sexta-feira, 9 de junho de 2017

Será que toda dor é igual?

Penso que há algumas dores que porque piores que outras dores, são dores que escolheríamos não doer. São aquelas dores que nos mostram demais. Dores que revelam uma essência que nos expõe para muito além do que nos mostramos (até mesmo para nós mesmos). São dores que a gente não sabe onde moram na gente, nem desde quando ou por que nasceram, mas que de repente disparam e doem até que o que nos acomete é a vergonha de quem sabe que não tem razão pra sofrer o que sofre, nem pra se queixar do que não parece motivo, mas que mesmo assim se percebe abatido por tudo o que tantas vezes não tem nada a ver com o que dependa de si.
Há quem defenda que a dor é um inteligente mecanismo de defesa do corpo que garante que ele se defenda do que poderia lhe degenerar. É quando se sente a dor que se retira a mão do que queima ou se ergue os pés do que rala ou que pisca os olhos antes do encontro que pode cegar. Talvez a dor realmente seja um mecanismo de defesa inteligente das emoções contra novas emoções. Porque a dor faz a gente tatear com cuidado o espaço em que se atiraria imprudente, impenitente pelo simples prazer de gozar o prazer que se revela novo, bom e farto. Porque a dor faz a gente pisar no freio e olhar o caminho que seguia com pressa e em festa, quando nem pensava em fazer questão de se cuidar.
Parece que a dor nos devolve a realidade da gente.  O que não quer dizer que ela é válida, o que não quer dizer que isso é bom. Ela busca uma segurança que não existe ou uma certeza que não se pode (nem se deve) ter para se afirmar sobre um fundamento covarde de quem se engana nas verdades que se cria (e nas histórias também) e, em tudo, recria contextos de sofrimento que, descuidados, abafam momentos de contentamento só porque um instante dessa dor pode sugerir que tudo o que foi não era; que quem se pensava, não é.
E se não cuidamos, afundamos a nós mesmos nessa dor. E também a tudo (e a todos os) que vivem conosco aquilo que é bom, mas que dá medo (dá medo porque é bom). Ficamos tanto tempo imersos numa expectativa ruim, num pressentimento de que a qualquer momento virá a surpresa que não será boa, a revelação de que tudo não passara do que no fundo a gente sempre soubera ou que não era nada daquilo que a gente sempre pensara, que acabamos desvivendo tudo o que vivemos ou não vivendo o muito do bom que havia pra se ter vivido.
Viramos o eterno boicote da nossa própria felicidade pelo antigo medo de se saber feliz.
E daí também a dor. Há dor. Ah!, dor. Não parecemos grandes – como parece que é normal se querer grande – quando nossas questões parecem tão pequenas e relegadas à mesquinhez de um acontecimento que só interessa quando aconteça como seja perfeito. E só. E se acusamos a dor que nos dói, parece que diminuímos mais na pequeneza em que a dor já nos põe, já nos faz. Então tentamos calar essa dor em nome de um silêncio que não é menos tristeza, mas apenas a garantia de que logo erraremos o erro que vai garantir que fiquemos sozinhos o tempo exato de uma vida inteira desfeita de amor.
Você já parou de ouvir tua dor?

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Aquele encontro... (aquele que a gente espera e que um dia vem - ou que um dia veio)

Tem gente que a gente gosta primeiro e vai entender o porquê só depois.
Sabe quando você conhece do nada ou até já queria conhecer, mas não sabia bem o que esperar? É mais ou menos isso. Você se pega vivendo aquele instante de descoberta do outro, tentando entender o que te delicia naquela presença que até pouco antes você sabia pouco (talvez nada ou quase nada), mas que desde então você sente que não se importa em aprender muito.
E é daí que começa a querer entender se é o jeito dele ou dela falar sorrindo, ou aquele sotaque quase cantado. Se de repente é o jeito mais debochado de quem não faz questão de se levar a sério ou os olhos que te olham tão intensos que você chega a acreditar que não é só você quem gosta do que está acontecendo. Tudo parece tão melhor do que era antes de ser, que logo chega a achar que já é aquele momento que nem te sabia possível: o de um encontro novo que vive como se sempre tivesse havido.
Você se descobre o ouvinte que nunca se soube e o falante que sempre evitou. Ouve do outro suas melhores histórias, ri delas, tem toda a sua atenção voltada a única pessoa que te interessa e que acabou de vir dentre as outras tantas – as outras várias – que nunca te interessaram. Na verdade, você vive o momento em que já nem tem por que se lembrar de que outra alguém te interessou.
O vinho que pedem é sorvido a doses de palavras que te vão para muito além dos ouvidos e quando é a sua vez de falar, cada meneio de cabeça, cada sorriso de confirmação ou aceno de surpresa é como uma vitória que você comemora só consigo, mas que te indica que o horóscopo acertou quando indicou uma quadratura lunar que te traria uma nova emoção.
Escuta de quando ela morou fora, dos planos de fazer jornalismo até a escolha de voltar pra casa, de como gosta da poesia do Neruda, da música do Caetano, da letra daquela música que ninguém conhece, mas ela, inquieta e que gosta do novo, descobriu (garimpou!) e, ao mesmo tempo, se pega se perguntando quando é que você é que terá o que seja tão interessante de dizer, perto do tanto que está gostando de escutar.
Se a hora não para – e nessas horas ela voa! – logo a conta do restaurante chega junto da hora própria de andarem um pouco sob um luar que testemunha um querer de que você é o único que acha que ainda é preciso disfarçar ou confessar. As mãos se encontram, turvam-se às vistas para tudo o que não seja quem você tem - e que também só vê você e nada além - e como se fosse a coisa mais certa, abraça o corpo que já quer para o seu corpo.
Há um gracejo sobre um batom que se sair não vai ter como retocar, mas nem isso importa mais. Esse momento é aquele em que o mundo em volta fica pequeno pra'quele tanto de contentamento estranho. Sim, estranho. Todo novo. E que parece mais que simplesmente pele – apesar de também ser muito sobre pele. As bocas se querem tão perto quanto a respiração que já acelera igual.
Quando se têm, tudo o que querem é não deixar de se terem e vão deixando a vontade assumir o controle do que virá. Pode ser parado na porta de uma das casas, pode ser chamando pra entrar, mas o que se sabe é que o presente está ali sendo aberto e sendo vivido, fazendo um sentido que anos depois você se lembrará e não terá qualquer dúvida de que agora entende o que houve naquele dia, naquele instante... lá.
E vai sorrir feliz porque seja lá qual foi o rumo da vida, você vai ter sempre esse belo dia da vida para o qual voltar.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

