que me fiz.

Não me passava de um sonho improvável
Fantasia que mal ouso contar, 
Mas é que no sonho o impossível é provável 
Até o instante em que nos faz acordar.

Não me vejo em teus olhos que não vêem a mim
E nem te busco além do muro de vidro que há
Mas vem a vida e resolve me dar
Esse sonho calado que insisto em sonhar.

Mas não me queixo de um sonho que, enfim,
Te traga tão linda e pertinho de mim.
E, quanto aos meus sonhos, que eu possa é sonhar 
"Esperançando" a certeza de que você me haverá.

(22/12/2013)

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Deus é uma opção (mas de alguns)

Ontem eu tive a oportunidade de assistir ao documentário “Sergio” sobre o diplomata brasileiro, Sérgio Vieira de Mello, morto após a explosão de um carro-bomba contra o prédio da sede da ONU no Iraque, onde atuava como chefe da missão e representante do Secretário-Geral Koffi Annan. A certa altura, ouve-se de dois oficiais das Forças Armadas norte-americanas que serviam no Iraque, que ambos encontraram o brasileiro com vida sob os escombros do prédio, preso na altura do peito para baixo. Durante o resgate, um dos oficiais convida Sérgio a que rezasse com ele e pedisse que Deus os ajudasse a tirá-lo daquela situação, momento em que ouviu dele, aspas ao oficial, citando o brasileiro: “Dane-se Deus. Foi Ele quem me colocou aqui. Não quero oração. Quero que primeiro tire os outros daqui”, além de outras prováveis ofensas a Deus e que o oficial não se sentiu confortável em relatá-las à câmera.
Fiquei imaginando a situação daquele homem. Segundo os seus socorredores, ele esteve lúcido o tempo todo. Enquanto a dor permitiu, conversava com os militares e pedia que cuidasse dos demais funcionários da organização que chefiava, tinha total conhecimento do que havia ocorrido e pelo que estava passando. Próximo de si, ouviu enquanto um colega de escritório tinha as duas pernas cerradas para que pudesse ser retirado de sob os escombros e, ainda que flertando com a morte, quando convidado a fazer uma oração – e ele tanto poderia morrer a qualquer momento, como de fato morreu – opta por não fazê-lo, não querendo se ocupar de um sentimento religioso, ainda que às portas da morte.
Diante dessa reação, os crentes de certas crenças podem até lamentar a decisão daquele homem, considerando que perdeu a chance de uma redenção junto a quem poderia dar um bom destino à sua alma após o fim de sua vida. Contudo, podemos lamentar, mas não censurar tal decisão. Ela é razoável e faz sentido. Deus é uma opção e, ainda que possa ser verdade, continua sendo uma opção e acredito que nem mesmo Ele acha que é diferente. Diante das circunstâncias da vida cada um opta pelo que bem entender. Uns optam em crer e busca-lo, outros optam por não crer e, portanto, não faria sentido algum se ocupar dEle, enquanto outros optam por crer nele e, apesar disso, não querê-lo para si. São todas opções. E são legítimas. São justas. E elas não fazem ninguém mais forte ou mais fraco. O fato de alguém dizer que não precisa de Deus não o torna mais especial, autossuficiente ou digno de admiração (nem de pena). Da mesma forma, os que acreditam em Deus, não são seres menos preparados, ou menos intelectualizados só porque colocam sua esperança numa força superior que lhes dá suas razões para crerem.
Por outro lado, temos que levar em conta o fato de que Sérgio estava certo: fora Deus quem o colocou naquela situação, esmagado por toda sorte de entulho porque um terrorista maluco estacionou um carro-bomba sob sua janela e o explodiu. Ou não é o que diz a Bíblia de que tudo ocorre porque Deus permite? A diferença vai de como entendemos o trabalhar de Deus e, se o considerarmos perfeito, poderemos dizer que seu principal objetivo é estabelecer um relacionamento com o homem, destinando-o a que se aproxime dEle mais e mais, uma vez que, sendo Deus amor e tendo para conosco a intenção de que passemos por esse mundo para gozarmos do melhor que nos tem preparado, temos um Deus que nos estende a mão o tempo todo, menos preocupado com nosso destino terreno e mais ocupado em nos preparar pelo que de melhor ainda nos virá.
Pois bem. Acontece que o nosso mundo é esse e ninguém pode ser culpado de gostar e fazer questão do único universo que conhece, nem das boas sensações que experimenta ou do bom futuro na vida que ainda sabe que vive. E se viver é feito de escolhas que temos que escolher, Deus também é opção que podemos ou não fazer. E até isso é escolher e não faz ninguém melhor, nem pior do que ninguém. Apenas diferente. E diferente também é bom... e o respeito mútuo é ainda melhor.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Nem bonito nem divino, mas profano: não há reza no que é feito pra gozar

