domingo, 24 de julho de 2016

O negócio é temer* menos e gostar mais

O medo é um dos afetos mais entristecedores a influenciar o comportamento humano. E ele está cada vez mais presente.
Um dos piores medos é o do mundo real. O medo que impede de ser de verdade, de dizer o que quer e o que sente; de pedir, revelar, tentar. Medo de descobrir que sente e quer sozinho ou de pedir e tentar e ouvir um não. E daí as pessoas se escondem nos seus avatares. Encerram-se em solidões sem coragem de pedir a companhia. Encerram-se na dor sem coragem de pedir afeto. Encerram-se na vida sem coragem de pedir saída. Tudo porque têm medo de tentarem o outro e descobrirem que não lhes há aquele alguém.
Pior ainda é o medo de não encontrarmos quem queremos. E o grande problema está em idealizarmos a perfeição desse alguém que queremos e, então, olharmos o outro não como ele é, mas como o resultado de tudo o que falta para que ele seja aquele a quem idealizamos. E idealizamos tudo: desde o tipo físico até o sorriso quando nos vejo ou o jeito sereno de dormir ou a cara de bobo ao acordar.
Mas é quando eu digo que quando a gente imagina, por exemplo, o encontro ideal, o parceiro ou a parceira ideal, o olhar, o beijo, a pegada, o dia seguinte e todos os outros, na verdade o que a gente está fazendo é namorar a gente mesmo. Nesse instante, estamos querendo que o outro seja quem somos – desde que fôssemos pra gente (já que dificilmente somos perfeitos assim pro outro).
Isso é um grande erro! Pensar o amor que queremos é deixar de amar quase todos os amores que podemos. E são muitos os amores que podemos. Deixar de amar é deixar de viver. Parafraseando Quintana, “Morrer: que me importa? O diabo é deixar de viver!”.
E não é que não devemos nos ter na conta de quem por ter grande valor merece um grande amor. Mas talvez seja o caso de se entender que o grande amor não é aquele que vem sob medida, mas é aquele que se descobre, se ajusta, faz a vontade porque tem vontade e se basta na vontade de ficar à vontade com quem descobre que lhe faz bem.
Ora, nós somos capazes de saber do que gostamos, mas jamais poderemos ter certeza do que (e de quem) realmente gostaremos. Quanto mais de quem não gostaremos. Mas acabamos nos pondo em tantas defesas, tantos joguetes, tantas expectativas de tantas perfeições (do outro, dos instantes, dos momentos) que cada vez mais dói a ideia de que dizer SIM pra um é dizer NÃO para todos (vai que o melhor era o próximo que eu não soube esperar).
E parece que tudo isso é fruto de uma insatisfação que nasce a partir de uma falsa perspectiva do que é a vida individuada em cada um. Porque as vidas, hoje, socializadas – já que sempre postas nas “vitrines sociais” – se fazem sujeitas a toda sorte de escrutínio popular e daí muitas vezes a tendência de se valorar as próprias escolhas segundo aquilo que se imagina que os outros podem julgar ao nos analisar.
Nisso, a vida que é nossa deixa de ser nossa porque damos ao outro o poder de nos incomodar com um julgamento que achamos que ele fará acerca das nossas escolhas, mas que, na verdade, é o julgamento que nós mesmos fazemos, já que não pensamos com nenhuma outra cabeça que não a nossa. Não alcançamos o pensamento de nenhum outro alguém.
Mais e mais as pessoas julgam-se no espelho do outro e sob as circunstâncias que pensam serem as do outro, mas, com isso, não percebem que elas se fazem vilãs contra suas próprias vidas e que são elas que combatem contra a sua própria felicidade na medida em que se fazem o principal obstáculo à sua alegria e à paz.
O negócio é temer menos e topar gostar de gostar mais.



*o título não tem qualquer conotação política (rsrs)

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Um passo para a humanidade


"Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?"
(Fernando Pessoa - Poema em linha reta)


