domingo, 24 de junho de 2012

Sou Grilli porque ele era Grilli


Acho que ando correndo tanto e tão desatento que, se não tivesse sido lembrado pela manhã, talvez não me recordaria que hoje faz 13 anos que meu avô pai de minha mãe faleceu.
Lembro-me como se fizessem menos de 13 horas (e as vezes dói como se fosse assim): era uma quinta-feira quando, 24 de junho de 1999, por volta das 8 horas da manhã minha mãe abriu a porta do meu quarto para me acordar. Acordar a mim que, na noite anterior, havia me prontificado a estar com ela naquele dia de cuidados no hospital.
Naquele instante, tomado por um sono que me é comum até os tempos hodiernos, disse a minha mãe que não iria. Preferia ficar dormindo.
Compreensiva, deixou-me na cama como estava e foi terminar de organizar o que precisava.
Menos de cinco minutos depois e pulo da minha cama num estalo, dirigindo-me ao banheiro único da casa em que morávamos, dizendo-lhe que me aguardasse apenas um pouco e eu a acompanharia.
Naquela manhã fomos ao hospital ela, minha vó – sua mãe – e eu.
De Guarulhos até o bairro de Santo Amaro onde ficava o hospital foi uma longa caminhada num trânsito de São Paulo que, há 13 anos não era menos do que hoje.
Lá chegamos; encontramos a irmã de meu vô e sua filha que ali ficaram para lhe prestar assistência. O quadro não era auspicioso, mas no semblante havia certa paz.
O dia foi correndo minuto após minuto como nunca deixou de ser.
Por volta das 15 horas uma respiração cada vez mais pesada que exigia que, de tempos em tempos as enfermeiras fossem chamadas a que fizessem seu serviço, até que, por volta das 16h30 uma crise que – ainda não se sabia – seria a última que lhe viria.
Lembro-me de minha vó aflita assistindo um instante em que era clara a luta de alguém pela própria vida e minha mãe, como numa oração aos céus e numa súplica ao próprio pai, pedindo-lhe que, enfim, permite-se se descansar.
(na noite anterior, mesmo tendo tomado uma dose de remédio para dor que, segundo o médico, faria qualquer pessoa forte dormir por uma semana, meu avô tinha acordado e, com o piscar de olhos e apertar de mãos, comunicou-se com os 04 filhos, pediu que fizessem uma oração, lhe lessem a Bíblica e lhe cantassem alguns hinos da harpa. O médico, descrente, ainda dissera a minha mãe e seus irmãos: “- não acredito nesse Deus de vocês, mas alguma coisa de diferente há na situação de seu pai. Ele não poderia estar acordado.” O médico precisou ver com os próprios olhos).
As enfermeiras nos pediram que saíssemos do quarto. A angústia era um sentimento que não se permitia apenas sentir, mas mostrava-se nos olhos e nos rostos de nós três que estávamos ali.
Minha vó esquecera sua bolsa no quarto. Coube-me a mim busca-la. Ali entrei e, até hoje, trago a certeza de ter visto os últimos segundos do que seria a vida que mais me faria falta na minha vida.
Do tempo em que saí do quarto, por volta das 17h05 daquela tarde cinzenta de quinta-feira, passaram-se 10 minutos, até que a enfermeira viesse com a inevitável, porém triste notícia.
Naquela tarde de quinta-feira encerrava-se uma vida que pode se dizer vitoriosa. Uma vida que iniciara-se num dia 1º de novembro de 1939 (registrado no dia 04 de novembro). Ali acabava a vida terrena de um vencedor: bom marido, de gênio forte, mas amoroso; pai de 04 filhos; pastor de milhares de almas, de grandes igrejas, seguramente um dos maiores pastores das Assembleias de Deus no Brasil; então avô de dois netos; sogro de 01 genro e 03 noras. Ajudador dos que recorriam a si.
Até que ele fosse não conhecia quem me fosse próximo que tivesse ido e depois que ele partiu, foi-me boa a vida no sentido de permitir que ninguém mais partisse. Mas até hoje dói.
