sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

O Erro que dói, mas que não deve doer (pode ser eu ou você)



Já disse, em círculos de pessoas mais próximas, que algumas vezes chego a invejar aqueles que vivem a vida inteira junto de seu “primeiro – e, no caso, único – amor”. A inveja em questão é em relação àqueles que não precisaram e nem se aventuraram em conhecer outras pessoas, tendo vivido aquele amor bastante.
É que conhecer muitas pessoas pode fazer com que não saibamos e nem acreditemos mais na viabilidade de uma felicidade havida na companhia de outrem e, cínicos em relação ao amor e suas possibilidades, investimos nossos esforços em novas conquistas e novos encontros que não recebem de nós mais do que a porção calculada de uma intimidade frívola.
E é nisso de não nos bastarmos com uma e procurarmos tantas pessoas que não saciarão o vazio que se acumula em nós, que nós magoamos, somos magoados e mais erramos do que acertamos. Só que parece que sempre tem aquele erro que dói. Aquele erro que é uma pessoa. Aquela pessoa que, depois de tudo, a gente pensa que era melhor não ter vivido. E não nos enganemos: um dia também podemos ser esse erro pra alguém.
Você que lê agora, você tem aquela experiência com outro que você mesmo pensa que era melhor não ter tido? Ou tem a consciência de que existe quem olha pra você e tudo o que mais deseja era poder voltar no tempo para evitar que você lhe aconteça? É triste, mas é normal. Arrependimentos são inúteis, mas são fatos. Mas será que esse erro é assim tão ruim?
Por exemplo, aprendi – de uma forma que à época me doeu – que é inútil deixar alguém por outra alguém pensando que será melhor ou que, com isso, seria feliz. Depois disso, poderia até lamentar tê-lo feito, prometer pra mim mesmo que não cometerei o mesmo erro e que, voltasse o tempo e tudo seria diferente. Mas como eu saberia que não deveria fazer o que agora entendo que foi erro se não o cometesse? É daí – e já foi tema de texto aqui – que defendo que a vida é da única forma que poderia ter sido: tanto em escolhas certas, quanto em escolhas cheias de erros. Se não aprendesse naquela época, aprenderia com o mesmo erro tempos depois, afinal, ainda não o saberia.
Por isso não vale a pena que vejamos o outro como um erro. É uma experiência. É o que deveria ter sido na hora que foi, com a dor, com o sofrimento, mas também com tudo que pareceu bom à época do “sim, te quero”. Com todo o contentamento. E é uma pena que nem todos entendam que a vida é o tempo da escolha e que a escolha nem sempre tem que pensar em tudo (menos ainda em todos). É uma questão de que acontecimentos acontecem, vida vive e o encontro de hoje é o que tinha que ser hoje, sem que precise e nem deva ser o lamento de amanhã.
Que o que valha seja o bem e haja tempo para sempre sermos vistos como o bem que viveu noutro alguém. No mais: carpe diem e quem não entender, azar. A vida segue. E como segue!

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Se você não se mostrasse, quem te veria?

Vivemos uma era de acentuação de carências já tão acentuadas. É cada vez maior o medo de nos descobrirmos (ou nos entendermos) sós. E é quando as redes sociais mostram-se instrumentos aptos tanto para nos sentirmos cercado de muitos, quanto para alimentar essa carência de precisarmos desses tantos.
Sim, porque é fato que estamos hiperconectados e, com isso, na possibilidade de sabermos de tanta gente, ao mesmo tempo em que tanta gente tem essa mesma possibilidade de “ser sabida” por essas e outras várias. É tanta-gente-ao-mesmo-tempo-junta que acaba se sucumbindo à necessidade de requerer atenção a tal ponto de se temer a falta dela.
Ou também não é fato que estamos sempre postando o mesmo que outros postam, cada um ao seu jeito? As mesmas poses, mesmas campanhas, mesmas hashtags, tudo o que nos dá a sensação de pertencimento ao que parece ser maior e mais forte do que nós.
Só que é tanta gente fazendo isso, tantas postagens, tantos stories, tanta satisfação sobre onde está, o que faz, o que come, tantos atestados do quanto se é feliz, que acabamos na impressão de que não se existe fora desse mundo em que todo mundo existe.
Por isso que postamos e, não raro, ficamos ansiosos pelas curtidas, pelos comentários, por todo feedback (positivo) que nos dê a impressão de que não passamos por esse mundo em vão, mas sim, que a nossa presença é reconhecida e que alguém sabe que nós existimos.
Nos mostrarmos, como se faz nas redes e mídias sociais, é uma garantia de sabermos desses olhos postos sobre nós, de nos pensarmos relevantes de alguma forma. É um jeito de garantir uma vitrine capaz de chamar a atenção de quem não passará por onde a gente esteja sem se dar conta de que ali há alguém para se ver.
E é quando nos mostramos mais bonitos e procurando mostrar os nossos melhores talentos, sorrindo nossos melhores sorrisos, dando testemunho de vivermos as melhores vidas, quase como um atestado de que essa vida só aconteceu porque soubemos escolher as melhores escolhas. Garantindo que quem nos veja, veja como queremos ser vistos e pelo quê queremos ser vistos, não importa se somos realmente entendidos ou apenas imaginados.
Mas não seria melhor a certeza da vida real à hipótese da vida ideal?  Será que somos justos conosco? Fazemos bem em aderir a essa nova forma de vida cuja existência mais relevante é a do nosso avatar a do nosso dia-a-dia? Nessa forma de existir em que mais vale ser visto por uma tela do que sentido enquanto presença? Que nos faz duvidar, inclusive, se haverá quem nos queira, nos aceite? Não é cruel nos mostrarmos tanto, muitas vezes porque temos dúvida de que alguém nos veria se não lhes obrigássemos a nos ver? Temos que ser mais do que isso. Nós somos mais do que isso. A vida é, certamente, mais do que isso.
Quando a gente realmente acha que precisa se mostrar para que alguém possa nos ver, nos notar ou nos saber, apenas atestamos vivermos de modo desinteressante. Mas a responsabilidade é toda nossa. Cabe à gente cuidar de viver de tal forma que os olhos nos procurem e nos encontrem e até se sintam atraídos por quem existe sem que precise pedir que lhe percebam.