É triste ter que ser feliz

É gente demais acreditando que é feliz “de menos” porque fica se comparando com uma série de inverdades pregadas por quem quer dizer que a vida é vivida segundo receitas que garantem que a tristeza é coisa de quem não tem a atitude correta.
Vivemos uma era em que ser feliz é uma exigência. É o que tem que ser, o que deve acontecer, é o que não pode faltar. Se falta, não acontece ou se não é, deve-se abandonar o que há e buscar o novo que satisfaça porque é preciso provar da fé de que a felicidade é a única opção.
É tanta pressão para ser feliz que a gente disfarça. Começa a se mostrar sorrindo, gostando, gozando de uma vida cheia de venturas e de prazeres que não passam da superficialidade de uma existência cuja verdade está escondida dos olhos que não querem ver que nem tudo é como se mostra e se parece ver. E é quando comparamos a verdade da nossa tristeza com a mentira da felicidade (re)produzida que julgamos que somos mais tristes.
A nossa impressão de tristeza pode ter muito a ver com um tempo em que todos devem (pelo menos) se afirmar felizes – e “plenos” (pra usar a expressão da moda).
Não por um acaso, são inúmeras as capas de revistas e chamadas de sites que trazem as receitas sobre a carreira exitosa ou do relacionamento ideal, de como ter o casamento de sucesso, do sexo mais ousado e do orgasmo mais intenso (tântrico!). São tantas as fórmulas que garantem que tudo pode se tornar o máximo, que passamos a buscar culpados quando o que temos é a impressão de vivermos o mínimo.
Passa-se a acreditar que a felicidade é uma questão de exterioridades. Que ela vem de fora para dentro, como se uma experiência ou uma companhia tivessem a responsabilidade de mudar a nossa vida e nos provar que todo dia sempre pode ser o melhor dia. Daí, quando aquela companhia “falha” e nos pegamos entediados, frios ou tristes, pensamos que é nela que há a falta do que nos impede de alcançarmos o destino da felicidade.
Não se pode ter um casamento mais ou menos, um namoro que não seja puro fogo, uma amizade que não confidencie o tempo inteiro ou que chateie com aquela verdade que não é todo mundo que tem coragem de dizer e que são poucos os dispostos a ouvir. Não se pode viver uma vida de menos emoções, adrenalinas e saciedade porque a vida foi feita para ser o ápice de todo desejo realizado. E isso, sim, é triste.
É triste não se sentir com o direito de ser triste e ter que sorrir porque todos fazem que sorriem. É triste se acreditar sendo menos só porque se compara com alguém que não se constrange em afirmar que faz sempre mais do que faz. É triste ter que ser feliz e fazer da felicidade objetivo, ao invés daquele momento que “faz valer a pena ter amanhecido”.
É claro que a felicidade existe e pode ocorrer. Mas assim como ela chega, pode ir e ficar ausente por mais tempo do que a gente gostaria. E até isso faz parte. A vida é feita de momentos que a gente se alegra por terem havido quando gente estava ali gostando de gostar. Momentos que passam, mas que permanecem, não como sentimento, mas como a memória de que é possível sentir.
Alguém disse que permanecer feliz é possível, muita gente acreditou e, agora, quando comparam com sua vida de verdade, vivem sob o peso de um fracasso que nem tem. Por isso que não é preciso lamentar a tristeza e nem se disfarçar de feliz. Basta ser o que é, no instante em que for e aprender que o mal dura o tempo exato que leva para deixar de ser dor. E dor é o que não falta no mundo (não importa quão feliz todos precisem se mostrar).
No mais, a felicidade também há. E, porque há, haverá. E naturalmente. Sem pressa e sem pressão. Sem que tenha que ser, mas mesmo assim simplesmente sendo... feliz.  

