segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Amanhã ou todo dia?

A vida vive e é porque ela vive, que ela vai acontecer. E ela acontece. De um jeito ou de outro, a gente estando preparado ou não, os dias sempre se sucederão e o que nos caberá é escolher qual o papel que nos quereremos: protagonistas das nossas escolhas ou coadjuvantes das circunstâncias que nos são impostas?
E é aí que está: qualquer escolha que fizermos tem um preço. E é natural que tenha. E é certo que quando a gente imagina que o que pode nos vir de bom parece valer a pena, a gente não se importa em pagar o preço que for. Só que, geralmente, a gente leva em conta aquele preço que a vida (naturalmente) cobra da gente.
O problema é que além desse preço da vida – que tem! –, há um preço que vem implícito naquilo que outras pessoas impõem à gente. Porque nem todo mundo – ou quase ninguém – convive bem com quem esses protagonistas que são os que ousam não esperar que a vida aconteça e, então, vão e fazem e se antecipam a essa ideia de destino e entendem que a vida é o que é e não o que teria que ser. E esses são aqueles a quem a vida não é questão de um dever que vem de antes, mas de um prazer que vem em cada agora. E eles vivem seu agora.
Mas como ficam os que acham que gozar o prazer do agora tira o valor do prazer que realmente importa? Os que pensam que vários prazeres servem mais para distrair e por isso é que nos atrapalham entender que a vida pode ser plena e ser inteira sem que tenhamos que viver sendo a metade de nós mesmo? Esses, para quem, a vida tem uma “promessa de felicidade perene” pra cada um de nós que formos bons e soubermos esperar e que, portanto, escolher o agora (porque “quem sabe faz a hora”), seria apostar no que é efêmero porque o agora é “muito durante para pouco depois”; logo esses que apostam (com fé) no amanhã porque acreditam que a vida é feita de propósitos e caminhos que nos levam ao que dure mais do que um clímax, mais do que a fração do que dura o instante de um simples tesão.
E daí a tensão entre os dois tipos de opinião: nos guardamos acreditando que a vida nos tem reservado o que há de especial... ou fazemos a vida acontecer?
Fazer a vida acontecer, nesse contexto, é sair em busca do que se quer e na sua exata medida do que se quer. É o que querer, quem quer, a quem se quer, sem que se importe se para o instante ou se para a vida toda que se quer. É fazer a vida acontecer porque se acredita que a única vida que tem é a vida que vive no instante em que se vive e que o amanhã não passa de uma possibilidade que também é uma verdade impossível de alcançar (porque nunca chega).
Mas falemos de nós: se eventualmente escolhermos a vida, até que ponto é justo que paguemos por não termos esperado por esse futuro que – a bem da verdade – jamais pensáramos que viria? Por exemplo: conheço casos de maridos que se envolveram com a cunhada antes de conhecerem a esposa. E é importante que o fato de terem conhecido a esposa não está, necessariamente ligado, ao fato de terem vivido algo com a que, depois de algum tempo, veio a ser a cunhada. Hoje, casados, são confessa e aparentemente felizes.
E é desse problema que proponho a reflexão final: e se a esposa achasse que o fato daquele homem conhecer o beijo – ou o sexo – da sua irmã fosse motivo suficiente pra que ela dissesse não a qualquer chance de ter aquele que viria a ser o seu marido? Ele não estaria pagando por ter feito algo por quem ele era naquele instante, pela vida que ele vivia naquele instante? Pela vida que nada tinha a ver com quem ele viria a querer – ou mesmo ser – algum tanto tempo depois? Se ele não sabia que viria a gostar dela, é certo condená-lo – evitá-lo – por ter gostado de alguém próximo dela? Privar, evitar uma história que seria agora em nome de uma fidelidade a algum tipo de memória?
E o mesmo se fossem duas amigas ou se, ao invés de mulheres, do outro lado da história envolvessem homens, irmãos ou amigos. Não importa o gênero ou o vínculo, importa é que sejam (são) gente sujeita às mesmas fraquezas e paixões que todos nós.
Afinal – e ao final –, devemos deixar de querer no agora e começar a esperar pelo amanhã ou largar a mão de sermos hipócritas e entender que somos corpos desejantes, desejosos e desejados e almas inquietas que querem descobrir e que querem desvendar? Corpos que na ânsia de acertar (e se aceitar) também podem errar e que depois de errados vão querer tentar de novo, começar, recomeçar, dar, receber e que até podem ser a vida toda só de um, mas que não pode ter problema se forem de dois ou de tantos e que nem importa quem eram os outros, mas sim que se querem e quando e quanto...