Meu avô, Perácio Grilli, nome que ganhou em homenagem a um jogador da Seleção Brasileira que disputou as copas de 1934 e 1938, morreu de câncer. Uma morte anunciada em dois momentos diferentes: o grupo de jovens da Assembleia de Deus de Osasco foi visitar a igreja do Jd. Vila Formosa. Não era hábito dele acompanhar essas saídas, mas como era uma igreja de uma região em que ele morou e vizinha de uma outra de que foi pastor, resolveu que iria. Era junho ou julho de 1998. Até então, meu avô vendia saúde. Homem grande que raramente se gripava. Ao final do culto, enquanto cumprimentava e era cumprimentado, uma senhora se aproxima de minha vó. Minha vó não a conhecia e ela não conhecia minha vó. Essa senhora a toca no ombro, chama sua atenção, aponta na direção de meu avô e lhe diz: “Deus manda avisar que meu servo já está preparado!”
Como se aproximou, essa senhora se foi. O choque de minha vó foi tal que ela não comentou com ninguém. Certamente quis desprezar aquela palavra no seu coração. Calou.
Setembro de 1.998: a igreja de Osasco comemorava seu Jubileu de Ouro. Após uma grande e difícil reforma, uma semana de programações para comemorar os seus 50 anos. Num dos cultos, o preletor da noite, Pr. Samuel Bezerra, parou a palavra  e disse mais ou menos assim: “Deus está me incomodando para que eu diga algo. Não ia dizer. Estou calando, mas Ele me manda dizer: Ele tirará uma rosa muito valiosa desse seu jardim e muitos não entenderão, mas não é para se questionar. Ela já está pronta!”.
À noite, quando chegamos na casa de meu avós, à mesa de jantar meu avô, taciturno como era raro, confidenciou: senti que aquela palavra foi para mim.
Outubro de 1.998: uma forte dor no peito e desconfia-se de um infarto. Levado às pressas ao hospital, fica de observação e a equipe médica solicita uma biópsia do pulmão. Não era um problema cardíaco e o diagnóstico não podia ser pior: câncer. O pior e mais astuto dos cânceres.
Não sei precisar o dia, mas tenho por certo que foi uma quarta-feira a tarde quando, tendo meu avô descansando no quarto que era de minha irmã, minha mãe talvez sem saber como dar a notícia, me vê deitado sobre sua cama e me diz: “não faça muito barulho. Seu avô está com câncer”. Ele ainda não sabia.
Aquela notícia me caiu como uma bomba. Na insignificância dos meus 13 anos, o que me veio a mente foi um sonho sonhado semanas antes em que eu via, num cenário muito escuro e enevoado, um caixão no centro da igreja de que meu avô era pastor e duas pessoas conversavam quando uma perguntava para a outra: “do que ele morreu?” e a outra dizia: “câncer”.
No sonho eu não via quem estava no caixão, mas não era preciso ver.
O abatimento tomou conta de todos. Havia, naquelas primeiras semanas o paradoxo de quem queria acreditar que o Deus que se pregara e se ouvira naquela casa faria o milagre e mostraria a grandiosidade de Seu poder, contra o medo do inevitável pior.
Todas as noites, em minha casa, a família se reunia e fazíamos um período de cânticos e outro período de oração. Dia sim, dia também, todos prostravam-se e pediam pelo que julgavam que viria.
Na igreja, até então, havia rumores, mas nenhuma confirmação. Por alguma razão que não me recordo, esse problema particular não foi transmitido de imediato. Notava-se a estranheza na ausência de um pastor sempre presente.
Antes que se desse a notícia para a igreja, a visita de uma senhora bastante respeitada com um recado. Ela disse que, enquanto lavava louças, uma voz lhe ordenara que fosse até meus avós e lhes dissesse que Deus já havia preparado aqueles que “poriam às mãos no meu avô”. E não poderiam ter sido mãos melhores. A médica oncologista que lhe tratou tinha acabado de perder um pai com o mesmo câncer e tratou do meu avô como quem trata do próprio pai; o enfermeiro contratado, quando soube que meu avô era pastor, revelou-se evangélico e, por vezes, considerou sequer cobrar pelos seus serviços. A fisioterapeuta era de um cuidado que ia além do profissionalismo.
Mas a roda da vida continuava a rodar e a doença, cruel como só ela, estava ali.