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Sobre quando se é triste por ter muitos, mas não ter ninguém


É século XXI e as fronteiras caíram e as distâncias parecem cada vez mais irrelevantes. É esse tempo em que posso conversar por vídeo com quem está a milhares de quilômetros de mim e me carregar da sensação de que somos próximos e estamos perto e, apesar disso, me sentir cada vez mais só.
É quando posso manter diferentes conversas simultâneas com as mais variadas pessoas, tratar dos mais variados assuntos, ocupar os mais variados vazios e, mesmo assim, me sentir cada vez mais só.
É quando me torno mais uma dessas pessoas possíveis, dessas que mesmo que sejam mais os que lhes procurem, por mais que sejam muitos e tantos os que lhes perguntam um “Oi. Tudo bem?” e, mesmo despeito de tanta atenção, ainda me sentir relegado a uma solidão que me faz me sentir cada vez mais só.
Posso estar em contato com o mundo, me inserir no contexto de muitos e vários mundos e, neles (e com eles), interagir com a intimidade aparente de quem se conforta com essa aparência... e ainda não entender de onde vem essa impressão cheia da certeza de que sou só.
E daí, talvez, esteja descrevendo um cenário bastante comum do mundo atual. Um mundo em que temos várias possibilidades de nos ligarmos a várias pessoas de uma vez sem que precisemos nos mover, mas que, ainda que haja essas possibilidades muitas, a mesma quantidade é proporcional ao tamanho da falta que faz um contato real, desses que, sem perceber, a gente dispensa e evita há tanto que até sente falta, mas já nem lembra como é.
Porque a vida passa a ser uma vida de inúmeras possibilidades e são essas várias possibilidades que nos impedem de estarmos onde temos para estar. A possibilidade de conversar com várias pessoas a partir de uma tela de telefone (ou de computador), pode acabar tornando desinteressante falar com aquela única de carne e osso, afeto e perfume que tenho na minha direção. Quando começo a me acostumar a fechar janelas de conversas ou simplesmente fazer de conta que não estou “na linha” – ou mesmo bloquear quem me cansa de tanto me procurar – sinto-me com um poder tal que, com isso, talvez não perceba o risco de também passar evitar quem me é relevante e que, certamente, poderia me alegrar (de verdade).
A vida que deveria ser uma realidade alegre se torna uma virtualidade triste e enganosa onde a nossa desatenção nos faz crer que avatares correspondem às verdades que não nos explicam e que o mundo em que não nos veem é atraente justamente porque saberão só o pouco que nos for dado lhes revelar (ou disfarçar, ou distorcer).
A vida vivida na virtualidade dos “encontros sem se encontrar” não passa de uma vida vivida desde detrás de um escudo que cobre quem tem medo de se deixar afetar. Uma vida mais segura porque aprisionados num mundo de faz-de-conta em que podemos ser heróis, mocinhos (por que não vilões?) e nos acharmos relevantes. Uma vida de um faz-de-conta de quem logo pensa ter algum significado aos olhos daqueles que a gente acha que nos sabem, mas que na verdade nem nos olham, nem nos veem. A gente se ilude com essa vida vivida cheia de escudos que nos separam do que poderia significar o fim de uma tristeza que vem de não entendermos por que é que parece que temos tantos ao nosso redor e, ainda assim, na hora que mais precisamos, olhamos em volta e não descobrimos, não vemos e nem temos ninguém.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Viver o que é pra ser vivido

Já reparou como a gente dificulta a própria vida? É tanto medo que aprisiona a gente que a gente acaba deixando de fazer tanta coisa que tem vontade e de viver tanta vida que poderia e, daí, passa anos sem entender por que sorri menos do que gostaria ou por que parece não entender o sentido de tantas cores numa vida que se mostra sempre cinza.
A gente acaba tendo medo de ficar triste. Depois, quando menos espera, se pega com medo de ficar alegre (porque vai que daqui a pouco se acostuma com a alegria e precisa conviver com a tristeza) e o resultado disso é um mau costume de se esconder dos sentimentos. E se esconder do que a gente sente é se esconder da gente.
A vida está aí. Está posta. Está dada. Mas a vida é pra quem tem coragem de se permitir viver. Claro que dá pra passar por ela sem essa coragem. É quando você não vai fazer o que quer e vai ignorar os teus desejos. Nesse caso, não se dirá que você viveu a vida. Dir-se-á que, no máximo, você foi vivido por ela. Porque não fez acontecer, mas foi fazendo conforme ia acontecendo. E isso é péssimo.
Não devemos nos esconder do que a vida tem pra oferecer. Não! Viver poder ser divertido, apesar das dores, dos desencontros, dos dias em que nada dá certo, em que aquela pessoa não te liga ou não te atende, que aquela proposta não se realiza ou que aquela ideia que parecia brilhante se mostra terrível. Sempre vem o outro dia, o novo encontro com a mesma ou com uma nova pessoa, a nova ideia, a melhor proposta e daí você nem lembra que um dia ficou triste porque o dia não aconteceu.
A vida é pra viver o que na vida se tem pra viver (dessa vida). A vida é pra quem está querendo a vida. É pra quem não tem problema em se jogar no desconhecido e pra quem não precisa saber se no final vai ter onde encostar. É pra quem curte o caminho e não se ocupa só da chegada. É pra quem entende que todo dia presente não é presente por acaso. A vida não é repetição, mas a novidade pra quem tem a sensibilidade de entender que daqui a pouco tudo muda e, portanto, o efêmero é o que dá gosto e só o que é eterno é que é ilusão. 