Nós vivemos o mundo através do nosso corpo, experimentamos a vida através dos nossos cinco sentidos, no gosto, no toque, no cheiro, no que vê, no que se fala e no que se ouve. Nosso corpo é o meio da nossa vida e o instrumento das nossas experimentações. Nosso corpo é nosso, como é nosso tudo o que sentimos e experimentamos através do nosso corpo. Talvez por isso não consiga ser contra ao aborto, a que duas pessoas do mesmo sexo se gostem, etc., mas isso é assunto pra outro dia.
Estou aqui me referindo ao sexo. Há séculos a igreja tenta tratar o sexo como algo santo. Eu até entendo que na necessidade de controlar o ímpeto dos seus seguidores, ela precise fazer proibições. Proibindo tudo talvez seja mais provável que façam menos do que fariam se tudo fosse permitido. Acontece que o sexo não é santo, sexo não é divino e o bom sexo, muitas vezes, nem bonito é (muito embora uma cena em coreografia bem feita é gostosa de assistir).
Sexo é carne, é sangue, é fogo, instinto, é cheiro e objetivo. Sexo é prazer é gozo, é escândalo, é tempestade, é vendaval. Sexo é mais agora que depois, mais desejo que razão (ainda que nele, o desejo seja toda razão).
Não sei se o sexo foi um presente de Deus para os homens. Se foi, muito obrigado. Agora, se foi mesmo, ninguém – normal – ganha o presente pra deixar guardado na caixa. Sexo foi feito pra gozar (sim, sim, trocadilho). É aquela coisa que, bem-feita, a gente pensa: “como fiquei tanto tempo sem isso?”. E, porque é bom, é que tentam proibir. Mas esquecem que o que é proibido pode ser melhor ainda.
Acho que Freud diria que grande parte dos problemas das pessoas está associada a sua vida sexual insatisfatória. E faz sentido. A grande maioria de nós somos sujeitados, desde sempre, a uma vida de castração. A alguns é proibido, inclusive, a fantasia que leva a curiosidade de querer aprender o que é isso que todo mundo faz, todo mundo deseja, todo mundo almeja, mas a maioria manda calar. A pessoa que se permite uma vida sexual mais liberal, logo recebe adjetivos pouco ou nada elogiosos, só porque faz o que muitos têm vontade, mas não conseguem ter a menor coragem e só não se ressentem por isso, porque fazem de conta que não se importam (mas se ressentem e nem percebem que aquele mau-humor que não passa seria bem resolvido com... a vocês sabem o que).
Eu vi um vídeo de uma psicóloga-sexóloga-cristã que dizia que sempre que tinha um orgasmo, orava agradecendo a Deus. Ah vá! Tudo bem, cada um com a sua fé. Mas se é que Deus criou mesmo um Adão e uma Eva para que crescessem e multiplicassem e, nesse ato, pôs-lhes a propensão ao prazer e encheu-lhes o corpo de zonas erógenas, tudo bem agradecê-lo. Só que não é pra tanto, né? É misturar demais as coisas. Deixa que o que é do corpo, é do corpo, é da carne. Sexo não é divino. É a profanação do corpo alheio em busca – se tudo der certo – do prazer que será dos dois. E quando esse prazer é de verdade, dá inveja até em quem vê a gente chegar rindo numa segunda-feira de manhã. Ou é por um acaso que esse alguém logo pergunta: a noite foi boa, hein?
E sexo é isso. É feito pra ser bom. E só. Não é feito pra ser mais ou menos, nem pra ser de noite, nem pra ser dia. É pra ser. Com vontade, de preferência. E, muitas vezes, essa vontade, é só questão de começar...
Freud explica? Ô se explica...

