segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Escolher não é pecar

Em dias de pregação de tolerância e respeito às individualidades, não é difícil se perceber que o discurso encampa uma facilidade que a realidade desmente. Aceita-se o outro até onde aquilo que ele faz não nos atinge de algum modo (ainda que indiretamente) e, ofendidos que viemos a ser nas nossas particularidades, logo nos apressamos a apontar-lhe erros que, ao refletirmos serenamente, logo concluímos que ele não tem.
Aliás, me parece que nisso também está amadurecer. Experenciar aquilo que se nos vem, como um caminho pra entendermos que sempre há o que aprender sobre nós mesmos. Muitas vezes pelo outro.
Mas o assunto é escolha. E escolher é viver. E viver, por sua vez, também é escolher. Sempre (e quero crer que não há dúvida que não há outra forma de viver e que até não escolher é uma escolha). Escolher, por sua vez, é perder algo sempre (ao menos matematicamente, na medida em que se há o que se escolher, opta-se pelo um em detrimento de todos outros). Mas quando se escolhe em busca do acerto, com base naquilo que quer, na fé que tem, na esperança e no que acredita, escolher vira apenas exercício de ser dono das circunstâncias que nos fazem livres para sermos responsáveis pela nossa própria forma de ser.
E é, então, que aquele que diz sim ou não, que faz ou evita, que busca ou desiste, cala ou diz, não se faz mais ou menos certo quando escolhe um ou outro: faz-se apenas a si. A quem é e quem pretende ser. Logo, não é dado que lhe julguemos porque nossa expectativa é frustrada diante da escolha que apenas ele poderia fazer por si, porque só quem escolhe o que será a sua vida é que sabe o quanto lhe urge viver. Só quem sente na pele é quem sabe. Só ele é que pode dizer. Mas não precisa.
Escolher é ato sublime. E não é fácil. Muitas vezes dói. Em outras tantas, causa dor (e muitas vezes hesitamos a escolha que queremos por medo da dor que sabemos que causaremos). Quem escolhe merece respeito porque escolheu viver. Escolhe ser quem é e quem se faz e não quem é feito pelo mundo que lhe molde. Escolhe ser quem vive ao invés de ser quem é vivido. Escolheu não ser apenas quem se contenta, mas quem sabe o que quer e não se aquieta antes que alcance. O resto aceita...

sábado, 11 de fevereiro de 2017

No dia do dia dos meus anos...

No dia do dia dos meus anos não havia festa, nem o que festejar 
Cerraram-se sonhos e planos de que já nem me é dado falar.
No dia do dia dos meus anos o que sobrava era o pranto seco que não sabia rolar.

No dia do dia dos meus anos celebravam-se derrotas e desenganos... mil enganos. 
Era a história mais risonha de uma vida medonha de quem não sabe gostar. 
No dia do dia dos meus anos eu não via a hora do dia acabar.

No dia do dia dos meus anos o sol nasceu apagado e a lua surgiu sem luz
Era um dia que não tinha razão de brilhar
No dia do dia dos meus anos macerados éramos o sol, eu e o luar.

No dia do dia dos meus anos havia fúria presente em mim que me queria ausente 
Nada do que havia me fazia contente
Justo no dia do dia dos meus anos descobri que pensava gostar um gostar diferente. 

No dia do dia dos meus anos somei tantos que já não quis nenhum.
O enfado vinha do fado de saber que depois de tantos não gostava de nenhum. 

No dia do dia dos meus anos o que era não foi. E a história aqui se encerra.


02/2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

É tudo instante (ou o porquê de o futuro não ser relevante)