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Desejo e ação: entre o querer e o precisar

A vida tem dessas coisas. Às vezes a gente pensa demais e faz de menos, às vezes pensa de menos e acaba fazendo demais e, de um jeito ou de outro, acaba se arrependendo de algo. Algumas vezes se arrepende do que fez, outras se arrepende de não ter vivido.
Mas até que ponto vale a pena ter dúvida sobre o que se deve viver?
Certamente haverá quem diga que há aqueles que vivem a vida “fazendo o que é preciso que se faça”. Mas até esses parece que fazem o que é preciso que se faça para alcançar um resultado que tenham previsto ou desejado. Digo isso porque, a mim, parece que sem desejo não pode haver ato, não pode haver ação.
E isso se aplica a tudo na vida. Desde o encontro de um casal até você renunciar algum prazer em nome de uma realizAÇÃO, deve-se sempre partir do entendimento do que se quer. Deve se saber que quer e entender o quanto quer para que, então, faça o que “tem que fazer”.
Talvez isso explique tanta gente se sentindo presa, como se não conseguissem sair do lugar, sentindo-se sem forças para reagir, para fazer o mínimo que parece necessário para realizarem pelo menos o mínimo que lhes é exigido dentro da rotina a que têm aderido e em que se têm sucumbido: muitos vivem o que precisam viver, mas não o que querem viver.
Quando penso no que pode deixar a vida mais pesada, mais enfadonha, menos ou nada prazerosa, sempre me ocorre essa disputa entre “querer e precisar”. É claro que precisamos “batalhar nossa (sobre)vivência”, mas até que ponto é por isso que acabamos estagnados no medo de não conseguir o que queremos e que, então, “nos (des)contentamos” com aquilo que nos ocupa os dias sucessiva e incessantemente?
Vale a pena ficar preso no que não gosta, no que não satisfaz, no que não acrescenta vida – mas tira vida – só porque paga as contas? Será que somos tão incapazes de conseguir algo próximo do que já temos, mas vivendo algo que verdadeiramente queremos, de modo que não precisemos mais lutar contra a falta de vontade de sair da cama, de casa, de sair da gente (porque viver isso é tão ruim que nem mesmo a gente está onde o corpo precisa estar e, por isso, até a alma se recusa permanecer)?
O que precisamos fazer para termos a vida que queremos? Se é para fazer o que é preciso, que seja para algo que vá além desse, simplesmente, “preciso”. Se é para renunciar alguns prazeres, que seja em nome do que, realmente, venha a dar prazer. Prazer de verdade. Prazer duradouro, que satisfaça, que complete, complemente. Que justifique! Se é para sentir a dor da renúncia, que a renúncia tenha razão; se é pra sentir o peso do arrependimento, que ele venha de não ter conseguido o que se tentou quando se quis, mas nunca que ele venha daquilo que não se teve coragem de admitir que queria pelo medo do julgamento que viria de quem te soubesse ou que viria se você não conseguisse.
Não existe motivo pra ficar preso naquilo que não é o que você se quer. Não existe motivo pra ficar patinando sem sair do lugar que não te pertence. Não existe motivo pra ficar com medo de não conseguir o que se deseja. O que não pode é abandonar o sonho que sonha à sorte que não depende de você. A vida foi dada para ser vivida. Então é hora de tratar de viver. 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Ninguém pode dar o que não tem

Temos sonhos. Temos quereres, vontades que nos surgem de fantasias, fantasias que nos surgem de vontades. Temos aquilo que queremos e que lamentamos quando não é o que vivemos. E o outro que seja nosso do jeito que lhe pensamos é um dos quereres mais duros dentre todos os quereres que ansiamos.
A idealização é própria da vida. Por melhor que seja a vida que a gente vive, a relação que a gente vive, os encontros e reencontros que a gente vive, sempre há espaço pra que nossa imaginação se solte da nossa realidade e busque essa idealidade de dias e de gentes que sejam tudo aquilo que não é o nosso real.
É quando pensamos que o sexo pode ser melhor do que o que transamos, que a conversa pode ser mais interessante que aquela em que cansamos, que a atitude pode ser mais divertida ou romântica ou animada do que aquela que assistimos, compartilhamos, presenciamos e... lamentamos.
Tudo porque somos levados a pensar que a melhor vida é a vida que pretendemos e não a vida que nos é dada viver. Tudo porque acreditamos que o melhor "outro" é aquele que se encaixa na nossa fôrma e se conforma tal qual aquilo que pensamos que ele deve ser e, daí, achamos que é melhor não perder tempo caso ele nos mostre (ou pensemos perceber) que ele não é.
Buscamos quem seja quem queremos, mesmo quando não estamos dispostos a ser para o outro, a idealidade que ele se permitiu ver em nós. Sim, porque a nossa atitude mais comum é a de desdenharmos do outro que nos pretenda diferente de quem somos, ainda que, no nosso íntimo, desejemos sua transformação em quem queremos.
Grande erro.
Não é bom que se deseje que o outro mude ou se encaixe ao que queremos, mas sim, entendermos que há o que agrada tanto quanto haverá o contrário e que isso faz parte. Também é errado esperarmos que o outro haja segundo o que nos é querido que ele haja e seja e fale e faça do jeito exato que queremos ouvir e receber.
Uma coisa é o que se espera que o outro faça, outra é o que ele tem condição de fazer.
Cada um só pode dar o que tem, o que recebeu, o que aprendeu daquilo que a vida ensinou. E isso cabe ao outro, mas também a nós.
A verdade é que a convivência de espírito aberto, molda. Aproxima quem se quer perto e entende que não é um projeto acabado, mas sim, um constante “vir a ser”. Que o organizado organiza o desorganizado ao mesmo tempo que o desorganizado lhe ajuda a relaxar. Que o animado pode incutir ânimo no tímido e mais triste, dando-lhe motivos pra rir ou gargalhar enquanto aprende a vantagem de ser contido nos momentos em que a vida demandar. Que o voluptuoso pode ajudar o encabulado a entender seus anseios e impulsos e a delícia do gozo da vida, quando também aprende que nem todo momento é pra ousadia, mas, em alguns, a hora é de concentrar na vida, no que quer e no que precisa e fazer por onde chegar.
Mas é claro que tudo isso depende da única inteligência de que a vida precisa de gente aberta a receber mais do que cobrar e que vale a pena receber tanto quanto sempre será bom correr o risco que vem da vontade de se dar. 

