domingo, 22 de junho de 2014

Uma só mulher guarda em si muitas mulheres e essas muitas mulheres são (todas) a mesma mulher – Vicky Cristina Barcelona

“(...) Eram amigas íntimas desde a faculdade e tinham os mesmos gostos e opiniões sobre muitas questões, mas quando se tratava de amor, seus pontos de vista eram opostos. Vicky não tinha tolerância à dor, nem sede de combate. Tinha os pés no chão e era realista. De um homem ela esperava seriedade e estabilidade. Ficara noiva de Doug porque ele era decente e bem-sucedido e entendia a beleza do compromisso. Por outro lado, Cristina esperava algo bem diferente do amor. Relutantemente, aceitava sofrer como um componente da paixão e se resignava a pôr em risco seus sentimentos. Não saberia dizer o que queria ganhar arriscando suas emoções, mas ela sabia o que não queria, e isso, era aquilo que Vicky mais prezava”.

É com essa narração em off que nos são apresentadas as duas personagens principais do filme “Vicky Cristina Barcelona”.
Vez ou outra eu resolvo escrever sobre algum filme que gosto e esse filme é, seguramente, um dos que mais gosto. O primeiro fato importante sobre esse filme é que ele traz a assinatura de Woody Allen e isso, por si só, já é uma grande coisa. É certo que esse filme já não pode ser considerado um filme recente, ele data de 2008. Mas na noite passada, após assisti-lo pela quarta ou quinta vez e, ao amanhecer, tendo comentado sobre ele, me ocorreu a vontade de vir escrever um pouco sobre.
A razão dessa vontade foi uma percepção de que Cristina e Vicky, na verdade, são a mesma mulher que dá vida às suas diferentes personalidades, cada qual sendo o equivalente ao id e ao ego, respectivamente, à sua outra metade. E se a intenção foi essa, o filme é – no meu entender – ainda mais genial.
Talvez uma das questões mais desafiadoras da humanidade desde seus tempos mais remotos seja: “afinal, o que querem as mulheres?”. Quanto mais se pensa a respeito, mais distante parece que se fica de uma resposta que seja minimamente correta. Tanto assim que a maioria dos homens desiste de saber o que as mulheres querem para se bastarem com a sua realidade de que eles querem as mulheres, sem que se importem em se importar sobre o que elas querem. Mas eu não consigo não me importar com a mulher e com o que lhe diz respeito, não me restando alternativa outra senão pensar, pensar e mais pensar.
E então eu volto ao filme. A mim me parece que Allen foi genial quando nos mostra que nem mesmo as mulheres estão muito certas do que querem e que, não diferente dos homens, são produtos (ou vítimas ou protagonistas) de sua própria circunstância e é por isso que a mesma mulher ama mais a um e é mais amada por outro, sendo diferentes mulheres para seus diferentes homens mesmo sendo uma só. O corpo da mulher esconde muitas almas e muitas mulheres que se revezam em ser quem lhes parece apropriado conforme aquilo que lhes move e comove.  E é aí que vejo Vicky e Cristina como a personificação das diferentes personalidades de uma mesma mulher e que ganha em complexidade quando, sendo a outra, precisam conviver não só com o que veem de si mesma vivendo no corpo da outra, como, ainda, a personificação de suas consciências futuras nas demais personagens do filme que, mais velhas e mais experimentadas na vida, não conseguem mais disfarçar a frustração de serem a principal falha da vida que se desejaram.
Vicky é a parte da mulher que sabe o que quer, que sabe que quer uma vida estável, com um companheiro que a ame e a admire e que lhe escute antes de decidir. Quer a casa no subúrbio sem a preocupação se haverá o dinheiro para a hipoteca. Quer a liberdade para cursar seus cursos, para decorar sua sala, educar os filhos que serão a consequência da vida perfeita que se imagina e tudo isso mesmo que à custa de jamais experimentar um êxtase capaz de justificar cada escolha dessa mais pela emoção do que pela razão. Não se importa se o marido não é o melhor amante, nem o mais ousado ou divertido. O que lhe importa é que ele esteja lá, como uma peça importante de um tabuleiro que ela armou para não perder (ainda que não aspire ganhar).