Carpe diem, quam minimum credula postero! Eu não sei o que se passava na vida de Horácio quando ele lançou esse “aproveite o dia e confie o mínimo no amanhã”, mas um pouco de imaginação e a gente traz essa máxima pra nossa própria vida.
O carpe diem já é lugar dos mais comuns. Filosofia presente na boca de muita gente. O mesmo tanto de gente que teme o futuro e perde o presente.
Carpe diem porque a vida é feita de instantes, de momentos. É vivida na hora que acontece e tudo o que se acha que o amanhã pode ser amanhã, não passa de ilusão, talvez um tipo de mentira que se conta a si mesmo ou até um pretexto. É escudo que se quer protegendo de doer. Pensamos tanto no que pode ser que ele até acaba sendo, mas mais porque nos guiamos para ser ou ter aquilo que não queremos. E perdemos. Aliás, é justamente por não cuidarmos do agora e fantasiarmos tanto o antes e o amanhã que nós acabamos mais perdendo do que ganhando na vida.  Sem contar as várias vezes que a gente desiste de ganhar aquilo que dá medo de perder.
Carpe diem porque ser feliz, amar e querer viver é tudo questão de agora. Essa página não tem a pretensão de ser professoral. Pelo contrário. Mas eu vou me permitir falar daquele que acho o filósofo mais legal: Baruch Spinoza. E, sobre ele, apenas uma simples ideia: a felicidade vem do que te afeta no instante em que acontece e te faz se sentir mais cheio de vida. Ser feliz é sentir a vida ganhando vontade de viver na hora em que acontece o que te faz querer viver e continuar vivendo. Felicidade é presente. Não está no passado e nem no amanhã, mas no agora.
Mais um filósofo pra somarmos a Spinoza e encerrarmos por aqui? Agostinho de Hipona. Nele, todo o tempo é presente. A lembrança é quando eu trago pro agora – portanto, para o presente – a memória que eu quero; ao mesmo tempo, o futuro é quando eu vivo, no presente, a expectativa do que não é (que pode ser esperança ou desesperança). Mas enquanto a esperança enche de vida e faz querer viver, a desesperança logo entristece e faz desistir.
Toda felicidade, toda paixão, toda gratidão se deve ao momento. Geralmente é comum nos assustarmos com a paixão (nossa e por nós) porque tendemos a não entender de onde saiu, se é de verdade ou mero exagero, mas a verdade é que quando alguém diz que ama ou que sente a paixão ou o que seja que sente, não precisa ser (e de ordinário não é) uma proposta de futuro ou mesmo esse algum exagero. Ama porque o encontro é favorável, porque aquele dia juntos é bom, aquele toque com que se tocam é bom, a risada é boa ou aquela companhia pra uma simples caminhada. É porque quando se encontram se afetam um ao outro e se afetam positivamente. Se querem bem e fazem bem. Se fazem felizes, cheios, plenos e não querem que acabe. Amam a vida que se lhes soma naquele momento e amam o momento. E daí também amam quem lhes proporciona a experiência de viverem aquele momento ainda mais vivos de contentamento.
Eu tinha dito que chegava de filósofos, mas cabe mais um: Nietzsche vai nos ensinar o eterno retorno. Aquele instante que fez feliz e que de lembrar faz sorrir e faz gostar é aquele instante que a gente não quer que acabe, mas que, quando acaba, a gente se pega pronto pra voltar. E mesmo isso não é apostar no passado. Não se trata do passado. Mas do agora enquanto o único tempo que se tem. No fim, é dizer dane-se aos medos do futuro porque entendeu que tudo o que a vida deu é presente.
“Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"[1]




[1] Nietzsche – A Gaia ciência

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

São circunstâncias...

Nem sempre o amanhã explica ou justifica o ontem. Muitas vezes apenas o ontem explica o ontem. Apenas o ontem explica aquela falta de sorriso, de entusiasmo, de alegria... de vida. São faltas que muitas vezes surgem enquanto reflexos de um instante em que o mundo está nublado, em que o futuro (as próximas horas) está sombrio e por mais que você queira dividir com quem te ajude, calar dá menos medo do que se revelar.
Nem sempre o amanhã explica, mas é ele quem paga. Ele paga quando vira hoje e descobre o preço que o ontem acumulou. E não é dizer que somos fiadores de nós mesmos. Na roleta da vida somos os devedores: nossos e dos outros. Porque se é verdade que “a gente leva da vida a vida que a gente leva”, no mais das vezes é a vida que leva da gente a vida que a gente teve (quando teve). E é assim porque temos medo. Porque somos reticentes. Porque queremos entender antes de fazer. Queremos saber antes de viver. Queremos ter antes do ceder. E, então, devemos...
Nem sempre o amanhã justifica, mas sempre temos nossas razões (muito embora elas nem sempre tenham razão). Mas a vida é dessas engrenagens que funcionam quando se ligam em outras e juntas vão se completando numa ciranda que se quer gostosa, mas que não se livra de ser dolorosa. E ninguém quer dor. Onde há espaço pra descontentamento numa vida que se entende saber o ritmo certo de se caminhar com o próprio andor? Onde há espaço para recomeços onde o novo começo novo parece tão facilitado e tão mais coerente pra quem só é preso a si mesmo por falta de outra opção?
Nem sempre o amanhã justifica, mas quando ele vira hoje dói não poder desfazer os vários “ontem”. Mas o ontem foi como foi e se ele é imperdoável (e suficiente para que não haja perdão) é porque a razão não tem importância e é quando corremos o risco de só gostar de quem acerta. Eis que vem a impressão de que crescer é aprender que ser gostado é o que retorna – não em reciprocidade, mas sim na verdade de quem vê o outro como ele é e não como gostaria que ele fosse.
Somos frutos das nossas circunstâncias tanto quanto aquilo que fazemos ou deixamos de fazer nem sempre é resultado de quem somos, mas muitas vezes de quem estamos. E se não estivemos bem, não quer dizer que logo não estaremos e, então, faremos bem e seremos melhores. Afinal, é o que importa: que a balança pese a favor e que mostre que se não é perfeito não é por falta de vontade de acreditar que é dono de seu próprio valor.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Tempo de fazer feliz

