segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sexo e solidão

Bom. Sexo é bom e (quase) todo mundo gosta. E não é para menos. Há quem diga que mesmo quando é ruim é melhor do que sexo nenhum.
Acontece que apesar das transformações na sociedade, a relação das pessoas com o sexo muitas vezes se mostra conflituosa. Em que pese o sexo corresponder a uma necessidade quase instintual, as muitas regras acabam gerando outras muitas culpas que fazem com que o que deveria ser livre, seja tantas e tantas vezes mais e mais contido.
Mas mesmo assim, queremos sexo! Chego até a desconfiar que as grandes conquistas da humanidade só tiveram uma grande motivação: descolar “aquela” transa.  
Não estou dizendo que é verdade, mas não raro ouço quem diga que o sexo é a grande mola propulsora da sociedade (e nesse contexto não me refiro apenas ao sexo para fins de procriação). As pessoas gostam de se darem e se terem. E que bom que é assim.
Acontece que, invariavelmente, o sexo mexe com a ideia de afeto. E não apenas nas mulheres como os mais machistas podem afirmar. Uma vida sexual, sadia ou não, será responsável por uma mais alta ou mais baixa autoestima. E em tempos em que as relações entre as pessoas são cada vez mais rasas, o sexo vai se tornando em uma ânsia cada vez mais profunda. Resultado: confusão de sentimentos.
Talvez desde a queda do Império Romano, nunca se transou tanto. As “one night stand” estão cada vez mais comuns e o sexo acaba sendo um mecanismo de autopreenchimento (psicológica e não só fisicamente falando, é claro) e, consequentemente, de legitimação para a individualidade. A diversidade de experiências sexuais pode, incorretamente, sugerir uma indiferença com tudo o que não seja eu e, com isso, me fazer crer que fiz a melhor escolha quando optei, exclusivamente, por mim.
E aí está o grande problema. A mim tem me parecido que, não raro, por mais intenso que seja o orgasmo da transa eventual da noite anterior, o instante seguinte faz da pessoa ainda mais vazia e solitária naquilo que está mais recalcado no seu íntimo. Por mais que a pessoa se julgue permissiva e pense que usa o sexo apenas segundo a necessidade de seu corpo, sem necessidade de qualquer conexão emocional com o outro, o confronto consigo mesma tenderá a lhe levar a que se perceba ainda menos preenchida que no instante anterior. Sim, porque sexo, por si só, não passa de mais um ingrediente da próxima sensação de solidão. Talvez ele – o sexo – tenha sido buscado por motivos que mais aprisionam que libertam.
Haverá ainda aqueles que dizem que o sexo é essa necessidade premente e que o dar-se e se receber ajudam a centrar os instintos na medida em que (nele) somos tomados por uma fúria de nos possuirmos com uma vontade que se justifica no tesão e que o gozo é o corpo finalmente gritando a vida que urge viver. Mas o gozo cessa o instinto e encerrado o instinto passamos a ser só a razão descoberta de toda pulsão e posta a mercê de todas as culpas acumuladas pela moral que calamos. É justamente esse instante aquele em que caímos do alto a que nos eleva o auge do prazer mais forte até o buraco da mais fria e completa solidão.
Mas nem por isso deixaremos de provar... 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Frustração é vida. Se a vida vive, ela vive também.

A frustração é um sentimento interessante. É um dos poucos sentimentos de que a gente não pode culpar ninguém. A culpa é exclusivamente nossa, porque somos nós que as criamos a partir de uma construção que leva em conta todos os sonhos que projetamos realizados a partir da existência de alguém.
Mas quando eu falo em culpa, não é no sentido de punir alguém. Pelo contrário. A frustração tem que ser entendida como um sentimento que, se ruim, também é bom. A frustração é a maior prova de coragem de um indivíduo que mesmo não sabendo se haveria um “sim”, não usou temer o “não”. E, no mais, só se frustra quem se permitiu acreditar no sonho que lhe fez feliz.
Sonho em que se é feliz já é parte da felicidade. Não sabermos o amanhã não impede de deseja-lo e se, por qualquer razão, o amanhã for outro, que seja. Logo virão mais amanhãs. E com eles mais dias contentes que trarão sonhos contentes que acontecerão ou não. E depois disso? Mais amanhãs.
Enquanto isso, continuamos sendo a exata medida das nossas verdades e disposição. Nos mantemos postos ao alcance da intenção do que ou de quem pensamos, quisemos e até tentamos, mas que – pelo menos por enquanto – é apenas a ideia ousada e não querida que ainda vai custar sarar.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Somos todos Fabíola (e curtimos BBB).

