domingo, 7 de abril de 2013

A Primeira que disse me amar


Foi a primeira a dizer que me amava. Ah! Como eu gostava dela. Era acordar e contar as horas para que chegasse a hora de assisti-la passar.
Àquele tempo, o que me ocupava era olhar quem à minha volta, com olhares sempre cheios de inquisição. Meu olhar só não era mais pedante do que minha mania horrível de achar que era pouco quem eu nem sabia ser. Não me eram tempos fáceis, ainda que à época, tudo parecesse mais simples mesmo quando insistia em complicar.
Não. Nunca fui fácil. E sempre achei o mundo previsível e incapaz de me surpreender desde a última surpresa. Os últimos meses daquele ano de meio da década que já passou tinham sido duros. Iniciaram alegres, mas logo foram tomados de uma melancolia que sempre me acompanhará.
Era isso. Estava decidido. Seria sozinho e faria da solidão minha principal companheira (é impressionante como é fácil se pensar sozinho, mesmo estando cercado de pessoas).
Mas sem que eu esperasse, eu a vi. Uma, duas, três noites e eu a vi em todas elas. Nascia o novo dia e, no fim desse dia, era ela que eu via. Havia ela. Ontem não tinha, depois de “hoje” sempre haverá.
Era uma terça, talvez uma quinta, de repente até numa segunda, mas não me surpreenderia se fosse uma quarta ou mesmo uma sexta (não era sábado, nem era domingo). Mas depois daquela noite, de onde eu estivesse, não importava quantas fossem as pessoas ao seu redor, era como se só houvesse ela. Eu a via surgir em meio de qualquer multidão: alta e quase sempre calçando saltos que a faziam mais alta; pele clara, porte de modelo, cabelos loiros lindos, levemente ondulados e que lhe desciam qual moldura em volta de um rosto lindo que, ao menos para mim, era arte pura. Seu sorriso? Seu sorriso me causava o meu sorriso. Seu sorriso era um sorriso feito em lábios macios que sempre me pareceram o destino mais que perfeito para os lábios meus.
Por causa dela gostei de músicas que nunca gostaria e nem nunca mais gostei. Também por causa dela, existem músicas que nunca mais toquei (quando tocava era pra ela e ela sabia que era pra ela e sorria de longe ao me ouvir tocar... pra ela).
Mulher bela, menina linda... era o nome da música que lhe fiz. A música era o nome dela, toda ela... eu era dela e nem eu mesmo sabia o tanto que era dela (até quando?). Abraçá-la era encontrar o sentido do dia que nasceu.
Ainda bem novo, estudante com muitos sonhos, todo um futuro e todo direito de ousar (inclusive de ousar sonhos absurdos), ela era o sonho que eu mais gostava de sonhar. Ela me fez voltar a gostar, depois de mais de um ano incapaz de gostar.
Mas gostei de longe. Ela sempre soube que eu gostava dela. E isso a fazia longe. Logo ela que sempre teve medo de me machucar e sentia ter poder pra isso. Como eu gostava de longe, usava esse ‘gostar’ pra me proteger de quem eu vinha a me envolver. Estive com várias gostando dela e, graças a isso, gostei pouco de todas que não eram ela. E a cada uma que era nova, o ciúme dela fazia brigar comigo, fazia um silêncio longo e depois voltava sorrindo. Seu silêncio me fazia triste, mas por ele eu me sentia rei. Do jeito dela, ela também gostava de mim... mas se conhecia a si, melhor do que eu.
Lembro-me como se ontem a última vez que a vi: fazia muito tempo que não a via. Era uma noite de sexta-feira em que, tendo passado pela casa onde ela morou, pensei “vou ver a... hoje“ e, realmente, chegando ao restaurante, ela também estava! Sorri de longe, respeitoso, ela não me viu. Já no caixa, pagando a conta, eis que me chega ela vindo não sei de onde, mas parando para um “oi Will, tudo bem?” que me fez refletir nos lábios o sorriso que sorriu do coração.
Não lembro como foi o primeiro beijo e nem lembro como foi o – suposto – último. Mas me lembro que sempre ao se despedir ela me dizia: “Will” (ela foi a primeira no mundo a me chamar assim), “se cuida direitinho”. Até uma noite em que, seguido disso, ela me diz “escuta: te amo, tá?”.
Talvez não amasse. Não me interessa. Era ela, era a voz dela, vinda dos lábios dela e falando pra mim. E em todas as conversas o fim era esse até que o fim foi mesmo fim. Eu errei. Me perdi na necessidade dela, num tempo em que já não tinha direito de querê-la pra mim. E ela disse adeus. Partiu dela. Sempre partia dela. Ela foi o início, o meio e o fim de uma história que até hoje reluto acreditar ter tido esse fim. E que, por isso, mantenho viva na memória que não se apaga (pouco me importa o que o cartório diga dela nos últimos anos que não a vi).
Lembro de uma foto sua, linda, em branco e preto, usava um boné e seus cabelos em rabo de cavalo atravessando o fecho desse boné. O destaque daqueles lábios que tanto gosto (e não esqueço). A foto que mais gostava depois da foto de nós dois. Não tenho mais essa foto que sempre gostei. Nem assim consigo mais lhe ver. Só lhe vejo na memória, no silêncio, na lembrança, na noite, na solidão.
E faz mesmo anos que não a vejo... nem tenho seus telefones, nem tenho seu facebook, nem msn, nem contato nenhum. É raro que eu saiba dela e mais raro ainda que eu procure saber. Sei onde ela ainda está, mas não está para mim, muito embora meus desejos de felicidade sejam sempre pra ela: pra ela que assina o nome do pai, mas não o da mãe que eu sempre achei que combinaria com ela; pra ela que me fez sorrir, me fez gostar, me fez querer; pra ela, primeira de todas a me dar algum sentido ao verbo “amar”.

“Sem que eu me desse conta, meu coração me atraiu... (set/2005)”

3 comentários:

Ana Rúbia disse...

Ameiiiiiiiiii. Parabéns William!!!

Anna Timoteo disse...

Fiquei emocinada ao ler..

Daniela Bernardo Vieira dos Santos disse...

Quando abri o livro do Farias & Rosenvald, para estudar para a prova, li a seguinte frase:

" Ninguém vale nada enquanto não foi amado".
(Tennessee Williams)