Na era das fortalezas, ser de verdade pode ser o maior ato de coragem.
O mundo nunca foi tão propício à propaganda do homem por si mesmo, como tem sido os tempos atuais. Todos têm a plataforma que garante a sua autoexposição e, então, esbaldam-se em se fazerem vitoriosos e felizes a tantos quantos sejam os olhos que recaiam sobre si.
Do alto do narcisismo de onde anunciam a plenos pulmões serem bons e estarem bem, homens e mulheres reforçam um papel outrora relegado aos mitos heroicos e aos grandes campeões: anunciam-se como grandes vencedores. E isso a um tempo em que se percebe que a vida, hoje, dá-se sob uma crença de que o sucesso está ao alcance de todos e que tudo é apenas uma questão de atitude.
Contudo, essa pregação, ao invés de acolher o maior número de pessoas sob o seu manto, finda por excluir um sem número delas que vivendo a vileza de dias que parecem não dar certo, não têm interesse em disfarçar a melhor vida que não têm. São pessoas que muitas vezes estão presas a trabalhos de que dependem, mas de que não gostam, ou que carregam dores de amores que amaram mal amados, de famílias que nunca funcionaram ou de sonhos que nunca se realizaram e a quem, muitas vezes, o simples fato de perceberem que o dia amanheceu de novo, já faz sofrer.
E, apesar disso, essas pessoas são obrigadas a conviver com uma série de outras pessoas que não vivem tão melhores, mas querem continuar anunciando a felicidade que não têm, o amor que não vivem, a alegria que não sentem, a dieta que não fazem, a disposição que só lhes falta, o dinheiro que nunca sobra e o sucesso que não passa de história.
Não bastasse, quando aquelas sofrem suas dores, quando têm coragem de se anunciarem tristes, vazias e descontentes com o que vivem, ainda são mal vistas pelos que “só sabem o que é viver bem”. Riem delas. E talvez porque a verdade de sua tristeza reflita a dor que o outro luta para esconder de si (“não me diga tua tristeza que é pra eu não lembrar a minha”).
Em tempos de “ditadura das aparências” não se pode se mostrar fraco, não se pode ser titubeante, nem passional, nem vacilante. O mundo parece exigir cada vez mais altiveza, robusteza, além de mostrar uma indiferença cada vez maior em relação a muito do que antes era considerada virtude, mas que agora, não raro, é pusilanimidade. Não se admitem os que choram, nem os que sofrem, nem os que se confessam ou se declaram incapazes de seguirem sós. A esses é reservado o ridículo. São anátemas. Escória.
Está na hora de repensarmos as nossas verdades e pararmos com a estupidez de acharmos que a imagem que fazem de nós (e que fazemos dos outros) é que é importante. Está na hora de libertarmos uns aos outros da obrigação de parecermos sempre mais. É preciso nos voltarmos à realidade da nossa humanidade e da humanidade do outro. Não nos querermos semideuses, infalíveis, irresistíveis, admiráveis. Querermo-nos apenas humanos – e com tudo (alegrias e dores) que se carrega dessa condição que não nos faz menos, mas que na melhor reunião dos melhores valores faz descobrir que podemos ser, aí sim, de verdade, sempre mais.
Gente para ser gente só precisa de paz. Não precisa parecer ser mais.

domingo, 19 de junho de 2016

O tempo passa... mas nem tanto

A ansiedade é um sintoma normal quando se vive um tempo em que a vida é urgente. Num modo de viver cada vez mais acelerado, o mínimo descuido incorre em que cada conquista se faça acompanhar pelo sabor amargo de um atraso culposo, como se independente de quando, já fosse sempre tarde.
Perdemos a noção do tempo de sermos quem somos. Nos ocupamos tanto com quem nos quereremos um dia que esquecemos que, mais essencial que almejar, é ser, e então, sem que nos apercebamos, desconhecemos quem um dia nós fomos e mal cuidamos de quem um dia seremos. E daí a existência pesa. Desamparados da certeza de vivermos a verdade de uma consciência que se basta no conhecimento de si mesma (de nós mesmos), é comum que passemos a buscar em tudo o que não sejamos nós a completude do vazio que vem da falta de se bastar “eu”.
É quando creditamos no outro (e também que será em outras externalidades que acharemos) a paz que, por certo, não vem – e nem poderia vir – de fora. Não há solução para angústia que não parta da serenidade de se saber senhor do trato das circunstâncias tais como elas se apresentam. É só nessa serenidade, ou seja, no oposto do que é a ansiedade, que se alcança a autorreflexão necessária para entender que há uma razão para sentirmos o que sentimos e pensar o que pensamos; em suma: para vivermos e experienciarmos, mas principalmente, entendermos o que vivemos e experienciamos, precisamos de tempo para nos reconhecermos (e, ainda, quantas vezes forem necessárias, nos recomeçarmos).
Nos reconhecermos faz parte de um processo de autocontemplação muitas vezes custoso porque dolorido. Implica em verdades que nos evitamos. Reconhecer-nos a nós mesmos é saber que a culpa maior é sempre nossa por mais tentador que seja culpar o outro. Só que para chegar a esse grau de desprendimento é necessário ouvirmos a nós mesmos em detrimento de todo o barulho do mundo que vive do lado de fora de nós. Acontece que à medida que vivemos, parece que precisamos mais e mais desse barulho do lado de fora da nossa existência e justamente como uma tentativa vil de que ele abafe o barulho ensurdecedor que vem do silêncio do nosso vazio e que insiste em nos fustigar sob o reflexo de tudo o que não terá passado de fracasso acumulado ainda que na forma de sucesso tardio.
Mas esse é o ponto em que deve haver a principal mudança. Ao invés de nos atermos às perdas e ruindades da vida, aos “nãos” e aos desencantos, ou mesmo em pensarmos que carregamos toda desdita ou que somos mal vindos às vidas que sempre quisemos bem vindas, precisamos encontrar a nossa parte que vale a pena e a lembrança dos momentos em que as pessoas pareceram gostar de nós e pareciam felizes porque havíamos, porque nos tinham e porque éramos quem fomos num tempo em que fazia sentido sê-lo. Por certo sempre haverá uma boa dose de boas lembranças capazes de combater as lembranças mais injustas que tentem nos convencer de que nossa passagem é insignificante e errante ou que tudo o que oferecemos só servia para se recusar.
E daí a gente vai viver em paz com o que tem, sem precisar se preocupar com o que virá. Porque o tempo passa e o futuro até vem (mas não tanto que mude pra pior o ontem de ninguém).