 Então te pergunto: você precisa mesmo se mostrar para que alguém tenha motivos pra te ver?

sábado, 23 de dezembro de 2017

Viver basta para viver (e deve bastar quando o querer não basta para ter)


Seria o caso de a vida ensinar a não ter? Porque não devo estar sozinho quando me penso dentre aqueles que já desejaram aquilo que não tiveram, mais porque me negaram do que porque não assumi que quis.
Então querer não basta? Ou será que erramos ao nos deixarmos abater pela frustração de não termos alcançado o sonho – ou o desejo – que dependia de mais do que do nosso talento para fazer acontecer? Porque querer não é exatamente poder.
A vida é essa série de circunstâncias vindas de uma série de variáveis (e que trazem outra séria de tantas variáveis, como oportunidade, sagacidade, coragem, ousadia, medo) que podem fazer toda a diferença. É preciso estar pronto, preparado e disposto. Mas nem sempre basta estar pronto, preparado e disposto. Muitas vezes diremos, confessaremos mesmo, pediremos, insistiremos, mas não seremos ouvidos. E a culpa não é nossa. A vida encontra diferentes planos, diferentes quereres em cada pessoa que cruza a história da outra sem que saibamos quem vem para ficar.
Cada uma dessas pessoas traz consigo novas possibilidades de vida, de aprendizado de nós sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos cerca. A cada encontro com a vida e com as pessoas que a vida traz (apenas por assim dizer), nos renovamos em quem somos, ainda que muitas vezes sintamos como se desde sempre fôramos aquele que estamos. E são essas chegadas e as sucessivas partidas que fazem com que tenhamos que entender que a vida vive porque ela não tem outra escolha que não seja viver.
Na medida em que a vida nos surge e vive – e nos aflige! – vamos descobrindo sobre nós, que muitas vezes somos tomados de rompantes e logo nos sabemos desejosos de sermos mais. Algumas vezes mais do que o um que nos cansa, outras mais do que a personagem que desencanta.
E então nos abrimos para essas possibilidades de outras vidas que modificarão a nossa forma de vida. E é o que nos cabe. É o que nos resta. Porque daí, devemos, sim, sair do deserto de nós mesmos para nos expormos à vida que queremos. Não sendo assim, jamais haverá outra vida, mas, a eterna repetição do enfado e da tristeza e de uma melancolia dolorosa. É quando criamos a coragem de nos mostrarmos pra vida – e, se for o caso, pra quem seja o outro que nos comoverá (que “moverá nosso coração”) no sentido cujo destino, mesmo querido, ainda surpreenderá. 

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Não existe igualdade. Graças a Deus

É como se vivêssemos tempos em que precisamos eleger vilões que nos façam nos sentir tal qual aos heróis. É a partir de um suposto opróbrio alheio que aproveitamos a chance de afirmarmos que somos os bons moços, os verdadeiramente dotados de bons sentimentos, bem quereres, empatia. Que queremos a felicidade de todos e o respeito à igualdade a que sempre defende(re)mos e pela qual não cansa(re)mos de lutar. É essa gente que depende do diferente ou, de tal igual e omissa, não teria voz para se fazer notar. Aliás, gente bem cansativa que parece nem saber do que fala, mas fala.
Afinal: desde quando somos realmente iguais? E por que seria bom que fôssemos?
Não é novidade para ninguém que a nossa sociedade é vítima do discurso cristão (principalmente esse de que somos filhos de Deus e, portanto, irmãos e, consequentemente, iguais por vocação e herança – divina). A partir dessa influência, buscou-se consagrar essa igualdade nos textos de lei e parece que com alguma razão, afinal, parece justo que pessoas que vivem sob as mesmas obrigações sejam titulares de mesmos direitos (civis).
O problema está em quando esse discurso passa a ser assumido como máscara de muitas pessoas que a ele aderem sem qualquer reflexão, preocupadas, apenas, com não serem vistas como anátemas dentro do círculo social (seja o mais próximo, seja o mais remoto). Ou não é fato que vemos – ouvimos – inúmeras pessoas repetindo discursos de uma igualdade que, por força da natureza, simplesmente não há (não é)? E chega a ser impressionante o quanto se ofendem e se insurgem contra aqueles que se recusam a acreditar que todos são iguais por serem humanos (que é diferente de serem iguais por serem cidadãos). Muitas, inclusive, sentindo-se no direito de ofender e acender a sua ira contra qualquer um que não se ocupe de ser mais um produto dessa pasteurização nociva que não se envergonha de defender que não deve haver diferença entre dois diferentes.
Pergunto: e daí se o negro se acha melhor que o branco ou vice-versa? Se o asiático se considerar mais capaz que o latino ou seus vizinhos hindus; ou se o grego entender que tem mais motivos para se orgulhar de sua história que o judeu? Se um homem quiser achar que é melhor que uma mulher ou se a mulher entender ter razão quando sabe que o homem é suficientemente fraco pra se sujeitar ao que ela quiser? Ora, em nome de quê as pessoas precisam andar de braços dados e corações gratos cantando “kumbaya” como se fossem uma grande família universal? Os fortes não devem ter vergonha de ser forte porque haverá alguém fraco; o bonito não precisa se “enfeiar” para que o feio não se constranja ante a sua ausência (evidente) de seu capital estético. Assim como o inteligente não precisa querer provas fáceis porque outros não conseguirão responder e o resiliente se compadecer do desistente porque suportou provações que este não conseguiu.
O mundo conhece inteligências diferentes, condições atléticas diferentes, com corpos diferentes, estéticas diferentes, por que, em nome da razão (e não da lei que nem sempre tem razão) se deveria defender que esses tantos diferentes sejam iguais ou tenham oportunidade iguais?
Infelizmente, ao longo dos últimos anos têm se voltado ao exercício de uma cultura – ocidental cristã – em que se busca nivelar os sujeitos “por baixo” (afinal, “os pobres de espírito é que terão o reino dos céus, os que choram é que serão consolados e os mansos é que herdarão a terra”). Com isso, parece que querem acabar com as diferenças exaltando os “sem motivo” ao mesmo tempo em que desacreditam os que teriam no que se (auto)gloriar. Não se quer subir ao alto a que o outro subiu, mas esforça-se em trazê-lo ao mais baixo em que está. Até porque, destruir é mais fácil que conquistar.