Cristina não. Cristina é a parte da mulher que espera é que sonha com o que lhe arrebate. Aquela mulher que não acha tão absurdo esperar que um príncipe chegue num cavalo (ou numa limusine), lhe beijará o beijo que lhe retirará o chão e fará amor com a volúpia de um deus grego que desce do Olimpo para adorar uma mortal e premiá-la com a sua poderosa semente que faz nascer uma vida diferente de tudo que se conhece no mundo, numa exclusividade que ela não pede, mas numa intensidade que lhe permita julgar sem qualquer outra igual. Cristina sabe que não quer o mais ou menos, que não quer o previsível, que não quer o que todos acham que ela deveria querer para ser feliz, mas sim, que ela quer sempre mais e mais e mais.
E tudo isso fica perfeitamente perceptível quando surge a personagem Juan Antonio, uma artista plástico que demonstra interesse em ambas (ao ponto de, no primeiro encontro com as duas, convidá-las a que se juntem a ele em sua cama). Quando Juan Antonio surge na história há a perfeita fusão nas duas personagens e elas nos mostram que devidamente estimulada, a mulher muda quem é por aquele que lhe pareça merecedor de que ela seja o que, muitas vezes, nem ela se sabia capaz. Aquela que era noiva e amava o noivo e o pacote oferecido por ele, parecendo sempre incapaz de qualquer ato irracional, entrega-se ao misterioso sedutor que não lhe oferece nada além daquela noite que não se repetirá e que não merecerá nem uma ligação nos próximos dias. Já a outra que aceita o que a vida lhe oferece, mais e mais, no convívio com aquele mesmo homem, vai se mostrando inclinada a rever suas vontades e, quando menos espera, já vive com ele como se fossem um casal que vive a estabilidade de um casamento só balançado e atrapalhado com a chegada abrupta de uma ex-mulher muito mais passional que aquelas duas que na verdade eram uma: Maria Elena.
Maria Elena seria uma capítulo à parte do que seja ser mulher. Maria Elena é toda estímulo, é toda intensa, é toda querer aproveitar cada segundo como se fosse o último porque, pra ela, cada segundo pode ser o último. Maria Elena é a mulher que pisa no homem que ama, mas que depois rasteja seu perdão; Maria Elena é a mulher que fere e que goza em ser ferida; é a mulher que se doa sem pedir que haja uma troca, até que, de repente, quebra a casa porque precisa ser vista por quem acha que a esqueceu. Maria Elena é uma paixão furiosa e louca, como loucas são muitas mulheres que apaixonadas só não perdem a razão porque ela há muito lhes deixou.
Há, ainda, a personagem de Judy, talvez o principal alter ego do alter ego de Vicky. Surpreendida por Vicky beijando o sócio de seu marido, ela a procura e faz sua dolorida revelação: “amo meu marido, mas não sou mais apaixonada por ele há muito tempo” e, assim, sente-se como a mulher que julga que – qual a mãe que deixa de comer seu último pedaço de pão para que morra no lugar do filho – na sua renúncia de si mesma espia seus pecados ao manter o laço matrimonial, mas para tanto, perfuma seu corpo com o perfume do adultério ao imaginar que, assim, disfarça os sinais do apodrecimento de si.
Ah... como não ser tomado por uma certeza de que as mulheres são a mais pura expressão da incerteza? Não como se querer definir a mulher como uma só mulher, ela é várias. Tantas que nem ela sabe. Mas, pergunte pra sua ou pra outra o que ela quer e ela já quis e ela te dará uma resposta e te esconderá várias outras, porque dentro dela há várias mulheres se querendo feliz e muitas delas (quase todas) não são pra você, mas para outro. E é isso que ela não diz. O homem se angustia porque quer um controle que não tem, nem pode ter. Sua mulher que lhe ama hoje pode esconder um outro amor mais forte, mas que ficou pra trás no instante em que ela escolheu dar espaço pra uma outra (dela) ser amada e amar. Ficou pra trás, mas não morreu. Apenas dorme no esconderijo de todas as mulheres que vivem dentro da sua mulher. Misteriosa mulher...
Enquanto isso, a roda da vida gira e essas mulheres (que no fundo são as mesmas mulheres) na distância desse homem que se reveza entre ser a constante e a inconstante de cada uma, vão voltando ao normal. Vicky, apaixonada por seu artista, casa e permanece casada com seu noivo tedioso. Cristina, exasperada de seu artista, segue sozinha em rumo a tudo que não seja o que ela não quer e, todas elas – sendo a mesma – vão em busca da próxima emoção que lhes mostre a delícia de ser mais de uma mesma mulher... 

2 comentários:

Carla Peron disse...

Muitas vezes, nos permitimos ser a mulher que os valores nos permitem ser.
Maravilhoso texto.
Abraços

Monique Espinosa disse...

Bela explicacao, ainda mais sobre atitudes de nos mulheres, porem nos tornamos dignas de aplusos em nossas conquistas desde que tenhamos carater, e se ha sentimento, ha feliciadade, prazer em buscar determinados objetivos.