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Amar de forma deslocada (ou nunca é tarde demais para deixar de ser idiota)

O ser humano é um esquisito complicador de suas próprias experiências. No afã de pensar sua feliz tem por hábito esquecer-se de se saber e se sentir feliz. E o foco na falta é o grande culpado disso. Preso à ideia do que seria bom, à ideia da vida que lhe satisfaria, esquece que a vida é o que vive e não o que se espera viver. E muita vez faz pior: de tanto pensar o que lhe faria feliz, passa a temer passar a vida sem alcançar o estágio imaginado de felicidade esperançada e não vive. E se não vive não tenta. E se não tenta não faz. Quem não vive, não tenta e não faz, perde. Sempre!
A esperança é sempre para o amanhã que nunca existirá. A esperança é sempre o ideal e ideal é o oposto de real. O ideal é a ignorância porque é pautado no que eu gostaria que fosse, mas que eu não tenho como saber se será. Portanto, onde há esperança não há realidade e se a vida é o que se toca, o que se encara e o que se sente, na vida não cabe esperança, na vida só cabe vida. Logo, esperar demais e viver “de menos” é um erro brutal. É uma estupidez!
Amar de forma deslocada, então, é amar o sonho e não a realidade. É amar o que espera e não o que tem. É amar a ideia de ser feliz e não o que se tem para ser feliz (e que pode fazer feliz). É entender que desejar o frio estando no calor te faz triste; que querer a praia estando na montanha te faz triste; que querer o norte estando no sul te faz triste. Se o que você quer não é o que você tem, então mude a tua rota, mas viva! Faça por onde, mas não viva nessa esperança de que há outra vida que, aí sim, te fará feliz. Porque de esperança em esperança você só acumulará tristeza e mais tristeza e é de tristeza que nós morremos. Alegria dá vida. Tristeza é que mata.  
Queira estar onde você está. Goste do que você tem. Satisfaça-se na vida que você vive. Se não está bom é porque tem que mudar. Você ou as circunstâncias. Mas o que tem que ser feito deve ser feito no mundo que se vive no corpo, esse corpo que sente vontade, esse corpo que é desejante, que interage com o mundo e que responde a cada afeto que esse mundo causa e propõe porque é nisso que consiste estar vivo. 

terça-feira, 10 de maio de 2016

Deve ser bom poder chorar...

Em um tempo em que ainda era criança que sonha ser gente grande e feliz, nada parecia longe, nem distante, nem difícil...
O tempo que eu tinha era o tempo todo que eu ainda teria e nada como ter a sensação de ter todo o tempo para se deixar o tempo passar. E ele passa.
Na inocência das minhas infinitas possibilidades, eu me guardava as mil aventuras em que era sempre rei, herói, mocinho dos mais galantes e precisos.
No alto de cada sonho, eu acreditava em cada sonho e investia em cada espera de ele se realizar.
Não me disseram que sonhos não se realizam, mas precisam ser realizados. Não me ensinaram que sonhos são apenas sonhos e que por isso não existem. Não me contaram que sonhos seriam a garantia de toda futura frustração.
Mas esses “eles” ocultos deveriam ter sido sempre eu. Eu que não quis ser de mim, mas me perdi no aguardo de saber ser do que me regesse. E nem nisso soube ter sucesso. Nem nisso soube ser feliz.
Invejo quem tem lágrima. Deve ser bom poder chorar.
Porque agora, o tempo pode até ser muito, mas tudo o que parece é que é pouco.
As aventuras que fariam reis são desventuras que me fizeram bobo.
Os caminhos que não lograram risos vestem penúria. E tudo em frente é só a escuridão já descoberta, desvendada e destapada.
O que era pra pôr-se desde o alto já há muito que se sente no mais baixo como a vida que, desvivida, descansa do mundo debaixo de todos os pés.
Tudo é o passado do que nunca se fez presente. História terrível do que nunca se providenciou. Não se trata do irrealizado. Dói é o que não realizou.
As perguntas são: em quantos erros nos dividimos ao longo desse viver? E de que vale tudo isso? De que vale o saber o que se aprende se só se sabe quando já parece tarde demais? Quando, ao final, toda a sabedoria que o erro nos traz acaba e o resto... bem, o resto, como em Hamlet, “é silêncio”. E mais: quem aprenderá com esses erros que se acumulam e só? Se não a mim, a quem servirá essa existência vil que se acumula em dias só pra me fazer mais enfadado da minha própria cara?
Gostaria de saber sorrir. Mas na verdade, invejo quem tem lágrima. Deve ser bom poder chorar.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Amor é coisa de gente desprendida