Uma das minhas preocupações de ano novo (e vejam a que ponto cheguei: se outrora fazia resoluções de ano novo, pego-me, agora, em meio a preocupações de ano novo) é com o excesso de mau humor e de rancor que parecem estar tomando conta de grande parte das pessoas. Se é que posso tomar as redes sociais como termômetro para uma amostra “meio generalizada” da sociedade, apontaria indivíduos cada vez mais armados uns contra os outros, prontos para dispararem suas raivas, seus ódios, descarregarem toda a sua frustração contra quem quer que seja. E não consigo acreditar que façam isso por prazer. Enxergo mais uma necessidade, uma compulsão, do que uma liberalidade de quem pensa “hoje é dia de fazer mal”. Imersos na frustração que muitas vezes nem sabem que têm, detratam e distratam o outro porque só na tentativa de diminuir um é que conseguem a fantasia de se sentirem relevantes uma vez que aumentados na condição de nada do nada que são.
Agora, se por um lado quero viver essa fé de que esse mal (da detração e do distrato) é um impulso motivado por uma frustração recalcada e, portanto, a maioria faz sem que tenham, de fato, escolhido fazer, eu acredito que fazer o bem pode, sim, ser questão de escolha. E não vejo razão para não sê-lo e para que não seja. E daí que o que começa como uma preocupação pode, muito bem, fazer-se fonte de inspiração: e se o tempo do ano novo se fizesse tempo de um novo jeito de ser? E se ao invés de sermos duros e ressentidos, houvéssemos uns aos outros com mais carinho e gratidão? Se ao invés de mágoa e rancor, compreensão e amor? Não descuido, mas o cuidado de quem presta atenção no que há e em quem vem.
É tudo uma questão de sermos mais atentos com a vida que nos é dada a viver. E com aqueles que vivem conosco – e a gente com eles – na vida que nos é dada a viver.
Ora, certamente nos há aqueles que gostamos e que nos gostam e se há os que gostamos, são esses que queremos felizes. Pois façamo-los felizes. É tempo de construirmos dias felizes, lutarmos bravamente contra a tristeza uns dos outros, nos ocuparmos de quem parece abatido e, tantas vezes só precisa de um sorriso que lhe diga “conta comigo; estou aqui”. Isso é construir felicidade em períodos de tristeza. E temos esse poder, essa... possiblidade.
Por exemplo: que tal fazer alguém feliz no meio de uma tarde em que não espera aquela ligação? Sim, porque mensagens em aplicativos qualquer um manda, mas um “só queria ouvir tua voz pra saber se estava tudo bem e te fazer saber que eu te quero bem”, não é qualquer um que tem. É uma questão de mostrar que o mundo até pode ser grande, mas o teu se basta na presença feliz de quem você quer bem e não esconder e nem ter medo do que vem disso.
Que tal um convite para um programa, sentarem num bar, restaurante, conversarem, verem um filme, ouvirem música? De repente saem os dois pra caminhar e, então, enquanto conversam, percebem a lua, param para olhar a lua, um do lado do outro, sorriem um para o outro, calam-se, dão-se as mãos, sentem-se, voltam a andar, olham-se, um dos dois olha tímido para o chão e daí se deixarem levar pelo momento que por ser bonito lhes faz... felizes?
Gente feliz não tem tempo de se incomodar se alguém escreve o que não gosta ou se alguém gosta do que detesta. Gente feliz que vive no mundo de carne e osso não se incomoda com o que o outro faz no mundo virtual (e nem no real). Gente feliz que vive, vive pra valer. E sente e goza e gosta e ri! Não vegeta em cima de uma cama, trancado num quarto, esperando que percebam que está vivo quando falta bem pouco pra terminar de morrer.
Mas gente feliz não vive sozinho. Não porque não dê, mas porque ser feliz também é questão de fazer.
Vamos sair, procurar quem e vamos... vamos viver!



Feliz 2017!!!

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Saudade faz tempo na gente

Se saudade é expressão que cujo sentido de "dor de ausência" só existe em português, também é sentimento que existe em toda pessoa que viveu o prazer, o amor, a satisfação, o bom instante, a melhor companhia, o riso mais gostoso ou o momento que se quer pra sempre. Sim, pra sempre. Saudade não é verbo, mas é presente. Mas não do tipo que se ganha e fica contente, mas presente do tipo que é tempo na gente. A saudade eterniza o ontem no instante vivente.
Sente-se saudade do que foi bom. Sente-se saudade junto da esperança – umas vezes mínima, outras vezes tanta – de que nada do que foi não será. Sente-se saudade acompanhada de toda a lembrança do que a vida gozou e cuja simples lembrança tem poder de fazer regozijar.
A Saudade faz tempo na gente porque ela conta os dias de felicidade e busca mais dias de ser feliz. Faz tempo na gente porque presentifica a memória e a esperança. Saudade é tempo porque torna em agora tudo o que foi e porque torna em agora o que ainda quer que seja. A saudade viceja aquilo que da vida valeu a pena.
Porque a saudade é sentimento desses que, se chega a machucar, também explica aquilo de que gosta e do que quer mais.
Porque saudade é trazer todo o passado pra colorir o presente que se quer sempre vivo. Não pra fazer um amanhã, mas pra que todo dia seja o hoje.
Porque saudade é o bem querer que se repete depois de se viver o que bem quisto e que se revive como ensaio do que se espera tornar a viver. A saudade chama o que a saudade lembra porque a saudade também goza do que gosta.
É claro que o novo vem e a vida vive o novo também. É claro que nem sempre o amanhã volta ou mesmo que volte, nem sempre chega como na memória que faz bem. Entretanto, sentir saudade do que foi bom é valorar para muito na certeza de que o que tem é, pra si, um bem e, guardar em si esse bem, é dizer pra si mesmo que a vida que foi vivida não é pior que a vida de ninguém.
A Saudade faz tempo na gente até o tempo chegar. E não tem nada disso de deixar a saudade pra lá. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Às vezes falamos tanto da dor que nos esquecemos do amor

