segunda-feira, 19 de setembro de 2011

DESCONSOLO






Há certas palavras que cortam. Machucam. Sangram.

Há palavras que são escritas como que com sangue. Palavras, versos, frases e orações que carregam no seu fluir a dor de quem as escreve sem que finja que é dor a dor que sente.

Essas palavras, escritas no sangue que as fazem ainda mais fortes, correm como correnteza. Esvaem-se pelos pulsos cortados e enquanto vão atingindo o chão onde não deveriam estar, levam consigo toda a luz – se é que alguma luz há – , restando só o negro que se ficou.

Por tantas vezes é tanto o sangue que sangra nas palavras, que o que parece cheio de vida se mostra morto por dentro. Está morto só que ninguém vê.

Não há olhos que perscrutem o íntimo dos que sofrem. Não há ouvido que ouça o lamuriar silencioso daqueles que sentem que o que já foram jamais tornarão a ser.

À medida que o sangue corre e faz as palavras, o corpo inerte e vazio é tomado de escuridão. Não há peito que bata como já bateu; não há choro que corra como já correu. Não há mais ela, não há mais eu.

Se é que foi como tinha que ter sido, onde estará quem escreveu essa história que, calado, não surge pra dizer se ainda existe ou se acabou?

Onde havia um coração que pulsava há no máximo um músculo inerte. Se os olhos ainda piscam é a teimosia de quem não repara que o sangue que correu terminou seu curso e não voltará para onde veio e não mais virá para fazer viver.

De tudo que se foi, a dor ainda fica. Tivesse ido - e deveria ter ido - não haveria mais dor. Mas há dor. E dói. Sempre dói.

Olha-se pra dentro e é tudo negro. Tudo é nada!

As palavras que sangram (escritas do sangue que sangrou) ficam. Quem vai foi quem as escreveu. É ele quem encerra uma história, sua história, tantas histórias... mas não, ele ainda não morreu!

2 comentários:

Dayse Sestito Martins disse...

Oi querido, Não sabia desta tua habilidade poética. Somente pessoas extramamente sensíveis conseguem tal feito. Parabéns!! Desejo de grandes inspirações.

Gleise Horn disse...

"....mas há dor. E dói. Sempre dói." E as palavras escritas do sangue que sangrou são visceralmente belas.