O amor é coisa de gente desprendida. E que não tem nada a ver com ser ou fazer feliz. Nem tem a ver com regra. Amor tem a ver com vida. E vida que se vive um dia de cada vez. Tem dia que vai ser tudo o que você sempre quis e tem dia que vai ser tudo o que você não quer. Tem dia que te diverte e tem dia que ele é chato. E o que tem isso? Nada.
O problema é que apesar de a gente achar normal quando é a gente que acha chato, a gente não gosta de pensar que assim como, de vez em quando, a gente pode achar chato estar com esse outro, esse outro também pode estar achando chato estar com a gente.
Mas não é assim que tem sido. Vivemos tempos de gente medrosa. Gente que foi programada para vidas de sucesso e, vidas de sucesso, não sofrem, dão certo. Todos querem se mostrar vencedores em seus projetos e o amor é só mais um entre tantos projetos em que se propagandeiam seu êxito, em que se valem dos olhos dos outros para se sentirem bem consigo mesmo. Sim. Porque vivemos tempos em que as pessoas só se enxergam pelos olhos (e curtidas) dos outros. Aprovação externa.
Ah, essa necessidade cada vez maior de viver de fora pra dentro. Da legitimação do sentimento que dê a coragem de saber que o sentimento não vai fazer sofrer e que se eu souber que sou amado mais do que amo terei a segurança de sorrir mais do que choro. Não é disso que parece que tem se tratado?
- Ai amiga, mas será que ele quer algo sério?
- Tá louco, cara? Ela vai achar que eu ‘to’ afim dela e vai se fazer de difícil.
Essa busca por um amor que é feito um jogo pelo contentamento de si através do comportamento do outro ao invés da busca de si por meio do sentimento que se tem pelo outro pode ser a raiz de muitos dos males. A obrigação de se sentir acolhido, de se saber amado, de dar a satisfação pro mundo que te veja recebendo a declaração na rede social, a foto postada, o presente ganhado, o “book de noivado”, a festa suntuosa, a viagem feliz. Ser vista pelos olhos do outro para que a inveja alheia te ateste que você é feliz.
Só que o amor não é sempre feliz. Os antigos, que não tinham redes sociais para lhes distraírem da vida real, já há muito faziam seus votos de “amar e respeitar” na alegria e na tristeza, mas para os de hoje parece que momentos de tristeza ofendem. Os momentos de individualidade são incompreendidos. Porque outros postam uma foto sorrindo enquanto dividem um bolinho de arroz ou declaram-se amor em mensagens abertas muito embora tenham acordado ao lado sem que tenham se desejado bom dia, já é motivo pro que assiste se sentir infeliz porque naquele dia não teve o que os outros propagandeiam o que estão tendo.
Não se mede o seu relacionamento pelo que os outros mostram do relacionamento deles. E nem se deveria medir relacionamentos por quem o outro não é nem se comprometeu a ser. A medida da sua vida pode ser teu sonho. O que te sonha, se te sonha de verdade, tem que ser a tua busca. E isso se aplica no amor. Por que não?

segunda-feira, 14 de março de 2016

O caminho do Sucesso parte I - Há excelência nas Excelências? Eu acho que não...

“Todo mundo é um gênio. Mas se você julgar um peixe por sua capacidade de subir em árvores ele vai gastar toda a sua vida acreditando que ele é estúpido.” (frase atribuída a Albert Einstein)

Não queremos uma vida curta. Logo, ansiamos uma vida longa. Mas seja curta ou seja longa, a vida é vivida um dia de cada vez. E se ela é vivida um dia de cada vez, todo dia é dia de optar, de fazer, de escolher, refletir e refazer. Principalmente de fazer e refazer.
Digo isso porque quero falar do que tem me parecido uma das causas de angústia de muitas pessoas: o caminho do sucesso. Mas aqui eu quero ser um pouco mais específico e falar do que muitos consideram um exemplo de ter sucesso: a aprovação em um concurso público.
Num país economicamente instável como o Brasil, é natural que a maioria das pessoas anseiem a aprovação que lhes garanta a ocupação de um cargo que se não tem os maiores salários (comparados a certos ganhos na iniciativa privada) ao menos dão a segurança de que sempre haverá salário.
Contudo, especialmente no mundo do Direito – mundo em que me vejo inserido de forma mais objetiva – percebo uma grande inversão de valores no que diz respeito às aprovações em concursos públicos: muitos que são aprovados passam a ser tratados – e, consequentemente, passam a se considerar – como gênios da espécie humana, como se essa aprovação tivesse alguma relação com um talento inato da arte do saber. Podemos dizer, inclusive, que a partir do momento em que alguns passam a ser tratados por Excelência, também passam a ser sentir excelentes.
Acontece que nesse mister, eu prefiro me fiar mais (ou apenas) nos profissionais do assunto do que nos protagonistas dessa autoestima “(in)justificadamente” alta em relação aos seus mecenas intelectuais. Não por um acaso, é palestra comum a todos os professores dos cursos preparatórios, a analogia do concurso a uma competição de resistência, segundo a qual aquele que não desistir antes do fim será premiado (ou seja, o concurso é quase uma prova do líder do BBB). Assim, o concurso não tem a ver com o que eu sei, mas com a condição que eu tenho de aprender e apreender o que eu não sei, de modo que o concurso, de ordinário, não tem qualquer relação com a genialidade, mas sim, com as muitas horas de estudo e a boa capacidade de memória para reter o que foi estudado.
Genialidade, por sua vez, está presente naquele que sabe sem que lhe tenham ensinado. É gênio aquele que antes dos 9 anos já compôs uma sinfonia ou aquele que pintou um quadro com cores próprias de sua aquarela. É gênio aquele que viveu até quase 80 anos sem nunca ter saído de sua cidadezinha no interior da Alemanha e, mesmo assim, escreveu tratados sobre ética que mais de 200 anos após a sua morte ainda são referências de uma obra incomparável. É gênio aquele que muda uma vida quando o contato não é consigo, mas com a sua obra.
Então é bom se perceber que o concurso público não faz de ninguém uma excelência, muito embora lhe empreste certos títulos de excelentíssimo. E tampouco o concurso público é a única forma de sucesso, muito embora seja, sim, um exemplo de vitória. Os que o alcançam não são mais bem providos de intelectualidade do que os que se encerram em gabinetes em busca do que evolua a sociedade a que pertencem, tanto ou mais do que aqueles que querem evoluir o patrimônio que detém. E vai-se além: muitas vezes o concurso público é o único recurso que alguém tem e a exceção talvez esteja naqueles que, de boa família, querem ser parte do minsancene ou mesmo gozar o status e prestígio que o cargo – mais que dinheiro – dá. Sem contar alguns poucos a quem aprova servir. Mas mesmo esses precisam de esforço e não de gênio. E gênio não se esforça, faz. Sabe que sabe, mas muitas vezes não sabe como soube.
Ademais, chamar um aprovado de gênio, ofende e minimiza o seu esforço e de certa forma lhe diminui o mérito pela conquista.
É certo que bons salários trazem conforto e possibilidades. Também é certo que sonhos só são possibilidades quando mais que desejo, são projetos de execução viabilizada por escolhas condizentes. E se a vida vai ser longa, é sempre possível aprender mais que memorizar e aprender para além da questiúncula que separa o esforço do talento. Os grandes nomes da história sabiam de tudo e não se limitavam a nada. Mas se é sintoma da nossa sociedade, cada vez é mais evidente que o destino de muitos é se comparar com outros e, a cada comparação, tender a se julgar e, ainda pior, se limitar. E isso é triste. E não tem nada de inevitável ou obrigatório.