O mundo está cheio de pessoas que não conseguem ficar caladas. Pessoas que acreditam que precisam fazer o outro saber o que pensam e o que sentem em relação a ele. Mas o mérito aqui não é sobre os bons sentimentos que essas pessoas sentem em relação ao outro. É que há pessoas que só se sentem bem quando podem ter certeza que fizeram sua parte para que o outro se sinta, ao menos um pouco, mal.
É como se houvesse algum tipo de mecanismo de compensação de frustrações. Na medida em que se descobrem descontentes, alimentam tal ressentimento em si que não é possível aguardar o melhor momento – ou mesmo deixar passar o momento – e deixar que a vida viva. Elas precisam fazer saber que não estão dispostas a sofrer caladas e que vão, sim, fustigar e vão, sim, tentar fazer doer.
O que se nota é que as pessoas estão cada vez mais armadas umas contra as outras. Não importa os laços que as unam, diante de um estado de contrariedade há sempre uma demonstração de incapacidade de que a primeira palavra seja de afeto, mas que está, isso sim, mais perto de uma palavra cujo objetivo se é causar, no mínimo, um estágio de dor.
Quando se observa esse relacionamento já adoecido pelas dores sentidas em excesso e os amores vividos em falta (e desconfiança), tem-se a impressão que nessa guerra que parece que tem sido o viver, querem a satisfação de não serem os únicos caídos, a satisfação de não serem os únicos que se entristecem, que não se incomodam, que não sabem ser indiferentes a tudo o mais que lhe pressuponha chateação. E se julgam que o outro o é – principalmente em relação a si – atacam. E insistem com o ataque porque precisam ter a certeza que tentaram de tudo para atingir. Para afetar.
Como efeito, vê-se um dissenso cada vez mais evidente entre os que sentem a dor de não se entenderem. O resultado está em pessoas que partem e ainda que não saibam se voltarão, mesmo assim mal se despedem; pessoas que gostam, mas que não se declaram; pessoas que querem e até podem, mas que não pedem. Pessoas que por acharem que sempre existe o amanhã, esquecem que só têm o agora e que, quanto ao agora, não se sabe até quando.
As boas palavras, os bons gestos, os bons sentimentos. As boas declarações, os incentivos, os bem-quereres. A gratidão, a reciprocidade, a empatia. Esses não deveriam ser calados. Mas tantas vezes parecem ser os mais constrangidos. Ao mesmo tempo, poucos parecem constrangidos em se afirmarem ou se mostrarem irritados, revoltados, irascíveis.
Por outro lado, são tantos os que se enchem de escrúpulos e fazem-se incapazes de serem bons, de serem amáveis e amantes dos que amam e querem bem. E daí perdem a chance de saber que a melhor parte da vida é a que você vive em paz, vive em bons afetos, vive gostando de gostar e aprendendo a delícia de ser gostado. Que a vida segue enquanto vive e que se vive deve se fazer o melhor. Que o que se viveu, foi vivido e não pauta o futuro. Que o ontem não dita nada do que será, que o amanhã não muda nada do que foi e que só o agora tem alguma força de fazer viver valer a pena e de fazer a vida mudar.
Ou não é melhor o amor ao invés da dor? Ou não é melhor o perdão a quem ama – se ama – à constante acusação porque, num dia triste, um dia errou?

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A vida é do único jeito que poderia ser

Uma das principais violências que cometemos contra nós mesmos é julgarmos, lamentarmos ou condenarmos as nossas atitudes passadas.
Não é raro se ouvir alguém dizer que gostaria de voltar ao tempo em que era mais jovem, mas tendo a cabeça que “tem hoje”, como se movido pela esperança de que tendo uma segunda chance, refaria suas escolhas e acertaria tudo o que julga tenha errado.
Aliás, talvez muitos dos descontentamentos que se acumulam nas vidas carregadas de tristezas se devam, justamente, a essa mania inútil de fantasiar uma vida diferente a partir de escolhas diferentes. Angústias que vêm de insistir em desejar outra vida ao invés de viver a vida que agora está. Afinal, toda vida ideal vai parecer melhor do que a vida real.
Quando afirmo que isso se constitui em uma grande violência que fazemos contra nós mesmos, é porque fazer isso é sermos injustos para conosco. Analisar o passado sob as circunstâncias do presente (sob sua realidade) sabendo o que deu certo e o que deu errado é cruel com o “eu” que quando decidiu era apenas resultado de seus afetos mais diretos. E afetos esses que, hoje, são apenas memórias.
Por mais que consigamos ter claro quais foram aqueles afetos que nos levaram a escolher (um caminho ou outro, essa ou aquela, ir ou ficar), pensar o sentimento é diferente de senti-lo. A decisão é tomada sob o impulso do sentimento, sob o impulso da vontade de fazer dar certo o que se quer. Ou seja, pelo que pulsa e não pelo que é memória do que um dia pulsou e agora não causa qualquer apelo.
Então é necessário que tenhamos coragem de entender que a vida é da única maneira que ela poderia ter sido. E, a partir disso, que tenhamos coragem de perdoar. Perdoarmos a nós mesmos, mas também aos outros – àqueles a quem conveniente e comodamente buscamos imputar certas culpas pelos nossos descontentamentos com a vida que levamos.
Não adianta olhar pra trás e pensar que poderíamos ter feito diferente. Tudo o que se fez, se fez da única maneira que poderia ter feito e cada decisão que se tomou era a única que decisão que poderia se ter tomado. Pensar que poderia ser de outro jeito é apenas se iludir pra fazer doer; é tentar acreditar que há uma força que rege e que desenha diferentes possibilidades, quando, na verdade, a vida é vivida na exata forma do que somos (é partir do que gostamos, esperamos, desejamos...).   
E é então que falo com quem me lê: todos os caminhos que você trilhasse te levariam para o mesmo ponto a que você chegou e isso pelo simples fato de que a tua vida se fez – e se faz – da única forma que poderia se fazer. Nunca te houve duas formas de viver. E daí que sofrer por tudo o que não fez ou pelo que decidiu ou deixou de decidir é mera distração que apenas te afasta do mais importante: a vida não vai parar de viver enquanto você se lamenta. 