quinta-feira, 16 de março de 2017

Se ferir é inevitável quando o assunto é viver. Mas e daí?

Porque muitas vezes a gente fica tempo demais parado lamentando tudo o que não fez, todo o tempo que passou, cada encontro que perdeu e, nisso, vai só acumulando mais instantes não vividos pra lamentar depois.
A vida tem esse jeito estranho de marchar pra frente num ritmo que nem sempre é a gente que dita, mas em relação ao qual a gente também não precisa simplesmente se conformar. É tudo uma questão de assumir a responsabilidade por tudo o que fez, desfez e não fez e, então, tocar em frente.
E tudo isso sem maiores medos. Já dizia o cronista esportivo: “o medo de perder tira a vontade de ganhar”. Quantas vezes a gente fica se escondendo do que pode vir a ser, justamente por medo de que isso que venha a ser? Alguns com medo da frustração, outros com medo que dê certo e que, daí, não saiba – ou não tenha mais – o que fazer (para muitos, às vezes a ilusão é mais interessante que o mundo real). Com esse medo todo, é como se sentir dor fosse um problema ou se ferir fosse apenas um ruim de onde não venha nada de bom.
Antes de mais nada: se ferir é, sim, inevitável se quiser jogar esse jogo da vida. Mas e daí? Não jogá-lo parece uma opção bem pior. E digo mais: não tem por que deixar que uma tristeza tire a vontade (nem a coragem) de se sentir feliz. Nem que uma dor ou uma lágrima impeçam que se abra aquele sorriso que sorri até com o olhar.
Mas seja como for, é vida vivendo e se é que se pode dizer que esse blog tem um lema é o de que “se a vida vive, ela tem mais é que viver; e com a gente ‘vivendo ela’, não ela vivendo a gente”. Vida vivendo com seus risos, sorrisos, gostos, gozos, companhias... mas também com suas dores, tristezas, choros e solidão. O que vier a gente topa e com o que vier é que a gente faz... a gente.
A gente faz aquele instante que deu errado, dar certo; a gente faz aquele encontro que não foi, ser. Se precisar pedir desculpa, a gente reconhece o erro; se precisar desculpar, a gente esquece o erro. Porque a gente entende que a vida não é o que a gente acerta, mas o que a gente faz daquilo que a gente fez.
Ou seja, a gente não espera que tudo dê certo. A gente só não vai passar a vida se importando com o que deu errado. A gente não vai ficar chorando o que não foi ou doendo o que queria que tivesse sido. A gente não vai ficar se arrependendo do tempo investido ou de quem não precisava ter tido (nem sido). Mas também não vai deixar de continuar querendo encontrar, descobrir, conquistar, ter e viver. A gente vai se deixar ousar e não vai se importar se vai doer se um dia, por acaso, vier a perder. Porque com o tempo a gente aprende que não conseguir faz parte, mas que não tentar é morte. E a proposta é de vida! (viva a vida o que tiver pra viver).

segunda-feira, 6 de março de 2017

Às vezes demora entender por que gostou...