sábado, 30 de setembro de 2017

O Presente do futuro do pretérito

Fala-se muito em quando “não era para ser”. Parece que é importante para as pessoas crerem que de fato há uma força superior que lhes guia os destinos e lhes estabeleça desígnios que lhes tirem um pouco da responsabilidade pelas escolhas ou pelas consequências vindas de escolher. E daí, acreditam que se não foi como pensaram que poderia ter sido, não foi culpa delas, mas sim, “porque não era para ser”.
Acredito que se não todos, quase todos já experimentaram a sensação de conviver com uma ideia que não aconteceu. Aquele plano ou aquela alguém que te levou a imaginar a vida ideal, mas que de repente é tudo menos a possibilidade de vir a ser. Não foi. É aquilo de se ficar horas, talvez por noites e mais noites fantasiando como seria a vida, como seriam os dias, as conquistas que viriam na sequência e a celebração por cada uma delas... se a vida fosse como se gostaria que ela tivesse sido. Mas não foi. E talvez a regra seja que realmente não fosse. E é quando a gente começa a tentar entender por que não foi se parecia tanto que tinha que ser.
Porque não era pra ser? Ou será que foi porque a gente não soube fazer.
Muitas vezes estamos tão ocupados vivendo a realidade de outras vidas que queríamos que fossem nossas vidas, que não percebemos que isso nos distancia de viver a realidade daquela idealidade que nos parece que faria tão feliz. Até quisemos o que agora a gente lamenta não ter sido e não ter como ser, mas não tivemos coragem de assumir e fazer por onde e mudar nossa vida para que fosse como podia ser. Talvez estivéssemos ocupados demais com a mentira de uma vida que era boa só às vezes e que depois se mostrou ruim para todos os depois. Não vivemos o durante e estragamos o nosso depois.
É porque daí a vida já viveu. E andou. Correu. E era tarde demais para aquele plano de vida ou pra aquela história. A vaga já foi ocupada. Outro mais disposto e mais livre de tudo o que era uma vida mais ou menos, fez o que a gente não fez. Foi até onde não fomos e conquistou tudo aquilo que apenas desejamos, sem coragem sequer de confessar, quando mais de realizar.
Nada mais patético do que se fazer de difícil para si mesmo. De saber que quer, de enxergar que seria bom, mas não ter a condição de renunciar a um mundo de possibilidades por uma vida de realidade. Ficar parado esperando que a vida nos escolha, que a pessoa nos escolha, que todos mostrem que nos querem enquanto não sabemos mostrar que queremos e que porque queremos escolheremos e até nos mudaremos em nome do que ainda é verdade apenas no interior do que pensamos para nós.
Quando a gente menos espera, as vagas de concurso não abrem, as de emprego não surgem, viver naquela cidade  sob as condições desejadas fica mais distante, ou mesmo aquele alguém foi embora, talvez tenha casado, quem sabe até morrido ou engravidou com outra pessoa que não é a gente. Em suma, a vida viveu a diante enquanto a gente continuava achando que uma hora entenderia que a gente preparava nossa vida pra vida que a gente queria. Tudo foi. Só a gente que parece que ficou.
E daí a gente tem que recomeçar do -1. Mas que seja sabendo que o preço de apenas querer sem fazer acontecer é estar sempre sozinho e distante de tudo aquele que a gente poderia ser, ter. Porque a vida não espera (ou perdoa) quem não tem pressa e nem coragem de viver.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Nunca é "nada", mas também é...

Acho que já aconteceu com (pelo menos quase) todo mundo: às vezes nem você sabe o que quer, mas você quer que saibam o que você quer e sem que você tenha que dizer daquilo que você nem sequer tem certeza se de fato queria. E daí quando sai tudo diferente do que você não tinha pensado, você se chateia, fica triste e se te perguntam o que foi, o que tem ou o que há, a tua “resposta-mentirosa”, mas também a mais sincera é: “nada”.
A gente é gente esquisita e atrapalhada quando trata com outra gente. É todo mundo muito cheio de um querer que pode surgir de repente e mudar mais de repente ainda e como é muito óbvio – pra gente – que o que a gente queria agora já não é o que a gente quer porque a gente logo passa a ter outro querer, que logo “como assim você não consegue me entender?”. Pra gente, o que a gente quer é sempre óbvio (mesmo quando a gente não sabe o que quer).
Só que pra muita gente acaba sendo pesado conviver com essa gente (que, no fundo, é a gente) que sente aquilo que é seu e, então, reage ao que outro (não) entende daquilo que ela sente. Para o outro acaba sendo como se fosse tudo, mesmo óbvio. Até porque, é fato que, sentir, sentimos todos. Mas, cada um ao seu modo, basta a menor distração para que passemos a nos ocupar das ausências que nos esvaziam e esqueçamos que também somos parte de vazios a que nos cabe lugar.
Nem sempre o outro sabe o que ele “tem” que fazer porque muitas vezes ele perdeu a sequencia dessa história – e história, aqui, no sentido de instante que antecedeu essa tristeza, ou necessidade, ou falta do que faça sentir o bem que falta naquela hora. Ora, a vida vive de muitos lados e o mundo como vivemos hoje é vário, é múltiplo e parece não permitir – nem tolerar – uma atenção cujo vetor mire uma direção única por um tempo longo e único.
A intenção do texto certamente não é ser bonito, nem trazer um final pomposo ou romântico. O momento atual é o de um mundo em que a gente faz mais de uma tarefa ao mesmo tempo. É tempo em que se fala ao telefone e digita e responde alguém que passa pela mesa e presta atenção em volta pra ver se o colega a quem deve um recado passa e ainda olha no relógio porque está pensando no prazo que em breve vai vencer. Estamos concentrados em tanta coisa que talvez não nos concentremos em quase nada.
Nos relacionamentos podemos mesmo acabar esperando do outro que ele tenha a atenção que nos falta (e que nos falta em todos os sentidos que uma atenção pode nos faltar). E o mais grave é que isso pode se dar numa via de mão-dupla que a nossa distração em relação a tudo o que a gente se julga atento pode fazer com que a gente nem note. Podemos acabar cobrando o que não damos e lamentando pelo que recebemos sem que demos o devido valor.
Talvez seja o caso de lidarmos melhor com o que temos de nós e em nós e entendermos que o outro só tem da gente o que vai da gente. Não é certo esperar que o outro adivinhe as nossas necessidades e dores, nem carências e rancores. Contar com a perspicácia do outro como se fosse sua função ser o melhor que a gente possa querer, mas sim, sorrir com a sua vontade de ser o melhor que ele ou ela saiba ser quando nos quiser dar o que a gente confessa que precisa.  Um para o outro dentro do que são, mas sem querer ir além do que podem, até porque, gostar é aceitar quem a pessoa é sem querer levá-la a ser aquele outro ou aquela outra que a gente idealizou, mas parece que não encontrou e daí quer criar a partir de partes que já são alguém.
É... talvez até esse outro exista em algum lugar e daí é você quem está errado se mantendo com quem está no limite do que pode te dar e você acha pouco e daí cobra tanto de quem não tem mais como pagar.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Amanhã ou todo dia?