Culto de Natal de 1998: é chegada a hora de comunicar à igreja. Àquela altura as sessões de quimioterapia já debilitavam um corpo atacado por um câncer poderosíssimo. A família apresentou dois louvores naquela noite: “Eu não me esqueci de ti” e “Quisera sempre orar”. Encerrado o louvor foi dada a palavra a meu avô que noticiou para a igreja o deserto que atravessava. Como homem de Deus que se soube, disse ter fé de que o tratamento que fazia seria como as águas do rio Jordão foram para Amã; que os remédios que tomava seriam como o lodo que Jesus passou nos olhos do cego e que em breve veria o relógio de Acaz andar para trás e receberia a resposta de Deus.
A igreja em prantos, pedia a Deus por Sua misericórdia.
Àquela altura, o médico já tinha lhe dado não mais que 06 meses de vida. Pediram ao médico que não lhe dissesse que esse era o prognóstico porque seria uma notícia assaz devastadora, no que o médico deu de ombros e disse que se passasse por meu avô lhe diria. O médico não disse, e os meses que não seriam mais do que 06 se meu avô fosse muito forte, foram quase 08.
Meu avô foi velado como se fosse um Chefe de Estado. Centenas de pastores de toda a região Sudeste, Goiás e Brasília compareceram à cerimônia e ali contaram histórias acerca daquele homem que, soube eu ali, despertava toda sorte de admiração em homens que também despertavam admiração.
Mais de 2 mil pessoas passaram por aquela igreja.
Lembro-me que quando o Quarteto Alfa cantou pela manhã “Mais perto quero estar”, foi quando a ficha caiu. Meu avô estava perto de Deus e, para sempre, longe de mim.
A marginal do rio Tietê parou para que os batedores da polícia guiassem o cortejo fúnebre até o Cemitério da Vila Alpina, numa fila de carros que, certamente, poucas vezes se viu naquela cidade de São Paulo.
Confesso que tenho vários momentos em que acho mais fácil descrer em Deus do que crer. Muitas vezes, para parafrasear Vinícius, “quero crer, mas não consigo. É tudo uma total insensatez”, mas é a lembrança do meu avô, seu exemplo e tudo que permeou sua passagem dessa vida, que me mantém um mínimo de sanidade espiritual.
Note-se que, as dores de câncer aumentavam quando lhe davam morfina, mas sumiam quando tomava um simples relaxante muscular.
Hoje ficam a lembrança e a saudade. Não houve um dia nesses 4749 dias em que eu não desejei pelo menos mais um dia com meu vô.
Foram várias as noites em que acordei de um sonho em que ele parecia muito vivo e tudo que eu queria era poder ter a chance de sentar no chão e ouvi-lo falar. É poder beijar-lhe a face, dizer que amo e que ele não se atrevesse a morrer outra vez, porque a falta que ele faz é brutal.
Milhares conheceram o pastor; 04 conheceram o pai; outros 04 o sogro. 01 conheceu o esposo, mas o avô amoroso, docemente severo quando precisava ser, desses que ficava bravo se eu falasse de horóscopo ou cantasse em falsete querendo imitar algum cantor de rock, esse avô que fazia de tudo para ver um sorriso dos netos e que ficava bravo se lhe mexiam o jornal, esses só conhecemos Lilian, minha irmã, e eu. E como ele faz falta.
As vezes me pego olhando para o céu desejando que fosse verdade que algumas daquelas estrelas fosse ele olhando por mim. Mas ele não me haverá. Olho meus dias e vejo que me aproximo do tempo em que a maior parte da minha vida será uma vida sem a presença dele e me pego temendo esquecer o tom de sua voz, as formas do seu rosto, guardando apenas algumas lembranças pontuais suas. Mas o tempo, mesmo cruel, não é tão poderoso assim.
Hoje faz 13 anos. Daqui alguns anos serão 30 e, se eu tiver sorte e saúde, passarão mais de 50 anos, e não haverá ano, não haverá mês ou dia em que eu não lembrarei de meu vô como exemplo, com carinho e sempre com o mesmo ou ainda maior amor.
Dessa linhagem do tronco que vem de seu pai, os Grillis continuarão, porque, se ele era Grilli, Grilli também eu sou.
Onde quer que ele esteja, que ele sempre receba o beijo meu.