Quando a gente se nota cansado de tudo o que houve e percebe uma novidade que agrada seja pelo jeito que surge, seja pelo jeito que é, tende a não se importar com o que pode dar errado. Aposta no melhor momento que parece diferente de tudo que enfada e vai. Vai em frente, vai sem medo de errar a mão quando aposta o sim sem nem pensar que cedo ou tarde essa mesma novidade pode te representar um não.
Não é uma questão de ingratidão com o que a gente tem. Mas é que tem hora que a gente precisa do novo. É aquele momento em que já não sabe quem a gente é naquela díade ou naquele grupo. Isso sou eu, mas também você. Muitas vezes você não sabe se as pessoas estão porque te querem, te precisam ou te toleram e – até por uma questão de hábito – se resguarda sempre na pior impressão. Fica achando que o mundo quer descarregar suas angústias em você e que não há espaço pra que saibam do que te dói e te faz triste e pior no que é e é daí que quer mais do que seja tudo aquilo que é o que você (ainda) não tem. E quando descobre que isso há, gosta. E quando gosta... perigo! Nem todo mundo sabe lidar com os ires e vires do verbo gostar.
Já vivi isso. Isso de não entender o porquê gostava de quem a prudência (talvez devesse chamá-la assim) me dizia não gostar. De me perguntar qual a razão de, tantas vezes tão racional, ter me posto à mercê de uma vontade que não comandava porque não era a minha e tudo o que notei - depois - é que não gostava tanto dela quanto gostava do fato dela ser tudo o que não era quem eu tive, quem eu tinha e nem era o que me vinha nessa perspectiva de um ter constante. De ser a novidade diante de uma vida que já tinha me cansado e de que eu já desistira antes e que vivia num automático triste de quem já sabe o que fazer dois dias depois do dia seguinte porque todos os dias são todos iguais na sua dose de insatisfação. E de repente alguém te quebra os paradigmas de uma rotina e te mostra que há vida onde você não vive, mundo onde você não habita, jeito diferente do teu jeito e tudo o que você deseja é apostar que esse jeito – que não tem sido o teu jeito – pode ser melhor (pelo tempo que seja e se for muito ótimo - se for pouco, pena).
É quando você abre mão de todo um costume, de várias rotinas, muitas pessoas, porque elas representam um antes que você quer deixar no antes. Um passado que você não quer presentificar. Você quer um presente diferente. Quer quem te surge com uma proposta de novidade no jeito de ser como nenhuma outra (pelo menos no começo) e daí nem se importa em se preservar. Não faz questão de ser um cálculo desses exatos que só mostram o seu melhor, o melhor do que nem é, mas que parece conveniente fazer o outro ver até ele se convencer que aquele é o você sem você ser. Você simplesmente quer saber do que vem dessa novidade que te dá prazer de viver a vida que se oferece muito mais bonita e interessante pra você.
E o melhor de tudo isso é que te deixa um bom gosto de ter vivido o que precisava. De ter tido o que você sabe o quanto te concerne e que você pode lembrar sorrindo e não lamentando. Como boa lembrança, um acerto e não como o que preferia não ter. É você saber o porquê de te haver só um bem querer que, se guardar lamento, estará apenas em você não ter sabido fazer saber o quanto o outro lado teve um valor que nem você sabia dizer já que só agora entendeu que gostava daquele instante diferente em que a vida viveu.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Escolher não é pecar

Em dias de pregação de tolerância e respeito às individualidades, não é difícil se perceber que o discurso encampa uma facilidade que a realidade desmente. Aceita-se o outro até onde aquilo que ele faz não nos atinge de algum modo (ainda que indiretamente) e, ofendidos que viemos a ser nas nossas particularidades, logo nos apressamos a apontar-lhe erros que, ao refletirmos serenamente, logo concluímos que ele não tem.
Aliás, me parece que nisso também está amadurecer. Experenciar aquilo que se nos vem, como um caminho pra entendermos que sempre há o que aprender sobre nós mesmos. Muitas vezes pelo outro.
Mas o assunto é escolha. E escolher é viver. E viver, por sua vez, também é escolher. Sempre (e quero crer que não há dúvida que não há outra forma de viver e que até não escolher é uma escolha). Escolher, por sua vez, é perder algo sempre (ao menos matematicamente, na medida em que se há o que se escolher, opta-se pelo um em detrimento de todos outros). Mas quando se escolhe em busca do acerto, com base naquilo que quer, na fé que tem, na esperança e no que acredita, escolher vira apenas exercício de ser dono das circunstâncias que nos fazem livres para sermos responsáveis pela nossa própria forma de ser.
E é, então, que aquele que diz sim ou não, que faz ou evita, que busca ou desiste, cala ou diz, não se faz mais ou menos certo quando escolhe um ou outro: faz-se apenas a si. A quem é e quem pretende ser. Logo, não é dado que lhe julguemos porque nossa expectativa é frustrada diante da escolha que apenas ele poderia fazer por si, porque só quem escolhe o que será a sua vida é que sabe o quanto lhe urge viver. Só quem sente na pele é quem sabe. Só ele é que pode dizer. Mas não precisa.
Escolher é ato sublime. E não é fácil. Muitas vezes dói. Em outras tantas, causa dor (e muitas vezes hesitamos a escolha que queremos por medo da dor que sabemos que causaremos). Quem escolhe merece respeito porque escolheu viver. Escolhe ser quem é e quem se faz e não quem é feito pelo mundo que lhe molde. Escolhe ser quem vive ao invés de ser quem é vivido. Escolheu não ser apenas quem se contenta, mas quem sabe o que quer e não se aquieta antes que alcance. O resto aceita...

sábado, 11 de fevereiro de 2017

No dia do dia dos meus anos...

No dia do dia dos meus anos não havia festa, nem o que festejar 
Cerraram-se sonhos e planos de que já nem me é dado falar.
No dia do dia dos meus anos o que sobrava era o pranto seco que não sabia rolar.

No dia do dia dos meus anos celebravam-se derrotas e desenganos... mil enganos. 
Era a história mais risonha de uma vida medonha de quem não sabe gostar. 
No dia do dia dos meus anos eu não via a hora do dia acabar.

No dia do dia dos meus anos o sol nasceu apagado e a lua surgiu sem luz
Era um dia que não tinha razão de brilhar
No dia do dia dos meus anos macerados éramos o sol, eu e o luar.