quarta-feira, 9 de março de 2016

Relacionamento: cada um na sua mente

É comum se assistir a defesa de um argumento em que no relacionamento um deve fazer o outro feliz. Não raro, esse argumento coloca sobre o outro a responsabilidade de agir de maneira tal que sob sua ação o outro encontre a plena satisfação... só que consigo. E pior: a certa altura, por um se sentir credor do carinho do outro (sobre esse tema, clique aqui), é comum que cruze os braços e espere a ação do outro que, muitas vezes, até está se esforçando, só não está acertando. É comum que um sempre ache que faz mais.
Em minha opinião, o problema está no fato de que ninguém está na cabeça e nem na história de ninguém. Muitas das coisas que o homem ou a mulher desejam têm a ver com o que lhes fora introjetado ao longo da sua existência. Muitas demandas que o eles tenham nessa “batalha de amor” só fazem sentido para ele ou ela porque essas demandas têm a ver com o ser que ele/ela se fez e é justamente por essa razão que nem sempre fazem sentido para o outro do relacionamento que tem a sua história, anseios e crenças diferentes a respeito da vida, do amor, enfim, de tudo.
Assim, se nem sempre o desejo de um faz sentido pro outro, não é certo e nem justo que se exija (ou se espere) que esse outro lute pela felicidade daquele que não é ele, quando é só um que sabe o que tudo o que deseja significa para si. O outro é, no mais das vezes, um eterno ignorante sobre tudo o que não lhe é passado.
É por isso que, no meu entender, quando se fala em relacionamento feliz, ele só pode existir mediante o encontro de duas felicidades e, nesse sentido, defendi, defendo e defenderei o relacionamento como sendo o encontro de várias individualidades, bem satisfeitas em si, em que se abre mão de uma parte da própria individualidade em prol de parte da individualidade do outro. Nunca essa bobagem de dois serem um, mas sim, de dois serem par em busca de uma vida ímpar.

terça-feira, 8 de março de 2016

A Vida dói, mas sobrevivida mata: uma questão de escolha do papel que quer viver

Uma das escolhas que temos que fazer todos os dias de nossa vida diz respeito ao papel que queremos desempenhar na nossa história e, nesse caso, temos duas escolhas possíveis: ou seremos protagonistas ou meros coadjuvantes da nossa existência.
Viver dói. Viver exige. Viver impõe um agir constante em direção a um destino querido, mas incerto. Só que as duas outras opções estão longe de parecerem melhores. Isso porque se não vivemos só nos resta ou morrer ou sobreviver.
Ora, após a morte não resta vida e se não há vida, não há mais nada e, portanto, o pós-morte é o insondável e impalpável que não interessa. Agora, sobreviver é muito mais do que se faz e, se viver dói, lutar para se fazer vivo pode ser muito pior.
Quem sobrevive não vive as próprias circunstâncias. Luta contra as forças que lhe açoita, lhe machuca. Quem sobrevive faz o que resta ser feito e não pode escolher aquilo que fará na sequência. Quem sobrevive não dá as cartas, só recebe e é com elas que tem que jogar, com a certeza única de que a maior chance que tem é de perder. Quem sobrevive não vive, só se mantém vivo.
E aqui entram e se separaram protagonistas e coadjuvantes. Ambos com papeis importantes em toda produção.
O coadjuvante é aquele que escolhe ser adjutor. É aquele que goza a felicidade alheia. Não faz grandes planos para si, mas folga em que os que estão a sua volta sejam completos e contemplados nas aspirações deles. O coadjuvante não se destaca, não marca, não ganha. No máximo empata. O coadjuvante não tem a sensação de ser grande e o prazer de ser o primeiro. Geralmente o coadjuvante não tem, sequer, a vocação para ser o primeiro. A guisa de se mostrar bem resolvido, tende a esconder uma autoestima afligida por tempos de descuido de outrem, uma autoestima flagelada que lhe impede a altivez da cabeça e dos ombros erguidos, em troca de uma postura de quem ri para o chão porque geralmente olha para os pés. O coadjuvante é o que sobrevive. O que rema no sentido da maré e a favor da correnteza, mesmo que o final seja ser engolido por águas bravas que jamais lhe deixarão emergir e que lhe riscarão de uma história que nunca teve.
Diferente do protagonista. O protagonista vive. O protagonista não se basta no que lhe é dado, mas toma para si o que se tem imaginado. O protagonista não vive um relacionamento de conveniência e nem se nega desejos em nome de alguma pseudomoral. O protagonista não deixa de fazer porque deixar de fazer lhe custa a vida que sempre lhe urge. Ele não tem medo do erro e nem da dor. E nem da morte. A morte lhe dá pena porque a morte de alguém como ele soa desperdício. O protagonista enfrenta, rebela-se, insurge-se, cerra os punhos e os dentes, não para, não cansa, não desiste porque sabe que tudo o que quer depende de tudo o que faz. O protagonista não tem medo do preço, ele paga o preço. Não tem medo do futuro, ele encara o presente sabendo onde quer chegar e por isso vai. O protagonista chega ao topo porque pra ele, o topo é só mais um degrau onde ele tem que chegar e, pra isso, ele faz o que tem que fazer. O protagonista não se basta em ter que ser. O protagonista é.
Em tudo isso, o ser ou não ser da existência é a escolha primeira de quem anseia viver.