7 comentários:

Hevellyn Pryscylla disse...

Me emocionei

Anônimo disse...

Lindo, William! Eu fiquei bastante emocionada. A ligação espiritual que vc tem com seu avô, tenho com minha mãe, que tb partiu para o mundo espiritual. A religiosidade em minha mãe tb era marcante, embora Católica. Ela faleceu, praticamente, segurando um terço e pouco segundos antes de falar comigo pelo telefone (no dia das mães). O câncer, esse eu conheço de perto, tb perdi uma irmã assim...
Essa sua dor, tb é minha! Eu compreendo bem.
Uma coisa é certa: esse seu desabafo vai te fazer muito bem.
Abraços!

Ana Clara

Anônimo disse...

Lindo!!!Lindo!!!Lindo!!!
Não preciso te dizer que estou me acabando em lágrimas.

Helena Cristina Grilli Gama

Aline Pigozzo disse...

Impossível não me emocionar!
Qualquer um que compartilhe da experiência de perder um ente querido revive neste texto um sentimento de luto que me é familiar... mas mais do que isto, a devoção dedicada em cada palavra escrita nos causa um sentimento terno de respeito e admiração, e nao se trata daquele respeito que dedicamos aos mortos, mas falo de um respeito e de uma enorme admiração pela vida aqui contada... de um pai, avô, marido, pastor e, em suas diversas faces, um homem segundo o coração de Deus!
Para quem foi, de alguma forma, privado de ter no seio de sua família uma boa referência como esta que marcou sua vida (e ele com certeza sabia que estava marcando)parece uma baita injustiça divina que homens como o Sr. Perácio Grilli nao viva pra sempre... mas quem foi mesmo que disse que ele nao vive?? Tenho certeza que vive a vida eterna ao lado de Deus Pai que muito se alegrou com sua chegada... embora dolorosa a morte, ainda pouco sabemos sobre ela ("Preciosa é à vista do SENHOR a morte dos seus santos." - Salmos 116 : 15).

Pelo que você conta, e pelo que conheço de você, as referências à ele são excelentes e por isso me atrevo a imaginá-lo (perdoe-me pela ousadia)... e o imagino lindamente... posso pensá-lo com um humor peculiar arrancando sorrisos e mantendo a mesma expressão forte (com aquele olhar penetrante e sobrancelhas grossas que vejo na foto), dá pra imaginá-lo pastoreando com autoridade e amor... ouso até a calcular o frio na barriga de ser exortado por ele rs (conte-me depois, caso tenha sido um neto arteiro), fico pensando em quantas lembranças guardadas pelos filhos, filha, genro e noras... a história de amor que viveu com sua avó... quantas outras coisas mais poderiam ser ditas por cada uma das milhares de pessoas que se despediam dele naquele 24 de junho de 1999... mas minha mente ainda se atém a ele, e não me vem à cabeça nada além de uma profunda e íntima experiência com Deus... consigo imaginá-lo visitado e cuidado por Deus em seus minutos finais, ouvindo os cânticos e a leitura bíblica e vencendo de uma maneira inexplicável aos olhos humanos (e principalmente dos médicos)a dor e a morte, com o coração grato, cheio de Deus e de vida... de vida eterna! ("Quando chega a calamidade, os ímpios são derrubados; os justos, porém, até em face da morte encontram refúgio." - Provérbios 14:32)

Mais do que lamentar a ausência deste homem que nem me parece desconhecido, dá pra sinceramente invejar os que realmente o conheceram... teria sido um enorme prazer!

Mas tenho certeza de que ele deixou muito, mas muito mais do que genes e sobrenome ao Grilli que é tão bom ter por perto... que sorte ter você aqui pra nos contar sobre ele (ele ficaria muito orgulhoso)!

(Essa é a hora em que te daria aquele abraço beeeem forte!)
Fique com Deus.
Aline

Anônimo disse...

Eu tive o prazer de conhecer seu avô, foi em 1989 quando me converti ao Senhor Jesus e congregava no Jardim Paulista Assembléia de Deus Ministério do Madureira, Guarulhos, e seu avô era o pastor presidente do campo de Guarulhos, muito aprendi com este homem de Deus que me ensinou a ser fiel e servir e amar a Deus em qualquer circunstância, tenho total certeza que seu avô está descansando com o Senhor Jesus.
Claudio.

Tatiane Kayaki Moreira disse...

Nossa... que emoção!!! como ele faz falta.... lembro-me dele intensamente como pastor, e principalmente a pessoa maravilhosa que era, o tio que nos fazia rir sempre. Lembro-me dele com muita alegria pois sempre me alegrou todas as vezes que estivemos juntos. Um tio espetacular e que ficará sempre em nossos corações e na nossa memória.
Tati

Anônimo disse...

Somente um nó que não permite eu ter palavras!!!
Somente as lágrimas que teimosamente insistem em inundar o meu rosto!!!
Quanta saudades, e ela é eterna!!!

És um GRILLI tão lindo e sensível quanto ele o era!!!

Elienai Moreira de Aguiar