sábado, 30 de novembro de 2013

Texto invertido: Escolha viver, não é tão difícil / Não é tão difícil, escolha viver...


Escolha viver.
Pra isso, apesar de tudo que houver de difícil,
Lembre-se que a história é tua e que
Vale a pena sonhar e realizar cada sonho,
Ousar viver tuas próprias certezas e pensar que
A limitação não pode te impedir
Ainda que tudo pareça inalcançável pra você.
É preciso buscar e não ter medo de tentar,
Ama o que sonha e realmente queira, pois
Pra conseguir o que verdadeiramente deseja
Não é tão difícil.








Obs.: a leitura pode ser feita de cima pra baixo e de baixo pra cima... rs

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Ser a escolha no amor

Dias atrás esqueci a tevê ligada e dormi. Já pela manhã, acordei ao som do programa da Fátima Bernardes que entre seus convidados tinha o escritor Fabrício Carpinejar. Naqueles primeiros instantes em que nos damos conta que acordar é inevitável, ouvia uma discussão entre os demais convidados quanto à viabilidade ou não de dois amigos iniciarem um relacionamento amoroso. A essa altura, o filósofo Carpinejar, tão merecidamente festejado nas redes sociais, disse não ver com bons olhos dois “antes amigos”, tornarem-se namorados e, para defender sua posição, afirmou que entendia que isso era antirromântico na medida em que a sensação que passava era a de que, por não terem arrumado coisa melhor num primeiro momento, olharam para si que sempre tiveram perto e resolveram que fossem – como consolação – o namorado um do outro. Assim mesmo, aceitando que fossem a segunda opção.
O comentário do escritor-apresentador-filósofo Carpinejar me acordou. A partir daquele momento me pus a pensar se ele tinha razão. Se o fato de serem amigos e depois namorados diminuía o valor da relação que iniciavam. Fiquei pensando se realmente fazia sentido se crer que o fato de terem sido amigos por tanto tempo os legavam a essa posição de “segunda opção”, escolha por falta de escolha e acho que eu acho que ele foi muito duro.
Desde que comecei a pensar nisso, fiquei tentando comparar o que significa ser a primeira ou a segunda escolha, no campo do amor, da atração, do tesão, da vontade, etc. Até que ponto há mérito ou demérito em alguma dessas posições, principalmente se levarmos em conta que todos nós em algum momento de nossas vidas desejamos e fomos desejados e que nem sempre tivemos quem queremos e nem fomos de quem nos quis. E mesmo porque essas escolhas não costumam ter critérios absolutos ou objetivos, mas dependem do momento, da carência ou da necessidade de gostar de “outro” alguém.
O que sei é que, pra mim, essa primeira escolha não tem muita coisa de positiva, não traz ganho. Isso porque a primeira escolha é aquela que se faz no afã, na emoção, na tentativa de antecipar um sonho que tem tudo pra não ser real. A primeira escolha é a fantasia ousando deixar de ser fábula para fazer história, mas sem saber escrever já que quase nunca vai além do engatinhar. A primeira escolha é a da certeza sem certeza do final feliz.
Já a segunda escolha tende a ser a da maturidade. Ela tem motivos. No mais das vezes, bons motivos. É a escolha que também pensa o depois, que não pensa no que arrebata e deixa saudade, mas no que vem pra ficar porque é bom que fique. Enquanto a primeira escolha é a de quem só quer jogar, a segunda é a de quem quer vencer esse jogo.
E nem se trata de momento que se escolhe, mas sim, do momento que se vive quando se escolhe. A primeira escolha sonha com o futuro que provavelmente não chegará e a segunda escolha com o futuro que fará(ão)... juntos! A primeira escolha é passional de um jeito estabanado, enquanto a segunda é escolha é mais segura e concreta; a primeira escolha é adolescente, a segunda escolha é adulta; a primeira escolha deseja, a segunda escolha faz; a primeira escolha sonha, a segunda escolha vive; na primeira escolha há fogo, mas só a segunda sabe causar incêndio, porque é a segunda que costuma saber o que faz...
No fim, o que vale é a sinceridade com que se escolhe até porque romântico não é escolher, mas viver de escolhas próprias. Isso é ser a escolha no amor: quem sabe o quer, mas também sabe ser querido, sem medo de nenhum dos papéis. É dar e receber o carinho que acumula, compartilhar o sonho que deseja e realizar a fantasia que faça sonhar. Romântico não é ser o primeiro, o segundo ou o terceiro, mas ser o último de um instante e o definitivo de todos os demais. Não é ser ou ter algo ou alguém a mais, mas ser e ter o tudo o que vem de quem se descobre imprescindível onde sequer se imaginava e, a partir daí, continuar sendo todo dia... um dia de cada vez.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sou alegre porque sou triste

