sexta-feira, 11 de abril de 2014

Pelo buraco da fechadura

Algumas pessoas parecem subestimar a vida. Parecem preferir não reconhecer que a vida é um caminho sinuoso, cheio de curvas, de perigos e de necessárias mudanças de rota. É como se tivessem traçado um mapa que as levará para o destino que imaginam seja o que devem chegar. Quando, do nada, veem-se forçadas a não seguir por aquele caminho, logo pensam que vivem mal e que as coisas não são como são, porque não são como elas acharam que deveria ser.
Algumas pessoas parecem achar que as pessoas são (ou deveriam ser) o que elas mostram. Algumas pessoas parecem crer que o que se faz na superfície é o que se vive e se pensa no mais profundo de si. São pessoas que têm certezas escoradas naquilo que pensam sozinhas, muitas vezes baseado no que lhes levaram a pensar quando viviam o momento de inocência que se tem na infância.
Várias e várias vezes vi pessoas procurando reproduzir o conto de fadas dos seus sonhos na vida vivida no mundo real. E sofreram. Sofreram porque não entendiam que o príncipe com que sonharam não existe e que aquele que deveria ser, está longe de ser.
Não. O que as pessoas mostram – o que nós mostramos – está longe de ser o que elas são (somos). O que as pessoas são, geralmente está do outro lado da porta em que se trancam longe dos olhos de alguém. Daí a expertise do grande Nelson Rodrigues, o cronista da vida vista pelo buraco da fechadura mostrando que as pessoas não são um poço de virtude. Que nem todo marido traído é vítima de sua esposa, mas muitas vezes, cúmplice da traição. Que nem toda dama da sociedade anda de táxi, mas gosta do contato dos corpos suados de motoristas e cobradores da lotação. Que nem todo machão está livre de, na hora de sua morte, pedir o beijo de outro amigo machão ou que por trás de uma irmã mais nova pode estar um anjo negro capaz de toda sorte de perversão com o noivo da irmã.
E você? Quantas vezes você fez algo que não queria que ninguém soubesse, que não te seria honrado, mas mesmo assim fez? Quantos são os teus gostos que você pensa que ninguém entenderia, mas que te assanham a uma vida que é só tua e de mais ninguém? O que se veria de ti, se te vissem pelo buraco da fechadura da porta que se tranca atrás de ti?
E não se trata de não poder resistir. Todos podemos resistir ao que quisermos. A questão é que não fizemos questão de resistir. É como quebrar um regime. Você está há dias só no alface e, de repente, se depara com uma suculenta torta de chocolate. Não conseguiu resistir? Conversa. Você não fez questão de resistir porque o prazer de agora seduz mais do que a esperança de amanhã.
Ah, o buraco da fechadura que nos esconde dos olhos da censura e nos permite a maquiagem que nos mostre quem achamos que será aprovado por quem a aprovação não se deveria sequer fazer questão.
Pelo buraco da fechadura você vai ver que um irmão dorme com a mulher do irmão ou uma filha que deseja seu pai sexualmente
Pelo buraco da fechadura um pastor acessa sites pornôs, um padre abusa de uma criança e um bom marido goza com outro homem.
Pelo buraco da fechadura, a dama que se mostra fiel dá-se aos homens mais impensáveis e o velho frágil oculta a sanha devastadora de quem precisa consumir e ser consumido.
Pelo buraco da fechadura têm-se segredos, perversões e todo um colorido que faz com que a vida possa ser tudo, menos a previsão de que todos são iguais, decentes ou não. O senso comum não entende da vida. O senso comum não vive. Só atrapalha viver.
Pelo buraco da fechadura as pessoas são quem elas são. Nem certas, nem erradas... só gente.

2 comentários:

Carla Peron disse...

Como diz a música do Capital Inicial:
"o que você faz quando, ninguém te vê fazendo, o que você queria fazer se ninguém pudesse te ver".
É a mais pura realidade.
... e a vida segue...

Unknown disse...

Parabéns pelo texto, ele me fez lembrar de uma questão que sempre me vem à tona: Como incomoda o fato de pensar que o homem mais honrado, pode encontrar a sua humanidade nas mesmas bases que se fundamentam as do homem mais perverso e desonrado. Por mais vil, repugnante seja uma pessoa, existe humanidade nele, por mais que não se queira enxergar isso, a humanidade que ele possui não difere da do observador. O seu texto, responde àquilo que há muito já se sabe, mas que muitos não reconhecem: quando não enxergamos qualquer humanidade em uma pessoa, é porque existe um bloqueio criado por nossas mentes, consciente(acredito mais nessa hipótese) ou inconscientemente, porque não aceitamos sermos comparados como semelhantes, ou melhor, iguais àquele que se observa.