sábado, 1 de fevereiro de 2014

Último Capítulo de Amor à Vida, o beijo e as sutis mudanças de uma sociedade que é viva

Como já era de se esperar, após a cena do tal beijo gay da novela Amor à Vida, surgem várias teorias a respeito do que tal gesto representa. Desde os mais entusiasmados militantes do movimento LGBTT aos mais raivosos “religiosos” (desses que acham que Deus só é o “seu” amor e não TODO amor), cada um tem uma visão muito própria dos rumos da sociedade brasileira frente a essa (velha) nova realidade que se apresentou.
Em primeiro lugar, é preciso que se diga que não há qualquer inovação na representação de dois homens se beijando. No Cinema, no teatro, na literatura – e, principalmente, na vida real – isso é mais do que comum. Logo, afora o fato de ter ocorrido pela primeira vez numa novela da Globo, a programação mais assistida e comentada do país, não há qualquer razão para festejos ou assombramentos.
Ao contrário do que alguns defensores da “causa gay” querem acreditar, o fato de se ter transmitido o beijo entre dois homens não significa uma mudança de consciência da população brasileira ou mesmo um cala boca ao Feliciano e aos que pensam como ele. Na verdade, também ao contrário do que pensam os defensores da “causa gay”, a tolerância das pessoas não é fruto da sua militância muitas vezes ofensiva aos que não comungam de suas preferências. Hoje, se há uma maior tolerância às relações homossexuais é porque a sociedade evoluiu uma evolução por estágios autômatos e, até por isso, inevitáveis.
São raros os que enxergam a opção/orientação sexual de alguém como uma anormalidade, como algo contra a natureza. Os que assim ainda o fazem, são muito mais guiados pelo medo de se permitir pensar diferente ou até pela incapacidade de enxergarem o diferente como um igual ou mesmo, temem não serem aceitos em determinado meio que parece fomentar, se não um discurso de ódio, um discurso dissociado do amor. Ora, a partir daí, a partir dessa realidade em que se enxerga que sim, que ser “diferente é normal”, as pessoas tendem a aceitar que se não lhes diz respeito, não tem que lhes fazer mal. Se não lhes faz mal, não é da sua conta e se não é da sua conta, não têm que dar palpite no que o outro faz de sua própria vida. E é a isso que entendo que se deve o fato de aceitarem bem o casal formado pelo “Félix e o Carneirinho”. As pessoas simplesmente entendem que casais como aquele simplesmente existem.
Quanto à torcida pelo tal beijo, estou certo de que ela não diz respeito a uma mudança de mentalidade da grande parte das pessoas, com a mesma certeza que tenho de que o público não gostaria de que em toda novela houvesse gays se beijando. Aqui, temos um elemento a mais. O autor da novela, não sei se por talento ou por acaso – muito embora fique com o acaso – não obstante as incongruências de roteiro e dinâmica das personagens, conseguiu desenvolver um romance palatável entre os dois. Quem via a dupla, não se limitava ao gênero, mas ao afeto que surgia e isso, também, graças a atuações seguras dos dois atores envolvidos.
Além disso, é importante destacar a maturidade com que foi demonstrado o “núcleo gay” da novela, uma vez que se fugiu do estereótipo “da bicha louca” de outros tempos e outras novelas e se aproximou para o público a realidade que se vê na rua onde há gays e eles trabalham, vivem sua vida, são cidadãos que amam, que sonham, desejam... que sentem a vida. Quando a gente se atenta para o indivíduo como um todo, deixando de rotulá-lo como alguém que a gente define por um único critério, nos aproximamos muito mais da nossa própria humanidade, feita e refeita nas várias circunstâncias que nos fazem quem somos.
O que a novela nos proporcionou, acima de qualquer coisa, foi a possibilidade de refletirmos como nossos (pré)conceitos limitam a nossa humanidade e, se é que essa improvável redenção da personagem do Félix pode sugerir alguma coisa, é que se as pessoas forem aceitas, e amadas, e puderem viver o que são, como são, com menos ou nenhum segredo, acolhidas por quem amam e sentindo-se livres não para chocar, mas sim, para serem quem são, a vida pode sempre recomeçar e ser mais leve e cada vez melhor.
Não. Eu não acho que a sociedade mudou. Acho que a sociedade é a mesma e seus "valores" continuam os mesmos, com a diferença que eles variam a depender do público para o qual cada um "se" prega. Mas as pessoas, essas sim mudam todo dia e a reação ao último capítulo da novela prova isso. Não é manipulação, não é fim dos tempos, nem obra do "satanás". É gente entendendo que ser gente não se aprende na cartilha, mas se aprende no coração, na vida que vive e na experiência que soma. Que bom...

Um comentário:

Carla Peron disse...

Caro William, a repercussão do tão falado beijo gay, já era esperado. O que me deixa impressionada é a dimensão que algumas pessoas dão para a orientação sexual de alguém. Mas fica fácil explicar, quando olhamos os preconceitos que mulheres ainda sofrem nos dias de hoje, pelo simples fato de serem do sexo feminino. É claro que é numa escala muito menor, se comparado com o final do século XX.
Não sou uma militante, defensora da causa gay, ou algo parecido. O que não podemos aceitar é que alguém sofra qualquer tipo de violência, por ter uma orientação sexual que não seja "papai e mamãe". Simplesmente penso que cada um segue sua vida, independente de raça, credo, cor, sexo...
Parabéns pelo texto!
Abraços.