Sou alegre porque sou triste, mas não porque me falte algo. Algumas pessoas simplesmente são assim: tristes. Elas sabem ser alegres, gostam de se sentir alegres, às vezes até ousam acreditar em felicidade, mas, na sua essência, são assim. Tristes.
Mas não se trata de uma tristeza que faz querer chorar, que faz querer tirar a vida ou, pelo menos, desistir dela enquanto vive. Não. Aqui se diz de certa melancolia que dá o gosto necessário para a vida que se sonha.
Sim. Sou naturalmente triste e sou alegre por causa disso. Essa tristeza me faz ver e entender o mundo (ao menos meu mundo, do meu jeito), me faz entender (e viver) certas músicas e nem dar ouvido para outras tantas. Essa tristeza me faz escrever... me faz aprendiz de poeta, cronista inacabado, contista sem histórias, mas que faz histórias pra contar.
Sei que não nasci para ser irremediável e constantemente feliz. Nem o quero. Posso até fazer alguém feliz e esse alguém pode me fazer seu bem. Contudo, sou o limite de mim mesmo e a felicidade parece ir além do limite de mim. Porém, a conheço e, em seus momentos, sei reconhecê-la até mesmo em mim.
Ah, mas ser triste me faz melhor amante e me faz gostar ainda mais de amar. Por que? Porque sendo triste, sei perceber e sentir a alegria que só sabem os que amam. Naquele instante de amor, de carinho, de desejo, de devaneio ou torpor, sou tudo, menos triste. E isso, porque sou tudo o que ela me dá e que sei retribuir. Se problema há, é que, na minha tristeza alegria costuma se confundir com prazer e prazer não é tão fácil de achar.
Minha tristeza não é pessimismo. Eu ainda sonho, eu ainda amo, ainda busco algo a mais. A minha tristeza só não me deixa entender gente alegre. Essas, pra mim, não existem. São invenções de outras gentes tristes que não se entendem nem se aceitam como são. (Desculpe-me você que se pensa alegre. Talvez até seja. Sou apenas o eu que não te entende)
Não me queixo por ser triste. Ou o que mais dizem meus olhos que, portas da minh’alma, não se importam em ganhar brilho no instante anterior ao que voltam ao normal de si? Opacos. Vivos porque o corpo respira, mas sem vida quando o que veem é o mais do mesmo e o menos do que gostam de ver. Só que a vida dos meus olhos – que muitas vezes parece que nem vive – renasce a cada olhar. E também sabe se saber alegre, ainda que triste.
Apesar de tudo, serei sempre a metade de mim mesmo. A parte inacabada do que jamais virei a ser. E que por isso continuo e ouso me buscar. Mas sendo o que for – e serei! – guardarei as melhores coisas e delas lembrarei sorrindo e esse sorriso, apesar de eu ser triste, será sempre um sorriso verdadeiramente feliz.
No fim, sou triste porque sou eu, mas alegre por esse triste ser eu. Melancolia nem sempre é doença. No fundo, minha melancolia é o aleijume que me faz compensar o sentido prejudicado. Na falta do sentido de ser feliz, encontro-me no que me basta enquanto triste e que, sendo eu esse triste, faz-me alegre. É a minha tristeza que me ensina ser alegre e a gostar de ser assim...