A vida vive e é porque ela vive, que ela vai acontecer. E ela acontece. De um jeito ou de outro, a gente estando preparado ou não, os dias sempre se sucederão e o que nos caberá é escolher qual o papel que nos quereremos: protagonistas das nossas escolhas ou coadjuvantes das circunstâncias que nos são impostas?
E é aí que está: qualquer escolha que fizermos tem um preço. E é natural que tenha. E é certo que quando a gente imagina que o que pode nos vir de bom parece valer a pena, a gente não se importa em pagar o preço que for. Só que, geralmente, a gente leva em conta aquele preço que a vida (naturalmente) cobra da gente.
O problema é que além desse preço da vida – que tem! –, há um preço que vem implícito naquilo que outras pessoas impõem à gente. Porque nem todo mundo – ou quase ninguém – convive bem com quem esses protagonistas que são os que ousam não esperar que a vida aconteça e, então, vão e fazem e se antecipam a essa ideia de destino e entendem que a vida é o que é e não o que teria que ser. E esses são aqueles a quem a vida não é questão de um dever que vem de antes, mas de um prazer que vem em cada agora. E eles vivem seu agora.
Mas como ficam os que acham que gozar o prazer do agora tira o valor do prazer que realmente importa? Os que pensam que vários prazeres servem mais para distrair e por isso é que nos atrapalham entender que a vida pode ser plena e ser inteira sem que tenhamos que viver sendo a metade de nós mesmo? Esses, para quem, a vida tem uma “promessa de felicidade perene” pra cada um de nós que formos bons e soubermos esperar e que, portanto, escolher o agora (porque “quem sabe faz a hora”), seria apostar no que é efêmero porque o agora é “muito durante para pouco depois”; logo esses que apostam (com fé) no amanhã porque acreditam que a vida é feita de propósitos e caminhos que nos levam ao que dure mais do que um clímax, mais do que a fração do que dura o instante de um simples tesão.
E daí a tensão entre os dois tipos de opinião: nos guardamos acreditando que a vida nos tem reservado o que há de especial... ou fazemos a vida acontecer?
Fazer a vida acontecer, nesse contexto, é sair em busca do que se quer e na sua exata medida do que se quer. É o que querer, quem quer, a quem se quer, sem que se importe se para o instante ou se para a vida toda que se quer. É fazer a vida acontecer porque se acredita que a única vida que tem é a vida que vive no instante em que se vive e que o amanhã não passa de uma possibilidade que também é uma verdade impossível de alcançar (porque nunca chega).
Mas falemos de nós: se eventualmente escolhermos a vida, até que ponto é justo que paguemos por não termos esperado por esse futuro que – a bem da verdade – jamais pensáramos que viria? Por exemplo: conheço casos de maridos que se envolveram com a cunhada antes de conhecerem a esposa. E é importante que o fato de terem conhecido a esposa não está, necessariamente ligado, ao fato de terem vivido algo com a que, depois de algum tempo, veio a ser a cunhada. Hoje, casados, são confessa e aparentemente felizes.
E é desse problema que proponho a reflexão final: e se a esposa achasse que o fato daquele homem conhecer o beijo – ou o sexo – da sua irmã fosse motivo suficiente pra que ela dissesse não a qualquer chance de ter aquele que viria a ser o seu marido? Ele não estaria pagando por ter feito algo por quem ele era naquele instante, pela vida que ele vivia naquele instante? Pela vida que nada tinha a ver com quem ele viria a querer – ou mesmo ser – algum tanto tempo depois? Se ele não sabia que viria a gostar dela, é certo condená-lo – evitá-lo – por ter gostado de alguém próximo dela? Privar, evitar uma história que seria agora em nome de uma fidelidade a algum tipo de memória?
E o mesmo se fossem duas amigas ou se, ao invés de mulheres, do outro lado da história envolvessem homens, irmãos ou amigos. Não importa o gênero ou o vínculo, importa é que sejam (são) gente sujeita às mesmas fraquezas e paixões que todos nós.
Afinal – e ao final –, devemos deixar de querer no agora e começar a esperar pelo amanhã ou largar a mão de sermos hipócritas e entender que somos corpos desejantes, desejosos e desejados e almas inquietas que querem descobrir e que querem desvendar? Corpos que na ânsia de acertar (e se aceitar) também podem errar e que depois de errados vão querer tentar de novo, começar, recomeçar, dar, receber e que até podem ser a vida toda só de um, mas que não pode ter problema se forem de dois ou de tantos e que nem importa quem eram os outros, mas sim que se querem e quando e quanto... 

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Às vezes é melhor que vá... então, adeus

– É clichê? Sim. Mas realmente, não é você. Sou eu. Ou talvez seja eu por causa de quem eu descobri que você é. Pra mim, não faz sentido insistir no que me parece que não tem futuro e o que eu percebo é que se eu não deixar de gostar de você agora, você vai gostar de mim, talvez eu até goste de você, até o dia – um breve dia – em que eu terei que desgostar. Não me olha assim. Você nem precisa entender, só aceita.

– Aceitar? De uma hora pra outra o que era bom precisa terminar pra que não seja ainda melhor porque parece que lá na frente vai ter que acabar de qualquer jeito e eu preciso só aceitar?

– Não é só isso, mas se você quiser pensar assim. Eu só acho que você...

– Você acha que já sabe o que vai acontecer. Que o que vê é o certo e o que pensa é inevitável. Você pensa em futuro sem viver todo dia eu penso em todo dia pra fazer um futuro.