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sempre à vida (já que há tempo quando há vida)

O livro que não leu, o filme que não viu, o amor que não declarou, a matéria que não aprendeu, a viagem que não fez, o amigo que não conheceu ou a paixão que não viveu. E daí? Eles estão logo ali. Ao alcance da tua atitude.
A vida vive para frente e o que não fez tem que ser a história prestes a mudar. Lamentar o que não viveu não vai trazer vida. Não resolve. Só tira mais do precioso tempo de viver.
A vida vive para frente e viver não tem que ser questão de opção, mas de tesão. De encarar o tempo com a gana de quem quer possui-lo mais do que ser possuído. Com olhos de quem sente o gozo perto e possível. Olhos penetrantes de quem aumenta o ritmo quando sente que o que quer lhe chega e não para nem depois de conseguir, porque vive no desejo de sentir e não na folga de quem já se teve sentido.
A vida vive para frente e para frente sempre se tem o que viver. Para frente não importa o que não houve. Importa o que vai ser.  O que se vai fazer. O que se quer... viver.
Olhar para trás é o jeito errado de viver para frente. As escolhas de antes tiveram as circunstâncias de antes. Foram o que tinha que ser, mesmo que hoje pareça que não devessem ter sido o que foram.
Ficarmos bravos com quem fomos no nosso passado não passa de desculpa “mal dita” de quem não quer entender que a responsabilidade com o que será no futuro depende do que faz no único tempo que existe: o agora. Remoer o passado é distração inútil e injusta. Apenas sonhar com o futuro é frustração certa, mas lutar pra que ele chegue contente é um dever mínimo de quem se quer bem.
Se você respira, sonha, deseja e tem forças, tem tudo o que precisa para recuperar o tempo que acha que perdeu. Contudo, seja gentil consigo e entenda que o tempo que passa também é experiência que se acumula. Experiência que também tem que olhar pra frente e que se recuse a repetir passos, mas que trilha seu caminho, consciente de que o ontem não lhe importa e que a vida de hoje é só – e tudo! – o que tem. E basta. É exatamente o que precisa para viver a intensidade de quem, tendo vivido bem, saberá de si tudo, menos que é alguém que por falta de coragem viveu sem escolhas, como se fosse, desde sempre e pra sempre, seu próprio refém (e apesar de tudo o que pode viver no tempo que tem, mas não fez). 

sábado, 30 de janeiro de 2016

E se o tempo do amor corresse pra trás...?