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Poema da memória do que foi feliz (ou o tempo que não vai voltar...)

Conto de um tempo que não contava
Pensava que memória não doía
Pensava que memória só passava.

Conto de um tempo de alegria
De um dia em que a vida me agradava
De um dia em que eu vivia o que eu queria.

Conto de um tempo que passa sem que fosse
Não vira cinza. Renasce enquanto espero.
Conto de um tempo que não volta nem que seja pra ver se dessa vez não erro.

Tempo de um tempo que não dá mais tempo...

Quem me dera o tempo contasse ao contrário
E então eu vivesse o que não foi,
Mas que um dia eu quis que tivesse sido.

Quis as mãozinhas, os pezinhos e o cheiro de shampoo...
A casa de varanda e o almoço de domingo
A briga por causa da conta do fim do mês.

Lembro que a canção dela EU SEI qual era
E que até de novela a gente gostou
Mas que de tudo o melhor era ela.

Já faz tanto tempo que lembro há tanto tempo
De como era bom esperar o melhor dia chegar
De como foi ontem - sem ser - todo abraço que lembro só pra lembrança doer.

Já faz tanto tempo que lembro há tanto tempo
De como é bom saber que ao menos houve esse tempo
E de como não é bom apenas saber que foi bom enquanto durou.


*ouça o poema aqui.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

A dor de ser narciso (e a necessidade de se descolar do ser)

Gostar de si mesmo e dos resultados de si e de ser.
O que à primeira vista parece o ideal de uma vida bem sucedida, não raro se mostra razão de angústia. Nem sempre estamos preparados para estarmos bem.
Um olhar mais atento e percebemos um aspecto bastante particular e que presente na maioria das pessoas: lidamos muito melhor com a falta de satisfação. Tanto com a nossa insatisfação quanto com a insatisfação dos outros. E esse é o ponto. A não ser que sejamos aquela classe egoísta que não cuida do que não seja de si mesmo, o nosso “estar bem”, invariavelmente, depende de ser confrontado com o do outro. E é quando pode doer.
O bom narciso é aquele que não quer ser feliz sozinho. Ele até pode querer ser mais feliz, mas não sozinho. Isso porque, em razão de seu narcisismo, carrega em si a vocação de guiar os seus em direção de uma vida sempre melhor. Logo, a desventura experimentada por estes lhe dói na exata medida que aponta a sua inaptidão para o mister que se impôs e é quando ele decide que não pode ser feliz enquanto os seus são tristes. E é quando o que podia doer, dói.
O narcisista é sempre duro consigo mesmo. Tiraniza-se na medida em que quer ter o controle de tudo quanto ele depende para estar bem e na medida em que vai sendo dominado pelas expectativas do êxito que deveria ser inevitável, mas que falta, vai sendo ele próprio o palco de toda sua desolação. E, de certa maneira, tudo o que lhe parece certo sobre os seus dias é que ele sofra: afinal, por que deixaria de sofrer se os outros que ele gosta ainda sofrem?
O sofrimento do outro é o espelho que reflete o narciso que só consegue achar bonito o que lhe leva a enxergar a si. Mesmo na dor do outro não tende a ver outro que não seja ele mesmo sofrendo a incapacidade que não é sua e que só há em si.
É aí que colocar sobre si o peso de uma felicidade que não é só sua e de um sucesso que não tenha a ver com o esforço que é seu é de uma violência consigo que só se explica na percepção de quem entende que merece sofrer mais justamente por ser quem é. Quem se julga especial não pode gozar um sofrimento qualquer.
Mas o querer o bem do outro não pode ser visto como uma missão, mas como humanidade. Tampouco, alguém tem o direito de arvorar a si a condição de fazer o ser de alguém. Se a empatia é questão amor e humildade, não se pode querer o bem do outro como um meio cujo fim seja a satisfação desejada pelo narciso desejante.
Em tudo isso, tem-se que a hipótese de uma vida em que se goste de si e do que se fez com ela é possível e necessária, mas ao mesmo tempo em que se é imperiosa a constante reflexão sobre o ser na essência exata de si – e não na do outro. A felicidade do outro é responsabilidade dele e de suas escolhas e se ele é um espelho para a felicidade de alguém – e até do narciso que se projeta nele (para ver a si) – que seja apenas no confronto em que se mostra que a vida vive e segue independente de você escolher viver e ser feliz. Mas que então é melhor escolher e ser... (sendo).