– Não tem futuro.

– Mas tem presente e não me parece que você não gostava do presente que durou até “ontem”. O pior é que uma parte de mim te via partindo e eu não queria ver que precisava ao menos tentar que você não fosse. Daí agora eu já corro o risco de você estar bem longe...

– Eu preferia que a conversa parasse aqui. Não há porque prosseguir se eu sei que não vou mudar de ideia e se a única certeza que tenho é a de que devo partir da tua vida pra uma vida que seja minha e só.

– Enquanto isso a minha vontade é te dizer que já deu, sim. Mas que o que já deu foi o tempo de você perceber que não tomou a melhor decisão ou que não escolheu os melhores motivos. Mas daí te ouço como acabei de te ouvir e logo percebo que você já decidiu e como sempre disse que não é de voltar atrás, me calo já que me parece inútil buscar mais de você.

– Não há mais nada de mim...

– Mas é que como foi você quem disse que as iniciativas sempre foram minhas e que só houve o que houve porque a iniciativa de nós dois foi minha e como eu gostei do que houve e gostei de mim com você, preciso reconhecer que me sentiria péssimo se não fizesse nada pra não perder você.

– Para...

– Você me deu tempo – e motivos – de ensaiar diferentes planos com você...

– Eu sei o que eu disse, eu sei o que fiz e acho que sinto muito. Me deixei levar por um querer de uma vida que me quero e quis te encaixar no que agora nem eu sei se realmente quero. Quando duvidei que você pudesse ser no modelo que sempre quis, deixei de querer te querer e bloqueei o desejo de gostar de você...

–... Me escuta – e eu nem acho que vai fazer diferença, mas quero a certeza de que te disse o que tinha pra te dizer...

– Não apronta...

– Eu queria conseguir te mostrar que as razões que te convenceram não são as melhores razões e queria que, então, você mudasse, ficasse e permanecesse comigo.

– Não tem o que mudar...

– Shh... Eu queria que me desse a chance de realmente me apaixonar e te mostrar que valeria a pena se apaixonar também. Porque não foi só você que tentou me por na vida que se queria, mas eu também consegui te ver numa vida que descobri que me quero. Queria te ter comigo até quando você pudesse gostar até dos defeitos que eu tenho – desses como todo mundo tem. E daí eu finalmente iria te mostrar que eu posso – porque eu quero, porque eu já tinha escolhido fazer por onde – ser o melhor do que já passou na tua vida.

– Você foi um momento bom da minha vida quando eu nem esperava que houvesse algo bom...

– Eu te escolhi também com a razão. De repente me vi apostando na ideia de futuro e de família e de vivência que eu não tinha, mas que um dia você me deu, olhos brilhando e falando de nós dois. Sim, eu não tinha e foi você que me deu.

– Você acha que eu não sei que não te ter é fazer com que ninguém entenda como alguém que te tem não quer mais permanecer. Sei que já há quem me julgue – já tenho amigos que me julgam e nem tem conhecem – e sei que ainda haverá quem julgará.

– Não deixa de ser bom saber que há quem fale por mim. Quanto a mim – e por mim –, você apostaria só no agora e no dia-a-dia, um de cada vez, e não se deixaria levar por um medo de um futuro que desse errado. E sim, eu acho que parte do teu desânimo é medo. Por mim,  você aceitaria que apesar de você ter definido que o amanhã tem tudo para dar errado, a gente começou bem, do jeito certo e que vinha sendo bom.

– Você não entende que eu não sou quem você me pensa? Eu não sou quem você acha que quer. Quem conhece a gente sabe que a gente não tem por que se entender. Me deixa ir embora. Para de falar. Essa conversa já durou mais do que precisava e já está fazendo doer o que já não vale e nem é pra valer. Chega!

– Sim. Chega. Também tenho meus limites. Também vou até onde consigo me sentir normal, mas a verdade é que já me sinto pra lá daqueles que são ridículos. Nunca insisti pra que alguém ficasse comigo e não vai ser agora que quero te vencer por algum cansaço. Se fosse só questão de querer, lógico que o que eu queria era que tudo isso fosse bem mais simples e que eu pudesse simplesmente te pegar nos meus braços e te beijar com meu beijo e que isso fosse suficiente pra te fazer querer me abraçar com teus braços e me beijar com teu beijo, mas parece que não é bem assim que funciona. Talvez nos filmes ou no texto de alguém...

– Para. Não tem por que duvidar o tanto que gosto do teu beijo e do teu abraço. O quanto gostei de ficar com você. O quanto era diferente o tanto que não te resistia, mas sempre te recebia pra mais de nós dois. Mas gosto mais de mim e agora quem eu sou não se basta na vida e na ideia de quem você é.

 –Pois quer saber? Já falei bem mais do que eu planejava. No fim, minha intenção era te fazer saber que te esperaria e que se voltasse, chegaria e se não viesse eu saberia que você se bastava no que decidia e pronto: era como já está. Mas agora eu também quero que você vá. Quero que descubra a felicidade que acha que te haverá e que ela seja o que você se deseja.

– É difícil acreditar que me deseja bem quando o tom da tua voz é de quem está mal.

– Não... eu só sou alguém que te quis pra ser um parceiro que sonhe e te apresente sonhos; que ria e te faça rir; que goste, saiba gostar e saiba ser gostado; que não se assusta, que pega na tua mão e te leva ou que pega na tua mão e fica ou simplesmente pega na tua mão e não solta. Mas agora só quero que você saia da minha vida e de diante de mim.

(a porta se abre. Um beijo no rosto de olhos que não se olham)

– Você encontrará alguém que te mereça...

– Não fale isso. Não preciso de condescendência. Aí sim seria pior. Que fique o que houve de bom como sinal de que nem mesmo o que é inusitado – de bom – pode ser suficiente. Apenas vá. E me deixa com os próximos dias em que me haverá com a vida que me sorrirá com as novidades que, até há pouco, não eram sequer hipótese.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Será que toda dor é igual?