Acredito que a essa altura a grande maioria já ouviu falar no caso extraconjugal de Fabíola com Léo e cujo flagrante fora filmado por um amigo do destemperado marido lá das Minas Gerais. A repercussão do caso me fez notar uma coisa: quando a maioria das pessoas diz que não gosta de Big Brother Brasil por tudo que, aparentemente, ele representa, elas estão mentindo.
Sim, porque na vida como ela se mostra hoje, somos todos Fabíolas e Leós a partir dos olhos alheios. O tempo inteiro julgamos e somos julgados. Expomos nossos pensamentos, nossas angústias, nossas alegrias. Se viajamos todos sabem e dão palpite sobre onde ir e onde não ir, o que faz ou o que comer. O tempo inteiro nós cuidamos de nos inserir nos assuntos privados dos outros. O tempo todo pessoas outras nos dão acesso aos assuntos que bem poderia ser apenas seus.
É isso: a vida do outro virou o espetáculo de todos. Vivemos em meio a um grande Reality Show em que somos votados para os paredões da falta de empatia, afinidade ou insucesso. E daí as pessoas votam se somos vencedores ou derrotados nessa vida que já não interessa só a um. Nas redes sociais, nos WhatsApps e afins, estamos o tempo inteiro assistindo a diferentes realidades e fazemos da vida do outro – e oferecemos para o outro – nosso papel mais conveniente e prol da necessária aprovação.
Daí a aparente indiferença da Fabíola. Na maior parte do tempo ela estava calada. Não chorava, não gritava, não pedia desculpas ou se afirmava livre. Apenas calada mexendo os cabelos. Ao comentar esse fato, concluí que esse ato talvez seja a amostra do quanto ela desprezava o próprio marido antes e quão despreza ainda mais agora. Sabe aquela coisa de: “está passando por isso e dando esse espetáculo porque quer”? Afinal, ele saiu investigando e, tendo sabido, ao invés de manter sua dignidade e entender que essas coisas acontecem (e muito) em todo o tempo e em todo lugar, arrumar suas malas e ir viver sua vida, preferiu fazer uma cena deplorável, na qual legava à esposa seu ódio e ao (ex)amigo apenas o seu desapontamento.
Quando vejo a reação da Fabíola e a reação do marido traído, concluo que ali ela tenha demonstrado todo o desprezo por aquele homem e por motivos que o vídeo não deixa saber, mas que estão lá. Só que ambos agiram de uma forma tal que parece nítido que a cada um tenha restado a sua própria indignidade: a que ele desprezou nela e a que ela deve ter desprezado nele.
Quanto ao Léo: o cara foi o que manteve a maior dignidade ao longo do tempo. Não falou nada, não se moveu do lugar. Encarou a situação dentro de suas possibilidades e, agora, certamente tende a colher os louros da sua fama repentina. É só se pensar que, a essa altura, mulheres de todos os lugares estão fazendo a pergunta que movimentou as redes sociais ao longo das últimas 48h: o que será que esse gordinho tem de tão bom? Logo ele, o amigo contra quem muitos se queixam por pensarem que por ser gordo era menos vistoso e, por isso, mais confiável.
Além disso, Léo passa a ser um símbolo da heterossexualidade. É inclusive por essa razão que suponho que sua esposa (que também é uma parte – oculta – da história) tenha lhe perdoado. Agora ela é casada com esse homem cujo apelo sexual é elevado às alturas na mesma proporção em que despertara a curiosidade. Estar com ele pode ser uma demonstração de força de quem não tem a intenção de deixar para que outras descubram o valor do que ela tem em casa.
Em tempo, é sim estarrecedor como alguém acha normal expor seus problemas num vídeo de YouTube como se tudo tivesse que ser compartilhado e como se a vingança fosse só o que importava. Há família, talvez filhos, uma sorte de pessoas afetadas por um ato infantil feito em represália contra algo que pode ser feio, mas que não é menos corriqueiro. O espetáculo do marido e a violência (física e verbal) desferida contra a esposa, fazem com que em todo o tempo ele seja o grande antagonista da história, porque tudo nele é ridículo e desnecessário. É só mais uma entre várias pessoas traídas e isso não lhe faz pior do que ninguém.
Agora, o cara que filmou e fez toda a entrevista... meu Deus!
Em todo o caso, quando for criticar o BBB ou quando for falar ou comentar a vida de alguém, lembre-se que quem está nas câmeras ainda tem o que ganhar, mas aqui do lado de fora, o que a gente mais faz é perder. E amanhã, a Fabíola de hoje pode, muito bem, ser você. 