*pintura: "Eco e Narciso - John William Waterhouse - óleo sobre tela - 236 cm X 107 cm - 1903 ( Wlaker Art Gallery - Liverpool, Inglaterra)

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Vazio

Não é um sentimento incomum se sentir cheio de vazios. Aquela sensação de falta que vai além do que se deseja e que é apesar do que se deseja. Aquela sensação de que tudo é enfado e de que vai sucumbir mais dia, menos dia.
Não é incomum se sentir sendo o peso e o freio do próprio seguir em frente e isso enquanto a vida vai. E ela vai! Segue implacável, indiferente, dura. Uma.
Vazio de querer em que a culpa é de tudo o que perdeu. Vazio de ter em que a culpa é de tudo o que quis. Vazio de ser em que a culpa é de tudo o que é. E enquanto isso a vida vai. E ela vai! Segue cruel, solitária e muda. Longa.
Tantos dias que não se precisavam tantos e nem ser. De quantos adeuses são feitos os arrependimentos? Que perdão é esse capaz de recomeçar? Que chegada é essa que faz feliz? E enquanto não se descobre a vida vai. E ela vai! Segue triste, inevitável e tensa. Lenta.
É como se nem mesmo sob o Sol houvesse calor ou luz. Tudo é o negror de uma escuridão gélida tomada de uma névoa por onde circulam lembranças desbotadas e, também por isso, tristes. O silêncio de em volta esvazia a existência que um dia se pretendera grata, se imaginara boa, se quisera toda sorte do que só se provou mera quimera.
Não há música que toque a alma e nem que venha dela. Todo som range como se arrastasse grilhões que também pesam e também seguram e também impedem. Impedem o riso, o sorriso, o desejo, o superar-se e sentir-se pleno de tudo que não seja o nada que vem sendo. Vivendo.
Nem sempre é uma questão de não se querer sorrir, mas de não conseguir. É se sentir o principal responsável por toda a indiferença que se acumula e por toda solidão que se provoca. Mas por que se provoca? – se é que se provoca.
É que todo o espaço a ser preenchido está ocupado, apesar de que não há ninguém. Sobram histórias que ninguém mais lembra ou ninguém mais sabe, ou talvez ninguém viveu, só quis, só sonhou, só pensou, só perdeu.
Tudo é um silêncio que grita e ensurdece e incomoda e faz sentir tão cansado de si mesmo e tão miseravelmente dono das próprias circunstâncias. Faz da existência a vileza de quem não se basta no que não sabe de si além da vida que cai, que volta, que se revolta.
Tudo é silêncio, é escuro, é findo, é a certeza de que não será.
...
Mas as noites não começam à mesma hora. 

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A beleza da mulher é ela... e vai muito além do que é bonito