Penso que há algumas dores que porque piores que outras dores, são dores que escolheríamos não doer. São aquelas dores que nos mostram demais. Dores que revelam uma essência que nos expõe para muito além do que nos mostramos (até mesmo para nós mesmos). São dores que a gente não sabe onde moram na gente, nem desde quando ou por que nasceram, mas que de repente disparam e doem até que o que nos acomete é a vergonha de quem sabe que não tem razão pra sofrer o que sofre, nem pra se queixar do que não parece motivo, mas que mesmo assim se percebe abatido por tudo o que tantas vezes não tem nada a ver com o que dependa de si.
Há quem defenda que a dor é um inteligente mecanismo de defesa do corpo que garante que ele se defenda do que poderia lhe degenerar. É quando se sente a dor que se retira a mão do que queima ou se ergue os pés do que rala ou que pisca os olhos antes do encontro que pode cegar. Talvez a dor realmente seja um mecanismo de defesa inteligente das emoções contra novas emoções. Porque a dor faz a gente tatear com cuidado o espaço em que se atiraria imprudente, impenitente pelo simples prazer de gozar o prazer que se revela novo, bom e farto. Porque a dor faz a gente pisar no freio e olhar o caminho que seguia com pressa e em festa, quando nem pensava em fazer questão de se cuidar.
Parece que a dor nos devolve a realidade da gente.  O que não quer dizer que ela é válida, o que não quer dizer que isso é bom. Ela busca uma segurança que não existe ou uma certeza que não se pode (nem se deve) ter para se afirmar sobre um fundamento covarde de quem se engana nas verdades que se cria (e nas histórias também) e, em tudo, recria contextos de sofrimento que, descuidados, abafam momentos de contentamento só porque um instante dessa dor pode sugerir que tudo o que foi não era; que quem se pensava, não é.
E se não cuidamos, afundamos a nós mesmos nessa dor. E também a tudo (e a todos os) que vivem conosco aquilo que é bom, mas que dá medo (dá medo porque é bom). Ficamos tanto tempo imersos numa expectativa ruim, num pressentimento de que a qualquer momento virá a surpresa que não será boa, a revelação de que tudo não passara do que no fundo a gente sempre soubera ou que não era nada daquilo que a gente sempre pensara, que acabamos desvivendo tudo o que vivemos ou não vivendo o muito do bom que havia pra se ter vivido.
Viramos o eterno boicote da nossa própria felicidade pelo antigo medo de se saber feliz.
E daí também a dor. Há dor. Ah!, dor. Não parecemos grandes – como parece que é normal se querer grande – quando nossas questões parecem tão pequenas e relegadas à mesquinhez de um acontecimento que só interessa quando aconteça como seja perfeito. E só. E se acusamos a dor que nos dói, parece que diminuímos mais na pequeneza em que a dor já nos põe, já nos faz. Então tentamos calar essa dor em nome de um silêncio que não é menos tristeza, mas apenas a garantia de que logo erraremos o erro que vai garantir que fiquemos sozinhos o tempo exato de uma vida inteira desfeita de amor.
Você já parou de ouvir tua dor?

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Aquele encontro... (aquele que a gente espera e que um dia vem - ou que um dia veio)

Tem gente que a gente gosta primeiro e vai entender o porquê só depois.
Sabe quando você conhece do nada ou até já queria conhecer, mas não sabia bem o que esperar? É mais ou menos isso. Você se pega vivendo aquele instante de descoberta do outro, tentando entender o que te delicia naquela presença que até pouco antes você sabia pouco (talvez nada ou quase nada), mas que desde então você sente que não se importa em aprender muito.
E é daí que começa a querer entender se é o jeito dele ou dela falar sorrindo, ou aquele sotaque quase cantado. Se de repente é o jeito mais debochado de quem não faz questão de se levar a sério ou os olhos que te olham tão intensos que você chega a acreditar que não é só você quem gosta do que está acontecendo. Tudo parece tão melhor do que era antes de ser, que logo chega a achar que já é aquele momento que nem te sabia possível: o de um encontro novo que vive como se sempre tivesse havido.
Você se descobre o ouvinte que nunca se soube e o falante que sempre evitou. Ouve do outro suas melhores histórias, ri delas, tem toda a sua atenção voltada a única pessoa que te interessa e que acabou de vir dentre as outras tantas – as outras várias – que nunca te interessaram. Na verdade, você vive o momento em que já nem tem por que se lembrar de que outra alguém te interessou.
O vinho que pedem é sorvido a doses de palavras que te vão para muito além dos ouvidos e quando é a sua vez de falar, cada meneio de cabeça, cada sorriso de confirmação ou aceno de surpresa é como uma vitória que você comemora só consigo, mas que te indica que o horóscopo acertou quando indicou uma quadratura lunar que te traria uma nova emoção.
Escuta de quando ela morou fora, dos planos de fazer jornalismo até a escolha de voltar pra casa, de como gosta da poesia do Neruda, da música do Caetano, da letra daquela música que ninguém conhece, mas ela, inquieta e que gosta do novo, descobriu (garimpou!) e, ao mesmo tempo, se pega se perguntando quando é que você é que terá o que seja tão interessante de dizer, perto do tanto que está gostando de escutar.
Se a hora não para – e nessas horas ela voa! – logo a conta do restaurante chega junto da hora própria de andarem um pouco sob um luar que testemunha um querer de que você é o único que acha que ainda é preciso disfarçar ou confessar. As mãos se encontram, turvam-se às vistas para tudo o que não seja quem você tem - e que também só vê você e nada além - e como se fosse a coisa mais certa, abraça o corpo que já quer para o seu corpo.
Há um gracejo sobre um batom que se sair não vai ter como retocar, mas nem isso importa mais. Esse momento é aquele em que o mundo em volta fica pequeno pra'quele tanto de contentamento estranho. Sim, estranho. Todo novo. E que parece mais que simplesmente pele – apesar de também ser muito sobre pele. As bocas se querem tão perto quanto a respiração que já acelera igual.
Quando se têm, tudo o que querem é não deixar de se terem e vão deixando a vontade assumir o controle do que virá. Pode ser parado na porta de uma das casas, pode ser chamando pra entrar, mas o que se sabe é que o presente está ali sendo aberto e sendo vivido, fazendo um sentido que anos depois você se lembrará e não terá qualquer dúvida de que agora entende o que houve naquele dia, naquele instante... lá.
E vai sorrir feliz porque seja lá qual foi o rumo da vida, você vai ter sempre esse belo dia da vida para o qual voltar.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