sábado, 16 de novembro de 2013

Débito e Crédito no amor

Os relacionamentos parecem que duram cada vez menos. Duram pouco. Os de espírito mais livre, acostumados ao misto de furor e desestabilidade inquietante que o começo de toda paixão proporciona, devotos que se tornam do eterno começar de novo, diriam que durou o tempo que tinha pra durar. Que durou o tempo de ser bom. 
Por sua vez, os mais tradicionais, esses que pensam numa união que se justifica no tempo e nele encontram sua ratificação, diriam que o mundo está cada vez mais fugaz e que a consequência disso é frugalidade de tudo, desde relações de emprego até os relacionamentos.
Mas aqui falaremos de amor.
Sem dúvida há milhares de motivos capazes de encerrar um relacionamento. Muitos, quando começam, carregam a única perspectiva de se ver o que será. Não há uma intenção além do dia após dia. Vamos ficando, vamos estando, vamos vivendo; se der deu, se não der, vamos atrás do que dê. Simples assim. Mas vazio também. E por que não dizer “covarde”?
Só que ao mesmo tempo, há muitos relacionamentos que parecem estáveis, entre pessoas que parecem se fazer bem e que, quem olha de fora, diria que até faz sentido que estejam juntos e que, de repente, enfrenta um processo de desgaste que parece irrefreável, irremediável, inevitável e súbito. É quando o fim – que ninguém espera – chega!
E por que isso acontece?
Aqui vou tratar de apenas uma das razões. É o título desse texto: débito e crédito no amor. Sim, porque há muito disso. 
Uma das marcas do início da maioria dos relacionamentos é que mostremos o mais possível do nosso melhor. Quando queremos seduzir, encantar, fazer o outro enxergar vantagem em estar conosco, temos a tendência de esconder os nossos defeitos e ressaltarmos as nossas qualidades. A partir daí, criamos uma expectativa de sermos quem não somos. A pessoa compra a nossa propaganda, acredita na nossa personagem e, por um tempo que durará o que aguentarmos ou parece conveniente, seremos refém de quem nos fizemos.
Para corroborar a personagem que criamos, fazemos renúncias a nós mesmos. Note: quando após a fase da conquista, ainda assim nos sujeitamos a certas renúncias, num primeiro momento fazemos motivados pelo que de bom enxergamos na pessoa que está conosco. Só que esse bom se dá dentro do contexto temporal da “escolha”. Naquele momento há alguma reciprocidade: abro mão de mim, porque acho no outro o que me completa à sua forma, dentro de uma necessidade.
Quando o tempo passa e a situação de renúncia continua, a tendência é que deixemos de nos reconhecer em nós mesmos. Ora, o movimento da renúncia por mais natural que pareça, é antinatural. Ao renunciarmos, abrimos mão de sermos nós mesmos e, se não somos nós, somos estranhos a quem de mais importante: a gente. E é aí que começa a confusão.
Quando a pessoa passa a considerar que está deixando de ser ela mesma, começa a achar que faz um sacrifício em prol do outro e se ela faz um sacrifício, julga que passa a ter um crédito. 
Para que haja crédito, deve se ter um devedor. 
Quem é o devedor? 
A outra parte do relacionamento.
Como bom credor, essa pessoa passa a esperar que seu devedor (marido, esposa, noivo, namorada, etc.), pague voluntariamente a sua dívida. Então a pessoa fica quieta. Aguarda. Ansiosamente, mas aguarda. Só que ela passa a contabilizar os juros. “Já são tantos dias e nada”, ela pensa. O seu descontentamento vai ficando evidente. Tão evidente que, muitas vezes, ela sequer percebe que, do outro lado, a outra metade dessa relação também vem se achando credora de débitos que ela não paga.
Como ambos só se pensam credores e não se veem devedores, não buscam qualquer compensação. Pelo contrário. Vão acentuando o descontentamento no seu coração, até que a convivência vai ficando cada vez mais pesada, os ressentimentos vão crescendo, muitos se acentuam, o distanciamento vai parecendo natural e, quando se veem, além de não se reconhecerem em si, sentem-se estranhos um para o outro. É quando chega o fim.
Tudo poderia ter se resolvido com uma só conversa, com um simples diálogo onde os dois quisessem acertar, sem que um queira parecer mais forte e mais bem resolvido que o outro, porque isso só faz acentuar a necessidade de “disfarce”. 
Acima de tudo, sinceridade quanto ao que quer, quanto ao que deseja, quantos aos medos e quanto ao que sente falta. 
Se você diz pra quem está contigo que não tem e que você gostaria que tivesse e ela, ainda assim, não faz e, ao mesmo tempo, ouve dela e, apesar disso, não muda, é hora de resolver e até, aí sim, terminar. Vocês não querem mais se acertar, mas apenas sujeitar um ao outro a seus caprichos.
Duas pessoas num relacionamento, sentindo-se credoras sempre e devedoras nunca, é mais comum do que parece. Acontece o tempo todo e sempre porque pensam fazer sacrifícios sozinhas e porque julgam que o outro tem que, inclusive, adivinhar pensamentos.
Daí eu crer que relacionamento não é sacrifício de um e de outro, mas vontade mútua de que os dois façam dar certo. 
Daí também que eu acredite na importância da conversa e do balanço. 
Se temos que caminhar juntos, precisamos ter certeza que andamos na mesma direção. 
Às vezes, um mais lentamente do que o outro, mas se somos dois, um se ajusta ao outro, mas desde que diga: “preciso de você!” e não que fique esperando que o outro veja fraco quem, muitas vezes, faz de conta que é forte.
O amor não é 0 a 0 nem 2 a 1, mas deve ser um eterno empate com muitos gols.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Até que ponto?