É algo que já vem me incomodando há algum tempo, mas que abordar não é tão simples quanto parece. Até pela dificuldade de encontrar o tom certo e não incorrer no risco de soar piegas ou excessivamente condescendente, como se fosse só mais um desses que quer parecer melhor, diferente ou mais bonzinho do que é.
Mas é certo que há algum tempo venho pensando nisso e assistir a um trecho de um discurso da Michelle Obama fez nascer em mim a vontade de rascunhar algumas considerações a respeito do jeito muitas vezes mesquinho (pra não dizer baixo ou vil) com que os homens se acostumaram a tratar as mulheres.
Resumidamente, nesse vídeo ela falava da experiência – comum a tantas mulheres – de serem resumidas a um corpo a ser observado, como se sua primeira missão na Terra (e para alguns a única) fosse servir aos olhos dos homens e ao seu jeito bruto de muitas vezes se fazer notar. E em tempos de discursos de afirmação e empoderamento feminino, é imprescindível que se combata esse tipo de visão.
Aliás, é interessante como alguns homens não conseguem deixar de se incomodar com o fato de cada vez mais direitos serem conferidos às mulheres, direitos que antes julgavam serem só seus e, pior para eles, terem que lidar com o fato de que a maioria das mulheres têm se mostrado melhor e mais competente do que eles em muito do que fazem. E então se apressam a desmerecer, desprestigiar, menoscabar os movimentos que clamam e lutam pelo recrudescimento dessas conquistas.
Mas não cabe que me saia do foco. Meu mérito aqui é considerar o quanto os homens ainda parecem não ter entendido que as mulheres conquistaram o direito de terem sua vida, seus gostos, suas vontades, suas escolhas e direções e que elas não se bastam mais no papel de coadjuvantes de um homem altivo, que age como verdadeiro senhor e a quem elas servem quase gratas pelo desposar que lhes legara uma posição no mundo e cuja recompensa é um pequeno mimo, um elogio, um galanteio, um corte de renda, uma rosa ou um bombom.
Não quer dizer que, necessariamente, as mulheres de hoje não apreciem gestos corteses, pequenas gentilezas ou até certos galanteios e elogios, mas quer dizer, isso sim, que as mulheres não abrem mão do respeito à sua individualidade e, principalmente, à sua singularidade. E me parece que é essa – a singularidade – é que deveria ser vista, apreciada e elogiada.
Tenho a impressão que por mais agradável que seja a beleza de uma mulher, reduzi-la à essa sua beleza é limita-la quando ela é muito mais. Há mulheres que além de estaticamente lindas (seja dentro dos padrões de cada época e lugar, seja dentro dos padrões pessoais de cada um) são ainda mais interessantes e tenho pra mim que, mais do que o elogio à sua beleza, preferirão ser vistas pelo que representam na vida que vivem, pelas conquistas que fazem a partir do seu esforço, das suas lutas, pela humanidade que lhes habita e lhes singulariza naquilo que elas foram se formando na assimilação das experiências que lhes transformaram em quem são. Esse reconhecimento talvez faça ainda mais sentido e as faça ainda mais feliz.
Se é verdade que a beleza tem a sua importância, não é menos verdade que ela está nos olhos que a veem e é mais do que hora de aprendermos a olhar com os olhos certos e enxergarmos as mulheres não mais como um corpo bonito a ser apreciado, mas sim como um ser humano a ser admirado muito mais pelo que ela é do que por como ela se mostra; dando muito mais valor para o que lhe habita e para o que ela é: alguém que pode somar e contribuir e que faz com que se saiba e sinta que ela é boa (de se ter por perto porque agradável, inteligente, divertida... porque ela é ela).
Então é preciso deixar que as mulheres falem e que as escutemos (e se interessar por isso, gostar disso). Saber o que elas pensam e o que sonham (e gostarmos do que pensam e dos seus sonhos). Conhecer as suas histórias, suas crenças, as suas opiniões. É preciso dar valor ao valor que tem nessas mulheres terem voz e daí entendermos que também essas vozes, esses pensamentos, esses sonhos e essas histórias são bonitos e também tão importantes. Que a mulher não é o troféu bonito e ansiado a fim de ser exibido ou conquistado, mas a dona da sua vida e a fazedora da sua história, disposta a se deixar conviver com quem ela também quiser segundo as circunstâncias que a levem a querer. Dona dos seus sentimentos, sentidos e sensações. E que pode ser forte e que pode querer se grande e está tudo bem. É até melhor.
Ah, quando os homens entenderem que a beleza é muito mais do que o que é bonito...
Achou aquela mulher bonita? Ótimo! Agora presta atenção nela e encontre muito mais. Vai valer a pena... 

domingo, 31 de julho de 2016

Sentir a dor, calar a dor...

Num mundo de “vitoriosos”, sentir dor parece um luxo a que poucos se podem dar. Estamos cada vez mais cercados de pessoas que seguem a risca o modelo de sucesso: ser feliz e ter prazer.
A partir do momento em que sentir prazer e viver o prazer passou a ser essencial, ou seja, a partir do momento em que o prazer passa a ser a regra da vida que tem que ser vivida para que se considere uma vida bem vivida, a vida passou a ter um peso ainda maior. Isso porque a vida é feita de escolhas e as escolhas serão sempre motivo de angústia. A angústia de ter que escolher uma em detrimento de todas as outras opções, de fazer real o que antes era ideal (porque no ideal tudo é perfeito, bom e faz bem, mas no real a gente descobre que o dia só é perfeito antes de começar). E se a vida é feita de angústia, a vida dói. Onde há dor, o prazer não permanece.
Note que escolhi dizer que o prazer não permanece. E, a bem da verdade, o prazer nunca permanece porque prazer é ganho de alegria, de energia, de potência. Não é por um acaso que quando se fala em prazer se usa expressões como gozo e como tesão. É disso que se trata. Mas tudo isso dura o tempo que dura. Ou seja: dura, mas acaba depois que passa. E daí a vida volta ao seu estado normal.
A vida em seu estado normal não é ruim ou boa, mas é o que é: normal. O problema é que muitas vezes buscamos o extraordinário da vida e mesmo quando não o conseguimos, temos sido cada vez mais condicionados a nos mostrarmos como se o tivéssemos atingido. E é então que nos mostramos sempre sorrindo, donos dos melhores e mais saudáveis relacionamentos, das famílias mais unidas, mais felizes (pra comercial de Doriana nenhum botar defeito), dos maiores afetos, convictos dos projetos mais ousados porque nos afirmamos os mais focados, estudiosos, em suma, somos tudo o que os outros também querem ser, mas quase sempre somos sem ser (como a maioria que, se quer ser, é só porque não é). Resultado: mais angústia.
Mas agora uma angústia diferente. A angústia agora vem do espelho que faz do outro. Deixa-se de se olhar a partir das próprias circunstâncias e daquilo que é sua própria responsabilidade e passa a se julgar a partir da vida idealizada a partir do que o outro escolhe mostrar sob o ônus de também não poder parecer menos, já que ele também tende a se julgar a partir do que vê a partir de outro “campeão”. Um ciclo constante de construção de dor porque as pessoas escolheram não olhar pra si e, com isso, não construir sua verdade a partir da verdade do que são, mas sim a julgando a si partindo do melhor que acreditam existir em outro a quem não conhecem realmente (mas apenas idealizadamente).
Nesse processo, o resultado são milhares de pessoas cada vez mais doentes, com corações que se perguntam por que apenas suas vidas parecem dar errado e apenas as suas escolhas não levam ao lugar de sucesso a que “todos chegam” menos ela. Pessoas que esperam um socorro, mas que não pedem esse socorro porque seria admitir terem dado errado num mundo em que todos têm que dar certo. Pessoas que precisam de ajuda, mas calam a dor que sentem e não a dividem, mas só acumulam e nem mesmo conseguem mais gritar porque a voz falta e tudo o que sentem é uma vida que todo dia lhes esbofeteia. Pessoas que se perguntam quando se deixou de poder ser fraco e quando que sentir dor virou razão de se envergonhar.
E triste e caladamente sofrem enquanto o mundo, menos humano, se ocupa em se endeusar. 