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

É bom que as certezas acabem

É bom que algumas certezas acabem. As muitas certezas nos travam, impedem que cresçamos, aprendamos. É bom que elas nos deixem, porque seus fins nos deixam livres para que nos reaprendamos e cheguemos a ser aquele que realmente podemos ser, sem o compromisso de continuar sendo aquele que nos acostumamos, mas que não satisfaz.
Claro que o costume é parte importante da nossa vida. À bem da verdade, são poucos os que não se acomodam nas escolhas pretéritas e que, justamente por isso, ousam nas atitudes que pautarão seu futuro. E, quando tentam, fazem para acertar. Sabem da possibilidade do erro, mas mesmo assim se permitem romper com o ontem e começar vários novos amanhãs.
Nosso apego ao caminho percorrido é tantas vezes tão forte que, mesmo não gostando da estrada, continuamos a seguir rumo ao desespero de continuarmos sendo tudo o que não nos agrada.
E por quê? Qual é o nosso compromisso com a insatisfação e com as diferenças que mais aviltam do que completam? Por que continuar esmurrando a fina ponta cortante que machuca e não deixa sarar?
Porque nos acostumamos com a dor. Tudo o que é familiar parece mais seguro. Até o que não faz bem. Porque a dor de hoje uma hora passa e pode ser que dê medo ser feliz daqui a pouco e daí passe a se correr o risco de sofrer de novo outra dor. Então nos bastamos naquilo que nos fez e fazemos de conta que acreditamos que uma hora vai melhorar, mesmo sabendo que no mais das vezes nunca melhora.
Outra possibilidade é a nossa irresignação frente à nossa ausência de controle. Onde já se viu nos conformarmos com as circunstâncias terem mais poder que nós. Devemos domá-las, moldá-las, usá-las ao favor de nossas vontades e jamais admitirmos que as coisas não sejam como queremos se nos é dado condição de lutar.
Nosso grande paradoxo está em nos sabermos insatisfeitos, mas mesmo assim gastarmos nossa energia para nos mantermos no mesmo cenário que enfastia, que suga e que mói e isso só para mostrarmos e provarmos que a palavra final é nossa, que a decisão não nos é imposta nem sugerida, mas só por nós determinada ainda que seja apenas para no final reconhecer o que é óbvio desde sempre: quem luta para continuar perdendo jamais poderá almejar vencer.  

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Adeus.

Está aí. Pra que ficar na angústia de não saber a hora? Ou então, ficar tudo tão pior que eu anseie a hora. Escolhi escolher a hora do meu fim. E pensando bem, qual o propósito de tudo isso? Amar mais amores que não durarão? Viver mais romances em que alguém se machuca? Colecionar mais paixões que, no fim, passam e às vezes nem saudade deixam (apesar de sobrar ressentimento)?
Tentei me dar, não me quiseram. Quando tentaram me dar, fui eu que não quis. Talvez minha hora tenha sido errada. Talvez meu momento tenha passado ou mesmo não chegou. Penso que a minha hora aqui é extra de um ganho que nunca vem. Então eu vou. Vou embora desse mundo a que só encho e que só me enche. Vou-me daqui para onde talvez eu não seja eu, nem mais ninguém. Seja só a hipótese do que não houve, o lamento de quem não sente, a última chance de quem se calou.
Só queria olhos mais gentis, lábios mais gentis, mãos mais gentis, abraços mais gentis. Gente que me visse como a gente que lhes queria diferente. Alguém que fosse mais do que aquilo que qualquer um pudesse ser e que, então, entendessem que sempre estive ali, muitas vezes não sabendo gostar como podia, outras tantas não podendo gostar como sabia. Mas ali. Sempre ali.
O problema é que esse “ali” parecia um único canto em que só cabia eu. Toda vez que olhei em volta só via vazio. E se alguém olhasse para mim não era a mim que via, era através de mim, era como se eu fosse o espelho cuja presença era vil toda vez que não mostrava aquilo que aqueles olhos queriam ver.
Mas agora não precisa mais. Talvez a minha presença fosse tanta que a minha ausência não fosse nada. Mas até ausente me pus só pra descobrir que ninguém notou. Ou se notou, foi só para não se importar.
Se vou deixar saudade? Nem mesmo remorso.
Deve ser porque o resto do mundo anda pra frente enquanto ando em volta da minha própria história, tão atento ao que já foi que esqueci que todo o mundo continua sendo, menos eu. Mas quem disse que ainda quero? Que ainda espero? Que ainda pretendo? Aliás, quanto a pretender, só conjugo em inglês (e nessa mesma grafia).
É isso. Punirei o mundo e não a mim. A mim só anteciparei o que desde sempre já seria. E se não sei, nem saberei, agora, ao mesmo tempo – e desde já –, imagino o instante em que, já em paz, terei uma parte do mundo ocupada de buscar na memória os momentos em que lhes fui bom sem que tenham sido comigo, em que lhes fiz bem mesmo me legando indiferenças (que fazem mal). Sei que em algum momento, alguém haverá de levantar a voz para cobrar a minha desventura de ter sido cercado de vazios que vinham da insolência de todos aqueles que me requereram sem me prestar qualquer reciprocidade, que me buscaram sem que quisessem ser achados e que à contemplação de quem fui – e jaz! –, olharão os relógios para saber se já fizeram boa figura e já é tempo de ir.
Vão. Sempre foram. Continuem indo... adeus! 

Ouça o texto aqui.