... mais ou menos como o curioso caso do Benjamin Button. Lembra?
Imagina se o final do amor fosse a paixão e não o contrário. Saber que se viveria a beleza de um sentimento terno e maduro até o momento em que tudo fosse intensidade e pele, pele e intensidade.
Até porque – me desculpem os que pensam o contrário – mas me parece que beira o consenso que o melhor momento do relacionamento é aquele de poucos meses desde o início, em que já se conhecem um pouco melhor, se permitem mais e se constrangem menos; aquele momento em que um simples toque dá choque e uma simples ausência faz chamar de volta; aquela fase em que a noite é curta para o desejo que é grande e que se repete num afã que desafia a saúde e que não para e nem quer parar, só continua. A hora em que toda hora é hora é o momento em que o prazer é questão de instante. E isso é começo, é tempo de um tempo em que o amor ainda não teve tempo. Pele é paixão. Paixão é urgência em movimento.
Imagina o desgaste diminuindo até não ser e o cansaço se reduzindo até não ter. Imagina a indiferença acabando e a atenção crescendo, aumentando até se fazer visível aos olhos e palpável ao tato. Imagina não se importar com a novela ou com o futebol. Nem com os outros, nem com ninguém. A vida acontecendo e você sabendo que o resultado de tudo não é o enfado, mas o renovo. Não o novo, mas o mesmo que o tempo só deixou melhor e mais gostoso.
Só que por improvável que é, o que se tem no mundo regido pelas leis da física é a paixão numa metamorfose que se completa ao ser amor. Um amor que faz o costume de estar junto ser o principal ingrediente a servir de motivo para não se estar separado. Um amor que se funde a uma ideia de afeto e de cuidado que aproxima mais o paterno do que o safado, mais o idílico do que o tarado. E isso é bonito, porém é chato.
A paixão como objetivo ajuda no jeito mais descuidado (que não se confunde com o jeito desleixado). Mas ela se ocupa mais de consumir que em preservar. É aquela que aperta, que puxa, que acerta, que arranca, invade e traz pra junto (bem junto). É a que não teme a marca, não teme o gosto, não teme o gozo e é só durante. O antes é prenúncio do que o depois é só o pretexto.
Por outro lado, talvez o amor tenha a ver com uma parcimônia que acompanha a involução física de cada um. Quem sabe ele seja mais condizente com essa calma comum àqueles que aprendem a contar o seu tempo com o tempo que têm. E então passa a fazer sentido que as pessoas procurem esse estado de mais paz e menos ansiedade, mais carinho e menos devassidão, mais afeto e menos solidão (que existe até mesmo acompanhada), crendo que o amor, mais que sentimento, é essa construção capaz de redefinir desde sonhos até valores que se amoldam a um resultado que, no seu início, não se quer menos do que bom.
Qual a melhor ordem pra você? A que leva a um amor tranquilo ou a que chega a uma paixão excitante e contente?

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Sexo e solidão

Bom. Sexo é bom e (quase) todo mundo gosta. E não é para menos. Há quem diga que mesmo quando é ruim é melhor do que sexo nenhum.
Acontece que apesar das transformações na sociedade, a relação das pessoas com o sexo muitas vezes se mostra conflituosa. Em que pese o sexo corresponder a uma necessidade quase instintual, as muitas regras acabam gerando outras muitas culpas que fazem com que o que deveria ser livre, seja tantas e tantas vezes mais e mais contido.
Mas mesmo assim, queremos sexo! Chego até a desconfiar que as grandes conquistas da humanidade só tiveram uma grande motivação: descolar “aquela” transa.  
Não estou dizendo que é verdade, mas não raro ouço quem diga que o sexo é a grande mola propulsora da sociedade (e nesse contexto não me refiro apenas ao sexo para fins de procriação). As pessoas gostam de se darem e se terem. E que bom que é assim.
Acontece que, invariavelmente, o sexo mexe com a ideia de afeto. E não apenas nas mulheres como os mais machistas podem afirmar. Uma vida sexual, sadia ou não, será responsável por uma mais alta ou mais baixa autoestima. E em tempos em que as relações entre as pessoas são cada vez mais rasas, o sexo vai se tornando em uma ânsia cada vez mais profunda. Resultado: confusão de sentimentos.
Talvez desde a queda do Império Romano, nunca se transou tanto. As “one night stand” estão cada vez mais comuns e o sexo acaba sendo um mecanismo de autopreenchimento (psicológica e não só fisicamente falando, é claro) e, consequentemente, de legitimação para a individualidade. A diversidade de experiências sexuais pode, incorretamente, sugerir uma indiferença com tudo o que não seja eu e, com isso, me fazer crer que fiz a melhor escolha quando optei, exclusivamente, por mim.
E aí está o grande problema. A mim tem me parecido que por mais intenso que seja o orgasmo da transa eventual da noite anterior, o instante seguinte faz da pessoa ainda mais vazia e solitária naquilo que está mais recalcado no seu íntimo. Por mais que a pessoa se julgue permissiva e pense que usa o sexo apenas segundo a necessidade de seu corpo, sem necessidade de qualquer conexão emocional com o outro, o confronto consigo mesma tenderá a lhe levar a que se perceba ainda menos preenchida que no instante anterior. Sim, porque sexo, por si só, não passa de mais um ingrediente da próxima sensação de solidão. Talvez ele – o sexo – tenha sido buscado por motivos que mais aprisionam que libertam.
Haverá ainda aqueles que dizem que o sexo é essa necessidade premente e que o dar-se e se receber ajudam a centrar os instintos na medida em que (nele) somos tomados por uma fúria de nos possuirmos com uma vontade que se justifica no tesão e que o gozo é o corpo finalmente gritando a vida que urge viver. Mas o gozo cessa o instinto e encerrado o instinto passamos a ser só a razão descoberta de toda pulsão e posta a mercê de todas as culpas acumuladas pela moral que calamos. É justamente esse instante aquele em que caímos do alto a que nos eleva o auge do prazer mais forte até o buraco da mais fria e completa solidão.
Mas nem por isso deixaremos de provar... 

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Frustração é vida. Se a vida vive, ela vive também.