No dia do dia dos meus anos havia fúria presente em mim que me queria ausente 
Nada do que havia me fazia contente
Justo no dia do dia dos meus anos descobri que pensava gostar um gostar diferente. 

No dia do dia dos meus anos somei tantos que já não quis nenhum.
O enfado vinha do fado de saber que depois de tantos não gostava de nenhum. 

No dia do dia dos meus anos o que era não foi. E a história aqui se encerra.


02/2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

É tudo instante (ou o porquê de o futuro não ser relevante)

Carpe diem, quam minimum credula postero! Eu não sei o que se passava na vida de Horácio quando ele lançou esse “aproveite o dia e confie o mínimo no amanhã”, mas um pouco de imaginação e a gente traz essa máxima pra nossa própria vida.
O carpe diem já é lugar dos mais comuns. Filosofia presente na boca de muita gente. O mesmo tanto de gente que teme o futuro e perde o presente.
Carpe diem porque a vida é feita de instantes, de momentos. É vivida na hora que acontece e tudo o que se acha que o amanhã pode ser amanhã, não passa de ilusão, talvez um tipo de mentira que se conta a si mesmo ou até um pretexto. É escudo que se quer protegendo de doer. Pensamos tanto no que pode ser que ele até acaba sendo, mas mais porque nos guiamos para ser ou ter aquilo que não queremos. E perdemos. Aliás, é justamente por não cuidarmos do agora e fantasiarmos tanto o antes e o amanhã que nós acabamos mais perdendo do que ganhando na vida.  Sem contar as várias vezes que a gente desiste de ganhar aquilo que dá medo de perder.
Carpe diem porque ser feliz, amar e querer viver é tudo questão de agora. Essa página não tem a pretensão de ser professoral. Pelo contrário. Mas eu vou me permitir falar daquele que acho o filósofo mais legal: Baruch Spinoza. E, sobre ele, apenas uma simples ideia: a felicidade vem do que te afeta no instante em que acontece e te faz se sentir mais cheio de vida. Ser feliz é sentir a vida ganhando vontade de viver na hora em que acontece o que te faz querer viver e continuar vivendo. Felicidade é presente. Não está no passado e nem no amanhã, mas no agora.
Mais um filósofo pra somarmos a Spinoza e encerrarmos por aqui? Agostinho de Hipona. Nele, todo o tempo é presente. A lembrança é quando eu trago pro agora – portanto, para o presente – a memória que eu quero; ao mesmo tempo, o futuro é quando eu vivo, no presente, a expectativa do que não é (que pode ser esperança ou desesperança). Mas enquanto a esperança enche de vida e faz querer viver, a desesperança logo entristece e faz desistir.
Toda felicidade, toda paixão, toda gratidão se deve ao momento. Geralmente é comum nos assustarmos com a paixão (nossa e por nós) porque tendemos a não entender de onde saiu, se é de verdade ou mero exagero, mas a verdade é que quando alguém diz que ama ou que sente a paixão ou o que seja que sente, não precisa ser (e de ordinário não é) uma proposta de futuro ou mesmo esse algum exagero. Ama porque o encontro é favorável, porque aquele dia juntos é bom, aquele toque com que se tocam é bom, a risada é boa ou aquela companhia pra uma simples caminhada. É porque quando se encontram se afetam um ao outro e se afetam positivamente. Se querem bem e fazem bem. Se fazem felizes, cheios, plenos e não querem que acabe. Amam a vida que se lhes soma naquele momento e amam o momento. E daí também amam quem lhes proporciona a experiência de viverem aquele momento ainda mais vivos de contentamento.
Eu tinha dito que chegava de filósofos, mas cabe mais um: Nietzsche vai nos ensinar o eterno retorno. Aquele instante que fez feliz e que de lembrar faz sorrir e faz gostar é aquele instante que a gente não quer que acabe, mas que, quando acaba, a gente se pega pronto pra voltar. E mesmo isso não é apostar no passado. Não se trata do passado. Mas do agora enquanto o único tempo que se tem. No fim, é dizer dane-se aos medos do futuro porque entendeu que tudo o que a vida deu é presente.
“Ou, então, como terias de ficar de bem contigo e mesmo com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?"[1]




[1] Nietzsche – A Gaia ciência

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

São circunstâncias...