E é quando eu me pego pensando nas várias vezes que alguém diz: 'ah, sei lá como que tá. Eu sei que peso o que é bom e o que é ruim e continuo porque, apesar de tudo, o saldo fica mais pro bom'. E daí eu pergunto: qual é a vantagem? Até que ponto vale a pena ficar com o mais ou menos porque ele é um pouquinho mais do que menos? Até que ponto vale se alimentar das eternas ausências como forma de compensar o que falta no momento de agora? Se faz falta, deixa o que não satisfaz e vá atrás do que te faça melhor do que está agora.
Só que de repente a gente se pega optando por viver menos (em qualidade de vida), querer menos, ousar menos e, sem que a gente note, já nos fizemos reféns das nossas próprias escolhas, de sonhos que foram sonhados em outras épocas e que, por desatenção, viraram verdades até hoje. Nos tornamos reféns de nós mesmos e das expectativas que queremos atender (e nunca são apenas as nossas).
Tudo isso é absurdo. Sim, porque é absurdo sermos reféns das nossas próprias escolhas, na medida em que o controle da nossa vida é nosso e quem a vive – se ela vive! – somos nós.
A partir daí, até que ponto viver o parcial é melhor? Até que ponto fazer parte de um grupo ou de um instante é realmente mais eficiente do que estar sozinho? Quanto vale a pena querer ser aceito e, em nome disso, deixar de se aceitar?  Quanto vale a pena insistir no que não há, no que já foi, no que nem foi ou nem será?
Olhamos o passado que nos sonhamos e estamos presos a ele. E, muitas vezes, ele não tem mais nada a ver com o nosso presente. Mas ele está ali, sempre pronto a prejudicar o nosso futuro.
Presos no mais ou menos, contentes nos nossos descontentamentos, deixamos de buscar e querer e contar e aproveitar o que for arrebatador! Pode ser que até que não chegue, mas vale a pena buscar. Queiramos a melhor risada, o melhor beijo, o melhor abraço. Queiramos o amor mais quente, o prazer mais forte, o grito descontrolado de quem pede. De quem pede mais. Sempre mais! Nunca menos. Menos jamais.
Mas ao invés disso, muitos de nós teimamos em continuar crendo no que teimamos achar que nos é importante, e então, não entendemos a falta de vida que, invariavelmente, sentimos.
Isso é tudo porque é menos a atenção que temos prestado em nós do que a importância que damos para todos outros que não são nós e para tudo aquilo que, de verdade, nem queremos mais pra nós.
Até que ponto vale a pena?