É triste ter que ser feliz

É gente demais acreditando que é feliz “de menos” porque fica se comparando com uma série de inverdades pregadas por quem quer dizer que a vida é vivida segundo receitas que garantem que a tristeza é coisa de quem não tem a atitude correta.
Vivemos uma era em que ser feliz é uma exigência. É o que tem que ser, o que deve acontecer, é o que não pode faltar. Se falta, não acontece ou se não é, deve-se abandonar o que há e buscar o novo que satisfaça porque é preciso provar da fé de que a felicidade é a única opção.
É tanta pressão para ser feliz que a gente disfarça. Começa a se mostrar sorrindo, gostando, gozando de uma vida cheia de venturas e de prazeres que não passam da superficialidade de uma existência cuja verdade está escondida dos olhos que não querem ver que nem tudo é como se mostra e se parece ver. E é quando comparamos a verdade da nossa tristeza com a mentira da felicidade (re)produzida que julgamos que somos mais tristes.
A nossa impressão de tristeza pode ter muito a ver com um tempo em que todos devem (pelo menos) se afirmar felizes – e “plenos” (pra usar a expressão da moda).
Não por um acaso, são inúmeras as capas de revistas e chamadas de sites que trazem as receitas sobre a carreira exitosa ou do relacionamento ideal, de como ter o casamento de sucesso, do sexo mais ousado e do orgasmo mais intenso (tântrico!). São tantas as fórmulas que garantem que tudo pode se tornar o máximo, que passamos a buscar culpados quando o que temos é a impressão de vivermos o mínimo.
Passa-se a acreditar que a felicidade é uma questão de exterioridades. Que ela vem de fora para dentro, como se uma experiência ou uma companhia tivessem a responsabilidade de mudar a nossa vida e nos provar que todo dia sempre pode ser o melhor dia. Daí, quando aquela companhia “falha” e nos pegamos entediados, frios ou tristes, pensamos que é nela que há a falta do que nos impede de alcançarmos o destino da felicidade.
Não se pode ter um casamento mais ou menos, um namoro que não seja puro fogo, uma amizade que não confidencie o tempo inteiro ou que chateie com aquela verdade que não é todo mundo que tem coragem de dizer e que são poucos os dispostos a ouvir. Não se pode viver uma vida de menos emoções, adrenalinas e saciedade porque a vida foi feita para ser o ápice de todo desejo realizado. E isso, sim, é triste.
É triste não se sentir com o direito de ser triste e ter que sorrir porque todos fazem que sorriem. É triste se acreditar sendo menos só porque se compara com alguém que não se constrange em afirmar que faz sempre mais do que faz. É triste ter que ser feliz e fazer da felicidade objetivo, ao invés daquele momento que “faz valer a pena ter amanhecido”.
É claro que a felicidade existe e pode ocorrer. Mas assim como ela chega, pode ir e ficar ausente por mais tempo do que a gente gostaria. E até isso faz parte. A vida é feita de momentos que a gente se alegra por terem havido quando gente estava ali gostando de gostar. Momentos que passam, mas que permanecem, não como sentimento, mas como a memória de que é possível sentir.
Alguém disse que permanecer feliz é possível, muita gente acreditou e, agora, quando comparam com sua vida de verdade, vivem sob o peso de um fracasso que nem tem. Por isso que não é preciso lamentar a tristeza e nem se disfarçar de feliz. Basta ser o que é, no instante em que for e aprender que o mal dura o tempo exato que leva para deixar de ser dor. E dor é o que não falta no mundo (não importa quão feliz todos precisem se mostrar).
No mais, a felicidade também há. E, porque há, haverá. E naturalmente. Sem pressa e sem pressão. Sem que tenha que ser, mas mesmo assim simplesmente sendo... feliz.  

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Sobre quando se é triste por ter muitos, mas não ter ninguém


É século XXI e as fronteiras caíram e as distâncias parecem cada vez mais irrelevantes. É esse tempo em que posso conversar por vídeo com quem está a milhares de quilômetros de mim e me carregar da sensação de que somos próximos e estamos perto e, apesar disso, me sentir cada vez mais só.
É quando posso manter diferentes conversas simultâneas com as mais variadas pessoas, tratar dos mais variados assuntos, ocupar os mais variados vazios e, mesmo assim, me sentir cada vez mais só.
É quando me torno mais uma dessas pessoas possíveis, dessas que mesmo que sejam mais os que lhes procurem, por mais que sejam muitos e tantos os que lhes perguntam um “Oi. Tudo bem?” e, mesmo despeito de tanta atenção, ainda me sentir relegado a uma solidão que me faz me sentir cada vez mais só.
Posso estar em contato com o mundo, me inserir no contexto de muitos e vários mundos e, neles (e com eles), interagir com a intimidade aparente de quem se conforta com essa aparência... e ainda não entender de onde vem essa impressão cheia da certeza de que sou só.
E daí, talvez, esteja descrevendo um cenário bastante comum do mundo atual. Um mundo em que temos várias possibilidades de nos ligarmos a várias pessoas de uma vez sem que precisemos nos mover, mas que, ainda que haja essas possibilidades muitas, a mesma quantidade é proporcional ao tamanho da falta que faz um contato real, desses que, sem perceber, a gente dispensa e evita há tanto que até sente falta, mas já nem lembra como é.
Porque a vida passa a ser uma vida de inúmeras possibilidades e são essas várias possibilidades que nos impedem de estarmos onde temos para estar. A possibilidade de conversar com várias pessoas a partir de uma tela de telefone (ou de computador), pode acabar tornando desinteressante falar com aquela única de carne e osso, afeto e perfume que tenho na minha direção. Quando começo a me acostumar a fechar janelas de conversas ou simplesmente fazer de conta que não estou “na linha” – ou mesmo bloquear quem me cansa de tanto me procurar – sinto-me com um poder tal que, com isso, talvez não perceba o risco de também passar evitar quem me é relevante e que, certamente, poderia me alegrar (de verdade).
A vida que deveria ser uma realidade alegre se torna uma virtualidade triste e enganosa onde a nossa desatenção nos faz crer que avatares correspondem às verdades que não nos explicam e que o mundo em que não nos veem é atraente justamente porque saberão só o pouco que nos for dado lhes revelar (ou disfarçar, ou distorcer).
A vida vivida na virtualidade dos “encontros sem se encontrar” não passa de uma vida vivida desde detrás de um escudo que cobre quem tem medo de se deixar afetar. Uma vida mais segura porque aprisionados num mundo de faz-de-conta em que podemos ser heróis, mocinhos (por que não vilões?) e nos acharmos relevantes. Uma vida de um faz-de-conta de quem logo pensa ter algum significado aos olhos daqueles que a gente acha que nos sabem, mas que na verdade nem nos olham, nem nos veem. A gente se ilude com essa vida vivida cheia de escudos que nos separam do que poderia significar o fim de uma tristeza que vem de não entendermos por que é que parece que temos tantos ao nosso redor e, ainda assim, na hora que mais precisamos, olhamos em volta e não descobrimos, não vemos e nem temos ninguém.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Viver o que é pra ser vivido