A frustração é um sentimento interessante. É um dos poucos sentimentos de que a gente não pode culpar ninguém. A culpa é exclusivamente nossa, porque somos nós que as criamos a partir de uma construção que leva em conta todos os sonhos que projetamos realizados a partir da existência de alguém.
Mas quando eu falo em culpa, não é no sentido de punir alguém. Pelo contrário. A frustração tem que ser entendida como um sentimento que, se ruim, também é bom. A frustração é a maior prova de coragem de um indivíduo que mesmo não sabendo se haveria um “sim”, não usou temer o “não”. E, no mais, só se frustra quem se permitiu acreditar no sonho que lhe fez feliz.
Sonho em que se é feliz já é parte da felicidade. Não sabermos o amanhã não impede de deseja-lo e se, por qualquer razão, o amanhã for outro, que seja. Logo virão mais amanhãs. E com eles mais dias contentes que trarão sonhos contentes que acontecerão ou não. E depois disso? Mais amanhãs.
Enquanto isso, continuamos sendo a exata medida das nossas verdades e disposição. Nos mantemos postos ao alcance da intenção do que ou de quem pensamos, quisemos e até tentamos, mas que – pelo menos por enquanto – é apenas a ideia ousada e não querida que ainda vai custar sarar.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Somos todos Fabíola (e curtimos BBB).

Acredito que a essa altura a grande maioria já ouviu falar no caso extraconjugal de Fabíola com Léo e cujo flagrante fora filmado por um amigo do destemperado marido lá das Minas Gerais. A repercussão do caso me fez notar uma coisa: quando a maioria das pessoas diz que não gosta de Big Brother Brasil por tudo que, aparentemente, ele representa, elas estão mentindo.
Sim, porque na vida como ela se mostra hoje, somos todos Fabíolas e Leós a partir dos olhos alheios. O tempo inteiro julgamos e somos julgados. Expomos nossos pensamentos, nossas angústias, nossas alegrias. Se viajamos todos sabem e dão palpite sobre onde ir e onde não ir, o que faz ou o que comer. O tempo inteiro nós cuidamos de nos inserir nos assuntos privados dos outros. O tempo todo pessoas outras nos dão acesso aos assuntos que bem poderia ser apenas seus.
É isso: a vida do outro virou o espetáculo de todos. Vivemos em meio a um grande Reality Show em que somos votados para os paredões da falta de empatia, afinidade ou insucesso. E daí as pessoas votam se somos vencedores ou derrotados nessa vida que já não interessa só a um. Nas redes sociais, nos WhatsApps e afins, estamos o tempo inteiro assistindo a diferentes realidades e fazemos da vida do outro – e oferecemos para o outro – nosso papel mais conveniente e prol da necessária aprovação.
Daí a aparente indiferença da Fabíola. Na maior parte do tempo ela estava calada. Não chorava, não gritava, não pedia desculpas ou se afirmava livre. Apenas calada mexendo os cabelos. Ao comentar esse fato, concluí que esse ato talvez seja a amostra do quanto ela desprezava o próprio marido antes e quão despreza ainda mais agora. Sabe aquela coisa de: “está passando por isso e dando esse espetáculo porque quer”? Afinal, ele saiu investigando e, tendo sabido, ao invés de manter sua dignidade e entender que essas coisas acontecem (e muito) em todo o tempo e em todo lugar, arrumar suas malas e ir viver sua vida, preferiu fazer uma cena deplorável, na qual legava à esposa seu ódio e ao (ex)amigo apenas o seu desapontamento.
Quando vejo a reação da Fabíola e a reação do marido traído, concluo que ali ela tenha demonstrado todo o desprezo por aquele homem e por motivos que o vídeo não deixa saber, mas que estão lá. Só que ambos agiram de uma forma tal que parece nítido que a cada um tenha restado a sua própria indignidade: a que ele desprezou nela e a que ela deve ter desprezado nele.
Quanto ao Léo: o cara foi o que manteve a maior dignidade ao longo do tempo. Não falou nada, não se moveu do lugar. Encarou a situação dentro de suas possibilidades e, agora, certamente tende a colher os louros da sua fama repentina. É só se pensar que, a essa altura, mulheres de todos os lugares estão fazendo a pergunta que movimentou as redes sociais ao longo das últimas 48h: o que será que esse gordinho tem de tão bom? Logo ele, o amigo contra quem muitos se queixam por pensarem que por ser gordo era menos vistoso e, por isso, mais confiável.
Além disso, Léo passa a ser um símbolo da heterossexualidade. É inclusive por essa razão que suponho que sua esposa (que também é uma parte – oculta – da história) tenha lhe perdoado. Agora ela é casada com esse homem cujo apelo sexual é elevado às alturas na mesma proporção em que despertara a curiosidade. Estar com ele pode ser uma demonstração de força de quem não tem a intenção de deixar para que outras descubram o valor do que ela tem em casa.
Em tempo, é sim estarrecedor como alguém acha normal expor seus problemas num vídeo de YouTube como se tudo tivesse que ser compartilhado e como se a vingança fosse só o que importava. Há família, talvez filhos, uma sorte de pessoas afetadas por um ato infantil feito em represália contra algo que pode ser feio, mas que não é menos corriqueiro. O espetáculo do marido e a violência (física e verbal) desferida contra a esposa, fazem com que em todo o tempo ele seja o grande antagonista da história, porque tudo nele é ridículo e desnecessário. É só mais uma entre várias pessoas traídas e isso não lhe faz pior do que ninguém.
Agora, o cara que filmou e fez toda a entrevista... meu Deus!
Em todo o caso, quando for criticar o BBB ou quando for falar ou comentar a vida de alguém, lembre-se que quem está nas câmeras ainda tem o que ganhar, mas aqui do lado de fora, o que a gente mais faz é perder. E amanhã, a Fabíola de hoje pode, muito bem, ser você.