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A Família é projeto de Deus! - E por que eu penso que a novela é a ferramenta que tenta destruir a família

Eu sempre tive uma tendência a torcer o nariz para certas afirmações. Sempre tentei distanciar o máximo possível o que é terreno do que é divino. O que é simplesmente da natureza do homem daquilo que faz parte de uma batalha travada num campo espiritual. O que é realmente importante pra Deus, daquilo que nós distorcemos na tentativa de humaniza-lo.
A partir daí, sempre desgostei de afirmações do tipo de que a televisão está aí como ferramenta do diabo a fim de destruir a família, essa sim, importantíssima para Deus e seu projeto para o homem. Mas agora vejo que é verdade. A família é projeto de Deus e, dada sua importância, e ela vem sendo atacada corriqueiramente e de uma forma cada vez mais escancarada.
Ora, a família faz parte do plano de Deus para o homem, sendo nela que se molda o caráter, nela que o homem encontra abrigo da dor, força e razão pra seguir em frente, bem como, desenvolve sua espiritualidade, uma vez que se pense que a família deva ser o primeiro ponto de reunião das pessoas que querem - devem e precisam - adorar a Deus.
A família vem sendo atacada rotineiramente na televisão e vejo isso nessa atual novela das 21h em que o patriarca trai a esposa sistematicamente até o ponto de fazer com que ela crie a filha dele com uma amante; faz o filho gay casar com a garota de programa que antes lhe atendia e que estava grávida dele, fazendo o filho acreditar que é pai do próprio irmão. E, depois de tudo isso, ainda troca a esposa de anos - a quem traía - pela secretária.
Esse filho, que tenta destruir o pai em nome da presidência de um hospital, já jogou a própria sobrinha recém-nascida na caçamba de lixo e anos depois ajudou a sequestrá-la, deixou a irmã para morrer de hemorragia no banheiro de um bar e tentou incriminá-la por tráfico internacional. E isso, só dentro de uma família.
Na outra, a mãe incentiva a filha a não ficar com quem ama, mas sim, dar um golpe da barriga em algum milionário.
Em outro momento, o marido recém-casado trai a esposa em plena lua-de-mel e o que essa resolve fazer? Sai dando pra quem tiver vontade de pegar até que, apaixonada por um colega de trabalho, não pode ver o cara passando que já tem que arrancar as roupas onde estiverem...
Outra "amiga" vai morar com um casal de amigOs, só pra furar o olho de um com outro e engravidar dele... não bastasse, agora a filha namora um cara que já foi namorado da própria mãe.
E isso, sem contar o escarcéu que fizeram porque uma enfermeira tinha na casa dos 30 anos e ainda era virgem, como se isso fosse um problema, um defeito ou um crime...
É preciso que reflitamos, sim, sobre que tipo de mensagem estamos deixando entrar em nossos lares. Já passa da hora em que devemos nos preocupar mais com o que Deus tem achado daquilo que temos achado dEle. E, então, vivermos mais pra Ele e por Ele do que pra nós.