Já reparou como a gente dificulta a própria vida? É tanto medo que aprisiona a gente que a gente acaba deixando de fazer tanta coisa que tem vontade e de viver tanta vida que poderia e, daí, passa anos sem entender por que sorri menos do que gostaria ou por que parece não entender o sentido de tantas cores numa vida que se mostra sempre cinza.
A gente acaba tendo medo de ficar triste. Depois, quando menos espera, se pega com medo de ficar alegre (porque vai que daqui a pouco se acostuma com a alegria e precisa conviver com a tristeza) e o resultado disso é um mau costume de se esconder dos sentimentos. E se esconder do que a gente sente é se esconder da gente.
A vida está aí. Está posta. Está dada. Mas a vida é pra quem tem coragem de se permitir viver. Claro que dá pra passar por ela sem essa coragem. É quando você não vai fazer o que quer e vai ignorar os teus desejos. Nesse caso, não se dirá que você viveu a vida. Dir-se-á que, no máximo, você foi vivido por ela. Porque não fez acontecer, mas foi fazendo conforme ia acontecendo. E isso é péssimo.
Não devemos nos esconder do que a vida tem pra oferecer. Não! Viver poder ser divertido, apesar das dores, dos desencontros, dos dias em que nada dá certo, em que aquela pessoa não te liga ou não te atende, que aquela proposta não se realiza ou que aquela ideia que parecia brilhante se mostra terrível. Sempre vem o outro dia, o novo encontro com a mesma ou com uma nova pessoa, a nova ideia, a melhor proposta e daí você nem lembra que um dia ficou triste porque o dia não aconteceu.
A vida é pra viver o que na vida se tem pra viver (dessa vida). A vida é pra quem está querendo a vida. É pra quem não tem problema em se jogar no desconhecido e pra quem não precisa saber se no final vai ter onde encostar. É pra quem curte o caminho e não se ocupa só da chegada. É pra quem entende que todo dia presente não é presente por acaso. A vida não é repetição, mas a novidade pra quem tem a sensibilidade de entender que daqui a pouco tudo muda e, portanto, o efêmero é o que dá gosto e só o que é eterno é que é ilusão. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Desejo e ação: entre o querer e o precisar

A vida tem dessas coisas. Às vezes a gente pensa demais e faz de menos, às vezes pensa de menos e acaba fazendo demais e, de um jeito ou de outro, acaba se arrependendo de algo. Algumas vezes se arrepende do que fez, outras se arrepende de não ter vivido.
Mas até que ponto vale a pena ter dúvida sobre o que se deve viver?
Certamente haverá quem diga que há aqueles que vivem a vida “fazendo o que é preciso que se faça”. Mas até esses parece que fazem o que é preciso que se faça para alcançar um resultado que tenham previsto ou desejado. Digo isso porque, a mim, parece que sem desejo não pode haver ato, não pode haver ação.
E isso se aplica a tudo na vida. Desde o encontro de um casal até você renunciar algum prazer em nome de uma realizAÇÃO, deve-se sempre partir do entendimento do que se quer. Deve se saber que quer e entender o quanto quer para que, então, faça o que “tem que fazer”.
Talvez isso explique tanta gente se sentindo presa, como se não conseguissem sair do lugar, sentindo-se sem forças para reagir, para fazer o mínimo que parece necessário para realizarem pelo menos o mínimo que lhes é exigido dentro da rotina a que têm aderido e em que se têm sucumbido: muitos vivem o que precisam viver, mas não o que querem viver.
Quando penso no que pode deixar a vida mais pesada, mais enfadonha, menos ou nada prazerosa, sempre me ocorre essa disputa entre “querer e precisar”. É claro que precisamos “batalhar nossa (sobre)vivência”, mas até que ponto é por isso que acabamos estagnados no medo de não conseguir o que queremos e que, então, “nos (des)contentamos” com aquilo que nos ocupa os dias sucessiva e incessantemente?
Vale a pena ficar preso no que não gosta, no que não satisfaz, no que não acrescenta vida – mas tira vida – só porque paga as contas? Será que somos tão incapazes de conseguir algo próximo do que já temos, mas vivendo algo que verdadeiramente queremos, de modo que não precisemos mais lutar contra a falta de vontade de sair da cama, de casa, de sair da gente (porque viver isso é tão ruim que nem mesmo a gente está onde o corpo precisa estar e, por isso, até a alma se recusa permanecer)?
O que precisamos fazer para termos a vida que queremos? Se é para fazer o que é preciso, que seja para algo que vá além desse, simplesmente, “preciso”. Se é para renunciar alguns prazeres, que seja em nome do que, realmente, venha a dar prazer. Prazer de verdade. Prazer duradouro, que satisfaça, que complete, complemente. Que justifique! Se é para sentir a dor da renúncia, que a renúncia tenha razão; se é pra sentir o peso do arrependimento, que ele venha de não ter conseguido o que se tentou quando se quis, mas nunca que ele venha daquilo que não se teve coragem de admitir que queria pelo medo do julgamento que viria de quem te soubesse ou que viria se você não conseguisse.
Não existe motivo pra ficar preso naquilo que não é o que você se quer. Não existe motivo pra ficar patinando sem sair do lugar que não te pertence. Não existe motivo pra ficar com medo de não conseguir o que se deseja. O que não pode é abandonar o sonho que sonha à sorte que não depende de você. A vida foi dada para ser vivida. Então é hora de tratar de viver.