Nem sempre o amanhã explica ou justifica o ontem. Muitas vezes apenas o ontem explica o ontem. Apenas o ontem explica aquela falta de sorriso, de entusiasmo, de alegria... de vida. São faltas que muitas vezes surgem enquanto reflexos de um instante em que o mundo está nublado, em que o futuro (as próximas horas) está sombrio e por mais que você queira dividir com quem te ajude, calar dá menos medo do que se revelar.
Nem sempre o amanhã explica, mas é ele quem paga. Ele paga quando vira hoje e descobre o preço que o ontem acumulou. E não é dizer que somos fiadores de nós mesmos. Na roleta da vida somos os devedores: nossos e dos outros. Porque se é verdade que “a gente leva da vida a vida que a gente leva”, no mais das vezes é a vida que leva da gente a vida que a gente teve (quando teve). E é assim porque temos medo. Porque somos reticentes. Porque queremos entender antes de fazer. Queremos saber antes de viver. Queremos ter antes do ceder. E, então, devemos...
Nem sempre o amanhã justifica, mas sempre temos nossas razões (muito embora elas nem sempre tenham razão). Mas a vida é dessas engrenagens que funcionam quando se ligam em outras e juntas vão se completando numa ciranda que se quer gostosa, mas que não se livra de ser dolorosa. E ninguém quer dor. Onde há espaço pra descontentamento numa vida que se entende saber o ritmo certo de se caminhar com o próprio andor? Onde há espaço para recomeços onde o novo começo novo parece tão facilitado e tão mais coerente pra quem só é preso a si mesmo por falta de outra opção?
Nem sempre o amanhã justifica, mas quando ele vira hoje dói não poder desfazer os vários “ontem”. Mas o ontem foi como foi e se ele é imperdoável (e suficiente para que não haja perdão) é porque a razão não tem importância e é quando corremos o risco de só gostar de quem acerta. Eis que vem a impressão de que crescer é aprender que ser gostado é o que retorna – não em reciprocidade, mas sim na verdade de quem vê o outro como ele é e não como gostaria que ele fosse.
Somos frutos das nossas circunstâncias tanto quanto aquilo que fazemos ou deixamos de fazer nem sempre é resultado de quem somos, mas muitas vezes de quem estamos. E se não estivemos bem, não quer dizer que logo não estaremos e, então, faremos bem e seremos melhores. Afinal, é o que importa: que a balança pese a favor e que mostre que se não é perfeito não é por falta de vontade de acreditar que é dono de seu próprio valor.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Tempo de fazer feliz

Uma das minhas preocupações de ano novo (e vejam a que ponto cheguei: se outrora fazia resoluções de ano novo, pego-me, agora, em meio a preocupações de ano novo) é com o excesso de mau humor e de rancor que parecem estar tomando conta de grande parte das pessoas. Se é que posso tomar as redes sociais como termômetro para uma amostra “meio generalizada” da sociedade, apontaria indivíduos cada vez mais armados uns contra os outros, prontos para dispararem suas raivas, seus ódios, descarregarem toda a sua frustração contra quem quer que seja. E não consigo acreditar que façam isso por prazer. Enxergo mais uma necessidade, uma compulsão, do que uma liberalidade de quem pensa “hoje é dia de fazer mal”. Imersos na frustração que muitas vezes nem sabem que têm, detratam e distratam o outro porque só na tentativa de diminuir um é que conseguem a fantasia de se sentirem relevantes uma vez que aumentados na condição de nada do nada que são.
Agora, se por um lado quero viver essa fé de que esse mal (da detração e do distrato) é um impulso motivado por uma frustração recalcada e, portanto, a maioria faz sem que tenham, de fato, escolhido fazer, eu acredito que fazer o bem pode, sim, ser questão de escolha. E não vejo razão para não sê-lo e para que não seja. E daí que o que começa como uma preocupação pode, muito bem, fazer-se fonte de inspiração: e se o tempo do ano novo se fizesse tempo de um novo jeito de ser? E se ao invés de sermos duros e ressentidos, houvéssemos uns aos outros com mais carinho e gratidão? Se ao invés de mágoa e rancor, compreensão e amor? Não descuido, mas o cuidado de quem presta atenção no que há e em quem vem.
É tudo uma questão de sermos mais atentos com a vida que nos é dada a viver. E com aqueles que vivem conosco – e a gente com eles – na vida que nos é dada a viver.
Ora, certamente nos há aqueles que gostamos e que nos gostam e se há os que gostamos, são esses que queremos felizes. Pois façamo-los felizes. É tempo de construirmos dias felizes, lutarmos bravamente contra a tristeza uns dos outros, nos ocuparmos de quem parece abatido e, tantas vezes só precisa de um sorriso que lhe diga “conta comigo; estou aqui”. Isso é construir felicidade em períodos de tristeza. E temos esse poder, essa... possiblidade.
Por exemplo: que tal fazer alguém feliz no meio de uma tarde em que não espera aquela ligação? Sim, porque mensagens em aplicativos qualquer um manda, mas um “só queria ouvir tua voz pra saber se estava tudo bem e te fazer saber que eu te quero bem”, não é qualquer um que tem. É uma questão de mostrar que o mundo até pode ser grande, mas o teu se basta na presença feliz de quem você quer bem e não esconder e nem ter medo do que vem disso.
Que tal um convite para um programa, sentarem num bar, restaurante, conversarem, verem um filme, ouvirem música? De repente saem os dois pra caminhar e, então, enquanto conversam, percebem a lua, param para olhar a lua, um do lado do outro, sorriem um para o outro, calam-se, dão-se as mãos, sentem-se, voltam a andar, olham-se, um dos dois olha tímido para o chão e daí se deixarem levar pelo momento que por ser bonito lhes faz... felizes?
Gente feliz não tem tempo de se incomodar se alguém escreve o que não gosta ou se alguém gosta do que detesta. Gente feliz que vive no mundo de carne e osso não se incomoda com o que o outro faz no mundo virtual (e nem no real). Gente feliz que vive, vive pra valer. E sente e goza e gosta e ri! Não vegeta em cima de uma cama, trancado num quarto, esperando que percebam que está vivo quando falta bem pouco pra terminar de morrer.
Mas gente feliz não vive sozinho. Não porque não dê, mas porque ser feliz também é questão de fazer.
Vamos sair, procurar quem e vamos... vamos viver!



Feliz 2017!!!