domingo, 24 de julho de 2016

O negócio é temer* menos e gostar mais

O medo é um dos afetos mais entristecedores a influenciar o comportamento humano. E ele está cada vez mais presente.
Um dos piores medos é o do mundo real. O medo que impede de ser de verdade, de dizer o que quer e o que sente; de pedir, revelar, tentar. Medo de descobrir que sente e quer sozinho ou de pedir e tentar e ouvir um não. E daí as pessoas se escondem nos seus avatares. Encerram-se em solidões sem coragem de pedir a companhia. Encerram-se na dor sem coragem de pedir afeto. Encerram-se na vida sem coragem de pedir saída. Tudo porque têm medo de tentarem o outro e descobrirem que não lhes há aquele alguém.
Pior ainda é o medo de não encontrarmos quem queremos. E o grande problema está em idealizarmos a perfeição desse alguém que queremos e, então, olharmos o outro não como ele é, mas como o resultado de tudo o que falta para que ele seja aquele a quem idealizamos. E idealizamos tudo: desde o tipo físico até o sorriso quando nos vejo ou o jeito sereno de dormir ou a cara de bobo ao acordar.
Mas é quando eu digo que quando a gente imagina, por exemplo, o encontro ideal, o parceiro ou a parceira ideal, o olhar, o beijo, a pegada, o dia seguinte e todos os outros, na verdade o que a gente está fazendo é namorar a gente mesmo. Nesse instante, estamos querendo que o outro seja quem somos – desde que fôssemos pra gente (já que dificilmente somos perfeitos assim pro outro).
Isso é um grande erro! Pensar o amor que queremos é deixar de amar quase todos os amores que podemos. E são muitos os amores que podemos. Deixar de amar é deixar de viver. Parafraseando Quintana, “Morrer: que me importa? O diabo é deixar de viver!”.
E não é que não devemos nos ter na conta de quem por ter grande valor merece um grande amor. Mas talvez seja o caso de se entender que o grande amor não é aquele que vem sob medida, mas é aquele que se descobre, se ajusta, faz a vontade porque tem vontade e se basta na vontade de ficar à vontade com quem descobre que lhe faz bem.
Ora, nós somos capazes de saber do que gostamos, mas jamais poderemos ter certeza do que (e de quem) realmente gostaremos. Quanto mais de quem não gostaremos. Mas acabamos nos pondo em tantas defesas, tantos joguetes, tantas expectativas de tantas perfeições (do outro, dos instantes, dos momentos) que cada vez mais dói a ideia de que dizer SIM pra um é dizer NÃO para todos (vai que o melhor era o próximo que eu não soube esperar).
E parece que tudo isso é fruto de uma insatisfação que nasce a partir de uma falsa perspectiva do que é a vida individuada em cada um. Porque as vidas, hoje, socializadas – já que sempre postas nas “vitrines sociais” – se fazem sujeitas a toda sorte de escrutínio popular e daí muitas vezes a tendência de se valorar as próprias escolhas segundo aquilo que se imagina que os outros podem julgar ao nos analisar.
Nisso, a vida que é nossa deixa de ser nossa porque damos ao outro o poder de nos incomodar com um julgamento que achamos que ele fará acerca das nossas escolhas, mas que, na verdade, é o julgamento que nós mesmos fazemos, já que não pensamos com nenhuma outra cabeça que não a nossa. Não alcançamos o pensamento de nenhum outro alguém.
Mais e mais as pessoas julgam-se no espelho do outro e sob as circunstâncias que pensam serem as do outro, mas, com isso, não percebem que elas se fazem vilãs contra suas próprias vidas e que são elas que combatem contra a sua própria felicidade na medida em que se fazem o principal obstáculo à sua alegria e à paz.
O negócio é temer menos e topar gostar de gostar mais.



*o título não tem qualquer conotação política (rsrs)